Um dia vais olhar-me tão fundo nos olhos que reconhecerás a lua.
Pintura: Ashes (1894), Edvard Munch.

Na Assembleia do Inverno, ocorrência rotineira do Dia da Árvore, as nuvens carregadas de escuros e os trovões de luz continham-se para não aplaudirem em demasia as propostas apresentadas. Cada explosão de palmas significa tempestade, de imediato atribuída ao buraco do ozono que, cada vez mais alvo de documentários, já não tem noites de sossego. Para todos os efeitos o buraco dormia, há que bloquear o entusiasmo.
Um aparatoso e bem conjugado jogo de espelhos transformava três ou quatro nuvens pingadas, mais uma ou outra faísca de relâmpago, numa assembleia infinita. Sobre a mesa, ideias de grandiosidade. Pequenos heróis em auto-elogio, o reflexo traidor, combinado vegetal de multiplicações várias, voto anónimo de braço no ar, viva a Assembleia, viva o debate arrogante do pré-decidido.
Pintura: Rainwater dreaming, Moses Fry

É uma solução digna como outra qualquer. Quando se sente triste, concentra-se na felicidade das pessoas à sua volta. Espera um comboio, o seu momento reduz-se à espera de um comboio. É uma situação com muitas pessoas à volta.
Concentra-se, quando consegue.
Óculos de sol rasgam uma cara a sorrir, cruza a perna como quem adormece numa praia de espuma. Uma rosa, duas gerberas, dentro de momentos vai passar uma carruagem qualquer, é só uma máquina com ar bélico, aspecto de quem vai descarrilar a qualquer momento e bater em alguém, porque inventam frentes com faróis zangados; certo dia estava a brincar, canta a criança, eu caí e fiz um arranhão no nariz… na peeernnnaaaa.
Concentra-se, às vezes consegue.
Dentro de momentos. Deu entrada na linha um. E, porque deu entrada, ele entrou também. Um Magalhães de chapéu azul, nome escrito com letra à máquina no leitor de faixas, ouve música. Saco com letras chinesas, entre pernas abertas e chinesas de um chinês. No tecto, um espelho escuro reflecte pedaços de uma mulher a ler o jornal, um saco azul quase atropela uma cabeça, chuva estranha a do interior, um rio na margem direita da linha, árvores namoram o rio, uma ponte que me faz imaginar-te sempre que passo por aqui, o teu cais com o qual tanto sonhei, as campainhas que nunca param, no reflexo outra mulher com a mão suspensa nas preocupações da cabeça.
Concentra-se mas às vezes não consegue.
Uma mala de mulher com pele de animal. Parece que ainda lhe vejo as patas, ouço-lhe os gritos, quem o desventrou ainda não enriqueceu. Menina de quatro anos, tranças na coroa do cabelo, loura, vai adormecer no colo do pai. Dentro de momentos vai dar entrada nos braços do pai número um a carruagem oriunda da paz total de menina pequenina com destino ao sono. Efectua paragem nas pontes, nas nuvens capitais de distrito do céu e em todos os sonhos apeadeiros do tempo.
É uma carruagem com muitas pessoas, mas todas diferentes – como pode ele descobrir o denominador comum da felicidade? As mais felizes, se calhar, já adormeceram, o jornal é uma enciclopédia de tragédias, a música do Magalhães é adornada pelas perguntas da avó. Está ali um rapaz, nove bancos à frente, que já tinha visto no metro. Era mais feliz quando tinha a idade e o penteado dele. É para ele que escrevo, para mim quando era como ele. A menina da guitarra não mais foi vista, sentou-se numa carruagem diferente, ela que faz parte deste texto desde o início, mas ninguém o sabia ainda. Comprou bilhete ao mesmo tempo que eu, afinou a guitarra a meu lado, guardou-a depois.
O texto era mais bonito se ele não estivesse triste, ou conseguisse concentrar-se na solução digna. A menina adormeceu, as tranças já podem ser mesmo coroas se ela sonhar com isso. Concentração de fumadores junto à entrada do bar, inalação
Caminhava sempre de olhos na calçada, sem olhar para a frente nem para trás, sem avançar muito com os passos, sempre com a comichão de querer voar nos pés, até ao dia em que encontrou escondida entre dois tufos de erva selvagem um objecto que cegava de tanto brilhar: era a chave de mudar o mundo.
A partir desse dia, o caminho fez-se com o pescoço inclinado para cima, na busca de uma fechadura entre as nuvens.
E o mundo sempre igual.
Nem para a frente nem para trás. Caminhava para cima com a vontade, trepava cada minuto com níveis acentuados distância do chão. Pisava-o mas não o pisava. Não há cabeças, não há homens distraídos a esconderem-na atrás de um jornal, não há o velho furioso contra quem acaba de chocar com violência, não há os apitos em marcha lenta nem a travagem sonora sobre a passadeira, sobre o sinal vermelho que quase atropelava este cabeça no ar. Tudo é a infinita escadaria da mudança, o acesso ocasional para mudar o mundo.
E ele caminha, caminha com dez passos de distância entre cada pé, vai, vai sempre, língua apontada ao sol, em tom de ameaça de matar o mundo, percorre na vertical dia após dia. Quer abrir a porta, mas… mudar o mundo com quer cor?


