27.1.12

Lisboa, cidade rural

O rapaz cospe na mão,
apoia-se na enxada e observa a planície:
não sei por onde lhe comece.

12.1.12

Um terço do mundo

Há beleza no champanhe e na desobediência
apenas se estiver evidente
na luz ou na sombra do consciente
que todos os dias
às três da tarde
uma septuagenária arrasta o banco com as muletas
até ao passeio da Calçada do Forte e
no que há de sereno numa porta aberta
reza um terço
ao mundo.

9.1.12

Crise

O dinheiro: vale todos os gestos, a moeda: arrumo-te a vida, música, o carro, por um cheque: restauro a luz, a perna, o vinco das calças, em dinheiro vivo: tosco-te o cão, o clima, a falsa memória do verso, em mil réis: troco-te a história, descubro a cura, refaço o destino, por essa dívida: o esforço de estar vivo, suspenso no topo do muro, sopra com muita força para um pátio de recreio, para o deserto de quem brincou, a conta: dois bifes, despesas da viagem, o filme de domingo, fica caro: desvia-te das radiações, não confundas estações do ano, resiste: enquanto respirar estiver isento de imposto.