1.10.14

Stress pós-tauromárquico

na Praça de Tiros de Santa-Ré
o grupo local de infiltrados amadores
enfrentou a feira sem
percurso a bandaralho

a auditoria, exclamada
em plena camarata bancária,
inalou de excrementação profunda
e uivou um uivo comportamental

- sem bandaralho!
- sem bandaralho, caralho Carvalho!

4.4.14

Há croquetes

Viva mais cá fora, onde o Justin Timberlake pinta o cabelo cord-de-cadeira e a relva cresce na orelha de um gato. Coma pizzas crocantes com ouvidos de mouco, não seja parvo e tatue a palavra amor nos dedos da mão direita (deixe o polegar livre de letras, polegar-silêncio, antecipe as mudanças de humor, nem sempre o amor, atenção) como fez o Robbie Williams, que também estará cá com a sua banda filarmónica, e já são dois, vê?

Não seja burro como uma porta, hoje a cantar no lodo, amanhã a dançar na América, torne-se numa estrela e inscreva-se já numa das nossas caríssimas formações pessoais e quem sabe, não sendo mesmo burro como um penedo, até formação de competências e saberes.

Tudo tem um preço, daí a falta de vergonha no imperativo. Firme, avance.

Garante já o teu lugar, suba os muros do descontentamento, mutila-te todos os dias contra a vida para além dos outdoors, faça o que entender, abre bem os olhos, mas compre, mas compra. E, preferindo, também se pode colocar à venda. Também podes.

Não sejas boi, adquira já este consumidor.

13.11.13

Twittesia #1

# Na Travessa da Arrochela cinco lanços de escadas baixam as calças e comem bolachas. Há-de subir um político lúcido. Entretanto, a espera.

# Vestido de branco, um homem eleva pé atrás de pé. A política somos nós. Discorda. E contiua a descer. Com manchas de banana no casaco.

# Na loja de conveniência vende-se bolacha, vende-se banana. Mesmo sem dinheiro para comprar, os resultados económicos são milagrosos. Salvé.

# Cada um de nós remetido a cada insignificância que tem. É meu. Esta banana é minha. Esta bolacha é minha. Esta política, este país. Não.

# Subi três vezes os lanços de escadas, desci nunca. Tripliquei a angústia, disse-lhes das boas e grossas. E fui-me da Travessa da Arrochela.

15.11.12

Sangue, bastonadas: plano de fuga

Lisboa, 14 de Novembro de 2012



A meu lado, José erguia um ramo de flores.
Atrás de mim, o Coro da Achada cantava como se fosse livre de cantar na rua. Por todo o lado, gente de todas as idades, indignada e pacífica. 


Saibam, senhores, que há gente vê “firmeza” e “serenidade” numa agressão aleatória ao seu próprio povo.
Saibam, senhores, que é essa gente que vos governa.
Saibam, senhores, que o sangue dos vossos iguais ainda ferve nas ruas que hoje pisais.


Nós não fugimos. Com a sorte da cabeça intacta abraçados aos que vertiam sangue. Com a dor da cabeça em sangue abraçados aos que choravam incrédulos. Com as lágrimas dos que choravam abraçados aos que gritavam animais-filhos-da-puta-assassinos-selvagens.

Nós não fugimos. Fomos expulsos, coagidos, ameaçados, agredidos mas nós não fugimos. Soubemos que do outro lado, noutras ruas, outros como nós eram perseguidos e agredidos um a um – autêntica guerrilha urbana – e não fugimos. Num canto mais calmo, menos numeroso, é certo, mas não fugimos. Vimos raiva nos olhos escondidos pela viseira do capacete, vimos o desespero de alguns polícias “vão-se embora daqui, por favor”, impotentes, contrariados, possuídos por instruções de violência.

Nós, a multidão, não agredimos nenhum polícia, tentámos convencer quem o fazia a parar. Eles viram. E agradeceram de um modo muito peculiar. Nós não fugimos do nosso destino, do nosso futuro, mesmo que – no imediato – o futuro tivesse a forma de um bastão, mesmo com sangue a descer a face, nós não fugimos e havemos de fazer um país.

Não fugimos da dignidade, em nome da menina que chorava sôfrega de pânico. (Ela não fez nada!)
Não fugimos da justiça, em nome do rapaz em sangue que perguntava insistentemente “porquê, porquê?”. (Ele não fez nada!)
Não fugimos da verdade, por nos terem expulso da nossa própria casa com um aviso mudo de dispersão com cinco minutos de antecedência, que soube pelas TV´s. (Nós não ouvimos nada!)
Não fugimos do compromisso de vos derrotar senhor governo, em nome das duas senhoras de 60 anos derrubadas e pontapeadas sem critério. (Elas não fizeram nada!)

Hoje, as bastonadas continuam: pedradas record de desempregados, pedradas record de impostos, empurrões e pontapés nos custos de saúde, educação…

Amigos autoritários, não tereis alternativa senão a derrota, a queda monumental. Não vamos fugir mas temos um audacioso plano de fuga: vocês saem silenciosamente. Nós ficamos a construir um país.

25.10.12

Twittesia #0

# A chuva caiu como pão no estômago do homem que fumegava com fúria na boca e com gotas na língua. Em Madrid, um brasileiro festejava um golo.

# Fúria na boca de pensar a coisa que oculta e dizer o que jamais sonhou. Ignorando regulamentos, o homem suplica por um prolongamento.

# Gotas na língua de verdade. Dizer apenas o necessário e o urgente. E é urgente comer, é necessário dizê-lo.

# Na Graça, uma mota ruidosa fura o pacto de silêncio. Na apatia do anoitecer, grite-se: voa ali um homem vivo!

# Para onde caminhas? Que momento procuras?, pergunta um homem sentado. Estou sentado com muita pressa e não há maneira do meu momento chegar.

# É tempo de nos queixarmos da chuva, ensopados, como quem sai indignado de um mergulho de mar. Não nos avisaram que esta nuvem molhava.

18.6.12

Jacarandando


Corações tão curtos para tantos sobressaltos. Deram-nos uma realidade assim, já com as árvores despidas e as flores no chão. Jacarandás à chuva, ramos à espera.
Corações sem memória podam melhor as árvores.

27.3.12

variações sobre uma crise que lhes deu


Diz-se até para o ano, se o ano é de crise, para o ano é que é o deus-dará.
Diz-se já vieste tarde, ainda que com verdade, culpa tua.
Diz-se o pão a quem de mérito, sobretudo se te carregam aos ombros, no reverso do dinheiro.
Diz-se que isso é que é ser livre, ai de ti que nasceste pobre, deus te livre de o negar.

27.1.12

Lisboa, cidade rural

O rapaz cospe na mão,
apoia-se na enxada e observa a planície:
não sei por onde lhe comece.

12.1.12

Um terço do mundo

Há beleza no champanhe e na desobediência
apenas se estiver evidente
na luz ou na sombra do consciente
que todos os dias
às três da tarde
uma septuagenária arrasta o banco com as muletas
até ao passeio da Calçada do Forte e
no que há de sereno numa porta aberta
reza um terço
ao mundo.

9.1.12

Crise

O dinheiro: vale todos os gestos, a moeda: arrumo-te a vida, música, o carro, por um cheque: restauro a luz, a perna, o vinco das calças, em dinheiro vivo: tosco-te o cão, o clima, a falsa memória do verso, em mil réis: troco-te a história, descubro a cura, refaço o destino, por essa dívida: o esforço de estar vivo, suspenso no topo do muro, sopra com muita força para um pátio de recreio, para o deserto de quem brincou, a conta: dois bifes, despesas da viagem, o filme de domingo, fica caro: desvia-te das radiações, não confundas estações do ano, resiste: enquanto respirar estiver isento de imposto.

27.12.11

Poema para José*

Uma flor sendo modesta
pode esconder-se durante um
milénio na imaginação dos homens.

Por mais que chova
a raiz permanecerá teimosa

na boca dos homens

a saliva de açúcar
contra o esquecimento.

Um homem sendo ousado
há-de partir tanta pedra
que não sobre senão flor.

Um homem sendo homem
há-de aprender todas a letras do amor
- abcdefghaijklamnopqrstvwyxz: amor -
e renascer.

* José e o SINAL DE ALARME

19.12.11

Poema do Google Sky Map

Subíamos ao telhado para engolir as nuvens,
acima da cabeça os dedos grossos de Saiph esmagavam o zénite
e nem os que observavam o escuro lhe encontravam defeito.

Eram muitas cores juntas na boca
mas a língua ainda estava azul
e o relógio continuava parado
na madrugada.

Ninguém dormiu.

23.11.11

Parabéns pai

Meu pai faz hoje 62 anos. Começou a escrever as suas memórias, o seu grande romance de uma vida de intensa coragem, aos 61. O resultado, ainda provisório, é a coisa mais enternecedora que alguma vez li. Não resisti. E partilhei. Sou um filho babado sem saber como dizer "parabéns pai".


«Lembro-me que a partir dos meus três anos já começava a perceber o que tinha a fazer para  sobreviver.
E aos quatro já fazia recados por uma côdea.
E aos cinco anos já ia para o campo, para frente de quatro cornos e oito pernas para sobreviver.
E aos seis ia cortar erva para dar de comer a esses quatro ou mais cornos.
E aos sete ia cortar mato para a corte e era preciso fazer na terra.
Até que chegou o dia de ir a escola já com os meus nove anos e no primeiro dia fiquei muito admirado. Quando tocou a sineta para ir lanchar fiquei muito admirado por ver eles ir brincar. Era coisa que eu não sabia, pensava que isso não existia, mas aos poucos fui-me habitando. Entretanto chega a primavera lá vai o Fernando deixar as aulas para ir para a frente dos tais quatro cornos e oito pernas. Maldito tempo e maldita situação. Lá passou o tempo do dos meus dez anos sem ler e escrever. Maldito Salazar!»

Fernando Mendes, meu pai.

20.11.11

Sentença

Cada dia de trovoada
é uma nova paixão de Séneca.

Eu sei: a moral dos peixes

os erros da luz
e a dor dos homens.

Eu sei que o teatro está
irremediavelmente condenado
à sombra do espectáculo.


Eu sei que as consciências
não entram em erupção
mesmo que lhes seja pedido.

16.11.11

Ideias para injectar poemas nos romances (1)

Não somos totalmente humanos,
somos Simbiontes,
somos o humano com bactérias
ou as bactérias do humano?

A solidão não existe.