15.11.12

Sangue, bastonadas: plano de fuga

Lisboa, 14 de Novembro de 2012



A meu lado, José erguia um ramo de flores.
Atrás de mim, o Coro da Achada cantava como se fosse livre de cantar na rua. Por todo o lado, gente de todas as idades, indignada e pacífica. 


Saibam, senhores, que há gente vê “firmeza” e “serenidade” numa agressão aleatória ao seu próprio povo.
Saibam, senhores, que é essa gente que vos governa.
Saibam, senhores, que o sangue dos vossos iguais ainda ferve nas ruas que hoje pisais.


Nós não fugimos. Com a sorte da cabeça intacta abraçados aos que vertiam sangue. Com a dor da cabeça em sangue abraçados aos que choravam incrédulos. Com as lágrimas dos que choravam abraçados aos que gritavam animais-filhos-da-puta-assassinos-selvagens.

Nós não fugimos. Fomos expulsos, coagidos, ameaçados, agredidos mas nós não fugimos. Soubemos que do outro lado, noutras ruas, outros como nós eram perseguidos e agredidos um a um – autêntica guerrilha urbana – e não fugimos. Num canto mais calmo, menos numeroso, é certo, mas não fugimos. Vimos raiva nos olhos escondidos pela viseira do capacete, vimos o desespero de alguns polícias “vão-se embora daqui, por favor”, impotentes, contrariados, possuídos por instruções de violência.

Nós, a multidão, não agredimos nenhum polícia, tentámos convencer quem o fazia a parar. Eles viram. E agradeceram de um modo muito peculiar. Nós não fugimos do nosso destino, do nosso futuro, mesmo que – no imediato – o futuro tivesse a forma de um bastão, mesmo com sangue a descer a face, nós não fugimos e havemos de fazer um país.

Não fugimos da dignidade, em nome da menina que chorava sôfrega de pânico. (Ela não fez nada!)
Não fugimos da justiça, em nome do rapaz em sangue que perguntava insistentemente “porquê, porquê?”. (Ele não fez nada!)
Não fugimos da verdade, por nos terem expulso da nossa própria casa com um aviso mudo de dispersão com cinco minutos de antecedência, que soube pelas TV´s. (Nós não ouvimos nada!)
Não fugimos do compromisso de vos derrotar senhor governo, em nome das duas senhoras de 60 anos derrubadas e pontapeadas sem critério. (Elas não fizeram nada!)

Hoje, as bastonadas continuam: pedradas record de desempregados, pedradas record de impostos, empurrões e pontapés nos custos de saúde, educação…

Amigos autoritários, não tereis alternativa senão a derrota, a queda monumental. Não vamos fugir mas temos um audacioso plano de fuga: vocês saem silenciosamente. Nós ficamos a construir um país.

25.10.12

Twittesia #0

# A chuva caiu como pão no estômago do homem que fumegava com fúria na boca e com gotas na língua. Em Madrid, um brasileiro festejava um golo.

# Fúria na boca de pensar a coisa que oculta e dizer o que jamais sonhou. Ignorando regulamentos, o homem suplica por um prolongamento.

# Gotas na língua de verdade. Dizer apenas o necessário e o urgente. E é urgente comer, é necessário dizê-lo.

# Na Graça, uma mota ruidosa fura o pacto de silêncio. Na apatia do anoitecer, grite-se: voa ali um homem vivo!

# Para onde caminhas? Que momento procuras?, pergunta um homem sentado. Estou sentado com muita pressa e não há maneira do meu momento chegar.

# É tempo de nos queixarmos da chuva, ensopados, como quem sai indignado de um mergulho de mar. Não nos avisaram que esta nuvem molhava.

18.6.12

Jacarandando


Corações tão curtos para tantos sobressaltos. Deram-nos uma realidade assim, já com as árvores despidas e as flores no chão. Jacarandás à chuva, ramos à espera.
Corações sem memória podam melhor as árvores.

27.3.12

variações sobre uma crise que lhes deu


Diz-se até para o ano, se o ano é de crise, para o ano é que é o deus-dará.
Diz-se já vieste tarde, ainda que com verdade, culpa tua.
Diz-se o pão a quem de mérito, sobretudo se te carregam aos ombros, no reverso do dinheiro.
Diz-se que isso é que é ser livre, ai de ti que nasceste pobre, deus te livre de o negar.

27.1.12

Lisboa, cidade rural

O rapaz cospe na mão,
apoia-se na enxada e observa a planície:
não sei por onde lhe comece.

12.1.12

Um terço do mundo

Há beleza no champanhe e na desobediência
apenas se estiver evidente
na luz ou na sombra do consciente
que todos os dias
às três da tarde
uma septuagenária arrasta o banco com as muletas
até ao passeio da Calçada do Forte e
no que há de sereno numa porta aberta
reza um terço
ao mundo.

9.1.12

Crise

O dinheiro: vale todos os gestos, a moeda: arrumo-te a vida, música, o carro, por um cheque: restauro a luz, a perna, o vinco das calças, em dinheiro vivo: tosco-te o cão, o clima, a falsa memória do verso, em mil réis: troco-te a história, descubro a cura, refaço o destino, por essa dívida: o esforço de estar vivo, suspenso no topo do muro, sopra com muita força para um pátio de recreio, para o deserto de quem brincou, a conta: dois bifes, despesas da viagem, o filme de domingo, fica caro: desvia-te das radiações, não confundas estações do ano, resiste: enquanto respirar estiver isento de imposto.