6.8.07
A vizinha de cima atravessa o corredor na sombra de uma barata. A de baixo, com um ângulo de rotação menor, dorme sem sobressalto. A lua fala. Contorna com perícia todas as palavras que a fazem chorar. Diz coisas neutras: a linha pode ser infinita, tenho uma pedra angular no sapato, faltam treze dias para Outubro, ontem tinha mais frio e menos cabelo, há milhões de espécies de insectos no Senegal, não há fim por perto.
A noite é longa, há mais gente embriagada nas ruas e é proibido fumar enquanto não cair um cometa.
25.6.07
Linha azul, transbordo, linha amarela.
muita gente sentada, muita gente
junta muita gente de pé
a próxima estação é dos lúcidos,
dos que temem
teus olhos e pele negra
da muita gente que levas
sentada na tua cabeça, junta
a próxima
a próxima paragem sou eu a sorrir-te
sou eu
a parar contigo.
dois
muito céu
as palavras aqui são outras palavras
dizem outra coisa
nas praias
namoros com muito sol
quase sem nuvens vai chover
a linha o comboio no mar,
quase ponte,
falar alto, falar mal,
rir gargalhadas tão alto,
quase cristal,
os bês pelos vês do Porto
que é norte comigo.
três
todos os dias contados
a aviões que cabem na janela grande
a passar
e o resto do dia está cansado
e segue viagem até à Baixa
- e o que resta da Baixa há-de desaparecer:
e troca-se corpo molestado por duas noites onde ficar
e todas as luas por uma manhã de esperança.
11.6.07
O brincador e a ciência

Um fio de luz evade-se pela raíz e é fruto.
Experimento.
Cócegas de lâmpada na tremura do solo fértil.
Experimenta-se.
A tartaruga atravessa a luz e afinal é mosca, hesita entre espécies, patas no solo e afinal nem é tão tarde assim, mesmo voando rente, entre um tubo e uma pinça.
Experimento.
Seis minutos antes de amanhecer, um homem é abatido a tiro numa passadeira dos arredores da cidade grande. Rastejava de cansaço, com uma carga de sono, álcool, neutralidade perante os elixires desesperantes da vida, uma camisa aberta e uma mulher casada. Tiro no peito.
Experimenta-se.
E então o dia de árvores sem sombra.
Experimenta.
O dia do aprender a morrer e ambos
vivos e mortos descobrem que os erros, apesar de
fatais,
experimentam-se.
A partir de hoje, ao serviço da ciência.
21.5.07
Escrita Criativa atrapalha sonhos
A Ritmos desmente categoricamente, a notícia avançada pelo jornal Correio da Manhã, que garante a vinda dos Radiohead ao Festival Heineken Paredes de Coura.Os Radiohead são uma banda que apreciamos, no entanto, não está agendado qualquer espectáculo para este ano, muito menos no Festival Heineken Paredes de Coura, infelizmente!
Perante este facto, lamentamos o teor falso da notícia que só serve para enganar os leitores.
Observação poética do plantador: Merda!
17.5.07
Aqui jazz um coração
ainda agora
ainda agora nasceu e já não há tempo para o erro
bate bate bate
no prato de prata assim plim
com sopro no ouro falta
de ar estica
a corda
janelas por abrir o homem
começa no suspiro do mito apesar
das possibilidades fizeram-no
assim
a arte plim plim bate
assim
para que quer o músico o relógio
os ventos nada podem contra
o saxofone a floresta
densa toca o sino
a cada nova árvore vai-te embora
bicho-da-seda vai-te
rosa-dos-ventos isto
é um pulmão de raiva
é o ar que vos roubo
o dia a preto e branco e verde e ainda
nem tempo para o certo
travessa de agonias experimentais
sopro sopro e muita força
nos braços tanque militar
queimadura profunda
nas impossibilidades dança comigo
centauro a roupa que despes
é uma canção dentro do piano
há um tesouro que apenas
quem o ama pode descobrir elixir
verde como olhos para afinar
as pernas a caminhada não é
vã sobretudo
a do dia nascente
e se na boca
nascesse uma árvore das noites
de chuva raíz
húmida e o violento do próximo
fim do mundo
a beleza sangra não
concede à morte a sensação
de novidade vive-se encanta-se mata-se
e pronto e para isso
há os músicos desconfortáveis
no corpo de homens.
10.5.07
30.4.07
aquele primeiro de maio
O elefante já não toca o sino.
A águia já não afia o bico no caroço da maçã.
O leão já não paga a salada de zebras por débito bancário.
O nosso circo sofreu uma profunda reestruturação.
O nosso sincero pedido de desculpas.
Dois.
Compre o sol para os óculos que o nosso presidente hoje usa, se faz o favor.
Se amanhã chover, venda-o. O nosso presidente paga com decretos de lei mágicos.
Um mosquito para cada candeeiro, uma arca de sal para conservar as ideias, três quilos de anzol para domesticar o peixe.
E outras soluções mais reais. Sete dias para cada semana, uma cruz de sangue para cada dia.
Três.
É só seguir as ambulâncias amarelas.
Há uma praça com patos desligados à corrente de rio, época de seca, uma feira de cebolas a interromper o fado todas as quintas à tarde, uma ponte de mel, passas o ferrão das abelhas e estás na zona propícia em acidentes.
Depois é só seguir as ambulâncias amarelas.
Quatro.
Sete mais noite igual a sombra mais luz igual a mais consciência menos trevo igual a sorte menos direitos menos seis igual a solidão mais ninguém mais nenhum mais zero mais muro mais tecto mais luz mais porta igual a casa menos o resto menos os sonhos mais sexo menos género igual a profunda desigualdade social.
23.4.07
22.4.07
17.4.07

Na Assembleia do Inverno, ocorrência rotineira do Dia da Árvore, as nuvens carregadas de escuros e os trovões de luz continham-se para não aplaudirem em demasia as propostas apresentadas. Cada explosão de palmas significa tempestade, de imediato atribuída ao buraco do ozono que, cada vez mais alvo de documentários, já não tem noites de sossego. Para todos os efeitos o buraco dormia, há que bloquear o entusiasmo.
Um aparatoso e bem conjugado jogo de espelhos transformava três ou quatro nuvens pingadas, mais uma ou outra faísca de relâmpago, numa assembleia infinita. Sobre a mesa, ideias de grandiosidade. Pequenos heróis em auto-elogio, o reflexo traidor, combinado vegetal de multiplicações várias, voto anónimo de braço no ar, viva a Assembleia, viva o debate arrogante do pré-decidido.
Pintura: Rainwater dreaming, Moses Fry
7.4.07
Bilhete válido para a carruagem número 531

É uma solução digna como outra qualquer. Quando se sente triste, concentra-se na felicidade das pessoas à sua volta. Espera um comboio, o seu momento reduz-se à espera de um comboio. É uma situação com muitas pessoas à volta.
Concentra-se, quando consegue.
Óculos de sol rasgam uma cara a sorrir, cruza a perna como quem adormece numa praia de espuma. Uma rosa, duas gerberas, dentro de momentos vai passar uma carruagem qualquer, é só uma máquina com ar bélico, aspecto de quem vai descarrilar a qualquer momento e bater em alguém, porque inventam frentes com faróis zangados; certo dia estava a brincar, canta a criança, eu caí e fiz um arranhão no nariz… na peeernnnaaaa.
Concentra-se, às vezes consegue.
Dentro de momentos. Deu entrada na linha um. E, porque deu entrada, ele entrou também. Um Magalhães de chapéu azul, nome escrito com letra à máquina no leitor de faixas, ouve música. Saco com letras chinesas, entre pernas abertas e chinesas de um chinês. No tecto, um espelho escuro reflecte pedaços de uma mulher a ler o jornal, um saco azul quase atropela uma cabeça, chuva estranha a do interior, um rio na margem direita da linha, árvores namoram o rio, uma ponte que me faz imaginar-te sempre que passo por aqui, o teu cais com o qual tanto sonhei, as campainhas que nunca param, no reflexo outra mulher com a mão suspensa nas preocupações da cabeça.
Concentra-se mas às vezes não consegue.
Uma mala de mulher com pele de animal. Parece que ainda lhe vejo as patas, ouço-lhe os gritos, quem o desventrou ainda não enriqueceu. Menina de quatro anos, tranças na coroa do cabelo, loura, vai adormecer no colo do pai. Dentro de momentos vai dar entrada nos braços do pai número um a carruagem oriunda da paz total de menina pequenina com destino ao sono. Efectua paragem nas pontes, nas nuvens capitais de distrito do céu e em todos os sonhos apeadeiros do tempo.
É uma carruagem com muitas pessoas, mas todas diferentes – como pode ele descobrir o denominador comum da felicidade? As mais felizes, se calhar, já adormeceram, o jornal é uma enciclopédia de tragédias, a música do Magalhães é adornada pelas perguntas da avó. Está ali um rapaz, nove bancos à frente, que já tinha visto no metro. Era mais feliz quando tinha a idade e o penteado dele. É para ele que escrevo, para mim quando era como ele. A menina da guitarra não mais foi vista, sentou-se numa carruagem diferente, ela que faz parte deste texto desde o início, mas ninguém o sabia ainda. Comprou bilhete ao mesmo tempo que eu, afinou a guitarra a meu lado, guardou-a depois.
O texto era mais bonito se ele não estivesse triste, ou conseguisse concentrar-se na solução digna. A menina adormeceu, as tranças já podem ser mesmo coroas se ela sonhar com isso. Concentração de fumadores junto à entrada do bar, inalação
27.3.07
Palavras Cruzadas
Na vida
Tanto que não mais saiu
Rastejante na ponta de um dedal azul
Ou saiu - esteve de certeza com ele, na vida, com ele, na vida,
Uma vez mais
-
Levantada por um impulso de nuvem
Há cerca de cinco meses de mãos dadas
E nunca mais saiu.
22.3.07
Depois de sair do Cacilherio de Ary
contribuintes banais, aspiradores.
Disfarçam a sorte, o medo,
pequenos temores.
Despejam o lixo, o cérebro, o erro
e ainda vapores.
Rasgam o tempo, o largo,
a roda, a saia,
são violadores.
