Casados há dezassete anos, não sabiam mais o que fazer para experimentar o amor. O filho andava na escola, os dois andavam de trombas no terraço de terra batida e o calendário, cruel e indiferente, andava para a frente sem se cansar. Ambos cansados de flores que secam em jarros, decidiram plantar uma árvore e esperar que desse frutos.
São avós muito jovens. E comem as maçãs colhidas pelos rebentos.
Casados há trinta e sete anos, sabem que o amor não se experimenta, que não precisam de fazer nada. Andam a pé.
13.12.06
25.11.06
13.11.06
9.11.06
24.10.06
Dois laranjais secos
Da Suécia à Grécia são apenas cento e vinte centímetros.
E, às vezes, o azul de cada um deles mistura-se indecentemente com o outro,
sem diplomacia intermédia, mesmo nas barbas do dono do hotel.

A doença terminal sonha com um aborto ou com recém-nascidos?
Acorda o corpo prestes a tombar, leva-o pela mão até um espelho e sopra-lhe baixinho ao ouvido:
Olha, era este o monstro que te queria mostrar.
Os que lhe são próximos, que não enxergam nem monstro nem homem, choram Porque não sabem cantar hinos ao amor. Porque, pobres ingénuos, ainda acham que um homem pode morrer.
* imagem: História trágico-marítima; Helena Vieira da Silva (1944)
E, às vezes, o azul de cada um deles mistura-se indecentemente com o outro,
sem diplomacia intermédia, mesmo nas barbas do dono do hotel.

A doença terminal sonha com um aborto ou com recém-nascidos?
Acorda o corpo prestes a tombar, leva-o pela mão até um espelho e sopra-lhe baixinho ao ouvido:
Olha, era este o monstro que te queria mostrar.
Os que lhe são próximos, que não enxergam nem monstro nem homem, choram Porque não sabem cantar hinos ao amor. Porque, pobres ingénuos, ainda acham que um homem pode morrer.
* imagem: História trágico-marítima; Helena Vieira da Silva (1944)
22.10.06
A pata afiada pela unha desenrola os gatos que já cheiravam a mofo.
Um fio de gato atravessa o buraco da agulha, pronto a tricotar.
É o ócio do novelo, apetece-lhe miaus em renda.
Um fio de gato atravessa o buraco da agulha, pronto a tricotar.
É o ócio do novelo, apetece-lhe miaus em renda.
15.10.06
O milagre da mão-invisível
Foi pedido ao tio zé, campeão europeu de construção de castelos de areia, que construísse uma casa sobre o mar.
Zé, ou tio para os sobrinhos mais próximos, enterrou a pá na areia, encomendou um barco, comprou fato de mergulho, aprendeu a nadar, licenciou-se em ciências marinhas, registou a sua cana de pesca junto das entidades competentes, lambeu um gelado de baunilha, contou duas anedotas aos caranguejos, fotografou a água a espumar-se nas rochas,
foi ver o barco, pagou-o às prestações com oferta dos remos, inventou a grua que levita, sonhou com tijolos de esferovite, concebeu-os em forma de sardinha, vomitou uma posta de bacalhau no restaurante do irmão, vendeu núcleos de ilusão no interior das dunas, sobreviveu a tempestades de areia, publicou um artigo de jornal sobre o assunto, foi lido por trezentas e vinte pessoas, engadelhou-se com uma rede de pesca, partiu para alto-mar,
equeceu-se de levar cimento, projectou o edifício com as coordenadas do pôr-do-sol, enfiou dois dedos na água salgada, levou-os à boca, tombou de encantamento porque se apaixonara por uma estrela.
Não pensou uma segunda vez: recusou.
* Ilustração: Moon and Sea, No. 2; Donna Ciaciarella
13.10.06
A unha do cadáver azul
a pomba pagou ao Estado para dormir no parapeito da janela,
a janela pagou ao arquitecto para ficar no terceiro andar,
o telhado, que anda de mal com o Estado, pagou ao céu para ficar no quinto,
as escadas, fartas do vazio sem passos, pagaram ao senhorio para não haver elevador.
a vertigem pagou ao alcatrão para se atirar pela janela abaixo,
o jornal pagou ao pedinte para tirar a fotografia,
a pomba urinou no jornal
mas a Economia não tinha troco.
a janela pagou ao arquitecto para ficar no terceiro andar,
o telhado, que anda de mal com o Estado, pagou ao céu para ficar no quinto,
as escadas, fartas do vazio sem passos, pagaram ao senhorio para não haver elevador.
a vertigem pagou ao alcatrão para se atirar pela janela abaixo,
o jornal pagou ao pedinte para tirar a fotografia,
a pomba urinou no jornal
mas a Economia não tinha troco.
11.10.06
Confissões de um Janeiro em Braga
Já não aguento esta cidade. Já me fogem as palavras de aço e é tão infantil a ilusão de as agarrar. Como lego, faltam peças e rodas a estes sempre-mesmos-edifícios.
São demasiados rostos de artifício suspensos nas vagas de ar. Sei que não aguento. Vejo eu, uma criança desesperada (três, quatro anos de desespero) a tentar chamar a atenção da mãe.
A mãe, com sotaque brasileiro, não interessa o sotaque, ignora a criança e discute com um homem que não é pai, um olhar daqueles não pode ser pai. O menino brinca, luta, levanta a voz com deliciosos tiques infantis, os adultos discutem sem nunca se olharem, a criança mexe, abana-se, tosse, brinca. Cresce com os olhos no vestido da senhora que passa.
São demasiados rostos de artifício suspensos nas vagas de ar. Sei que não aguento. Vejo eu, uma criança desesperada (três, quatro anos de desespero) a tentar chamar a atenção da mãe.
A mãe, com sotaque brasileiro, não interessa o sotaque, ignora a criança e discute com um homem que não é pai, um olhar daqueles não pode ser pai. O menino brinca, luta, levanta a voz com deliciosos tiques infantis, os adultos discutem sem nunca se olharem, a criança mexe, abana-se, tosse, brinca. Cresce com os olhos no vestido da senhora que passa.
28.9.06
A senhora que passa e O rapaz que a vê passar
A senhora que passa leva cinco vestidos no corpo porque não sabia qual usar; é a senhora que passa e só por passar mostra-os todos como bandeiras ao vento. um, azul com flores, dois, sóis com vermelho, três, uma risca dourada e vertical, quatro, bolinhas e bolinhas, cinco, saia muito curta por cima das outras todas. perna nua dos joelhos aos pés, perna de neve com passos na lua, é a senhora que passa, que é vista a passar.
O rapaz que a vê passar tem sangue no joelho e inquietação no corpo, é um arrepio, uma música de filme, uma ferida aberta, porque a vê passar. o terceiro vestido é muito decotado, imagina, o primeiro é aberto nas costas, imagina, uma única alça cruzada segura o primeiro, imagina, os outros não sabe, não imagina, não quer saber, porque a inquietação já lhe sobra e o buraco no joelho ainda dói. sangra uma vez pela dor e outra pela profundidade da ferida, a rapaz que deseja a senhora que passa.
O rapaz que a vê passar tem sangue no joelho e inquietação no corpo, é um arrepio, uma música de filme, uma ferida aberta, porque a vê passar. o terceiro vestido é muito decotado, imagina, o primeiro é aberto nas costas, imagina, uma única alça cruzada segura o primeiro, imagina, os outros não sabe, não imagina, não quer saber, porque a inquietação já lhe sobra e o buraco no joelho ainda dói. sangra uma vez pela dor e outra pela profundidade da ferida, a rapaz que deseja a senhora que passa.
19.9.06
A sede é um aquário ao contrário
Em miolos de 2006 um cavaleiro partira o seu violino para purificar toda a espécie vegetal e os grampos que o mantêm suspenso entre a geada e a andorinha sinfónica.
Vivia numa orquestra t3, bateria incluída, porque era alérgico ao ruído dos sinos que ora assinalavam as sete badaladas e três cêntimos, ora anunciavam a morte do manco com o eternamente no coração de sua esposa, filhos e restante família, ora só tocava porque uma cegonha lhe defecava em cima. E por também ser alérgico às penas cinzentas das cegonhas, dormia entre os três contrabaixos e o silêncio - próxima estação: Aveiro - desafinado.
A sua casa era muito frequentada por músicos e por saias que gostam de música e por homens que gostam das saias que gostam de música e, talvez por isso, desconhecia as virtudes das pensões de qualquer estrela e das avenidas do repouso.
Certo dia comprou uma pandeireta só para não parecer mal e roeu as unhas até ao pescoço em dó maior antes que lhe pedissem para tocar.
Em outros-miaus do ano de 2006 sonhou ferozmente com um quinteto de flores, mas depois acordou com miolos de cavaleiro nos dedos e um violino partido no tempo. E levantava-se com os chinelos de algodão enfiados nos ouvidos porque gostava muito de ópera, mas nem tanto. Não é uma atitude de derrota, mas sobretudo uma marcha descalça em defesa da queda do barril de relógios.
Um dia procurou tão obsessivamente um cavalo surdo que lhe saiu uma galinha. Chamou-lhe Opuleta nº 355 avariação contínua, em homenagem a uma coisa qualquer que ouviu na rádio mas já não se lembrava bem, porque também era alérgico aos órgãos das igrejas e ao trote melódico de éguas pardas. Adormecido sobre o infinito lombo da galinha percorreu meio século de sono, o cavaleiro que não sabia partir, e que partiu também a pandeireta com os dentes, em milongas, adágios e trompetes do nobre ano de 2006.
Vivia numa orquestra t3, bateria incluída, porque era alérgico ao ruído dos sinos que ora assinalavam as sete badaladas e três cêntimos, ora anunciavam a morte do manco com o eternamente no coração de sua esposa, filhos e restante família, ora só tocava porque uma cegonha lhe defecava em cima. E por também ser alérgico às penas cinzentas das cegonhas, dormia entre os três contrabaixos e o silêncio - próxima estação: Aveiro - desafinado.
A sua casa era muito frequentada por músicos e por saias que gostam de música e por homens que gostam das saias que gostam de música e, talvez por isso, desconhecia as virtudes das pensões de qualquer estrela e das avenidas do repouso.
Certo dia comprou uma pandeireta só para não parecer mal e roeu as unhas até ao pescoço em dó maior antes que lhe pedissem para tocar.
Em outros-miaus do ano de 2006 sonhou ferozmente com um quinteto de flores, mas depois acordou com miolos de cavaleiro nos dedos e um violino partido no tempo. E levantava-se com os chinelos de algodão enfiados nos ouvidos porque gostava muito de ópera, mas nem tanto. Não é uma atitude de derrota, mas sobretudo uma marcha descalça em defesa da queda do barril de relógios.
Um dia procurou tão obsessivamente um cavalo surdo que lhe saiu uma galinha. Chamou-lhe Opuleta nº 355 avariação contínua, em homenagem a uma coisa qualquer que ouviu na rádio mas já não se lembrava bem, porque também era alérgico aos órgãos das igrejas e ao trote melódico de éguas pardas. Adormecido sobre o infinito lombo da galinha percorreu meio século de sono, o cavaleiro que não sabia partir, e que partiu também a pandeireta com os dentes, em milongas, adágios e trompetes do nobre ano de 2006.
10.9.06
Demência ou Elogio aos patos
E em vez de poetas vieram formigas,
trabalhadeiras,
carregando as palavras às costas
enquanto o poema nu se lavava no lago.
O soldado disparou três vezes com a bisnaga
e molharam-se todos felizes para sempre.
trabalhadeiras,
carregando as palavras às costas
enquanto o poema nu se lavava no lago.
O soldado disparou três vezes com a bisnaga
e molharam-se todos felizes para sempre.
6.8.06
27.7.06

Se nos roubam é porque nos querem, iludidos por um desejo de mastigar o outro, aprisionados em investidas cerradas a sorrisos alheios, se nos roubam é porque invejam a técnica do sorriso, têm medo dos ratos.
O ladrão não caminha, desloca-se aos pulos - é o medo de que o chão lhe caia em cima, tem pavor da humanidade, só por isso é filho da puta, só por isso rouba como se desse à luz um coelho. Não sonha, se sonhasse tinha umas orelhas maiores e não passava despercebido, ressona com a consciência em voz baixa, deixa dó, plena consciência da merda que é a cada novo assalto,
uma vontade de lhes escrever,
olá como vai?
na testa. oferecer-lhes uma gravata, torná-los estrelas de rock, pendurar-lhes algemas de prata nas orelhas, estilo brinco de argola, fazer-lhes festas na cabeça em vez de os encher de murros, insultá-los ao contrário.
É urgente confundir os sentidos e roubar toda a gente. Mas ao contrário.
Se nos roubam é porque nos desejam.
3.7.06
Casa

Um homem nasce com tudo, nem lhe deram tempo para pedir, deram com ele assim, sentado num buraco verde de quatro pernas. Casa, livro, roupa lavada. Com a alegria de palhaço, de quem nunca conquistou nada, tudo lhe veio colar-se ao corpo, encontraram-no assim, desolado. Observa a roupa rasgada suspensa no skate, com inveja. Já leu três ou quatro romances dos grossos, páginas de açúcar numa diabetes de vida, balões que não rebentam, encontrou-os numa estante, encontraram-no assim, de mãos erguidas para o céu, súplica por tempestades, pastilha elástica colada ao céu da boca.
* The Isle of the dead, Arnold Bocklin
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