19.9.06

A sede é um aquário ao contrário

Em miolos de 2006 um cavaleiro partira o seu violino para purificar toda a espécie vegetal e os grampos que o mantêm suspenso entre a geada e a andorinha sinfónica.
Vivia numa orquestra t3, bateria incluída, porque era alérgico ao ruído dos sinos que ora assinalavam as sete badaladas e três cêntimos, ora anunciavam a morte do manco com o eternamente no coração de sua esposa, filhos e restante família, ora só tocava porque uma cegonha lhe defecava em cima. E por também ser alérgico às penas cinzentas das cegonhas, dormia entre os três contrabaixos e o silêncio - próxima estação: Aveiro - desafinado.
A sua casa era muito frequentada por músicos e por saias que gostam de música e por homens que gostam das saias que gostam de música e, talvez por isso, desconhecia as virtudes das pensões de qualquer estrela e das avenidas do repouso.
Certo dia comprou uma pandeireta só para não parecer mal e roeu as unhas até ao pescoço em dó maior antes que lhe pedissem para tocar.

Em outros-miaus do ano de 2006 sonhou ferozmente com um quinteto de flores, mas depois acordou com miolos de cavaleiro nos dedos e um violino partido no tempo. E levantava-se com os chinelos de algodão enfiados nos ouvidos porque gostava muito de ópera, mas nem tanto. Não é uma atitude de derrota, mas sobretudo uma marcha descalça em defesa da queda do barril de relógios.
Um dia procurou tão obsessivamente um cavalo surdo que lhe saiu uma galinha. Chamou-lhe Opuleta nº 355 avariação contínua, em homenagem a uma coisa qualquer que ouviu na rádio mas já não se lembrava bem, porque também era alérgico aos órgãos das igrejas e ao trote melódico de éguas pardas. Adormecido sobre o infinito lombo da galinha percorreu meio século de sono, o cavaleiro que não sabia partir, e que partiu também a pandeireta com os dentes, em milongas, adágios e trompetes do nobre ano de 2006.

6 comentários:

  1. E levantava-se com os chinelos de algodão enfiados nos ouvidos porque gostava muito de ópera, mas nem tanto. Não é uma atitude de derrota, mas sobretudo uma marcha descalça em defesa da queda do barril de relógios.
    Um dia procurou tão obsessivamente um cavalo surdo que lhe saiu uma galinha.


    Posso levar comigo? :)

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  2. este blogue está mesmo ao meu gosto!!! é um verdadeiro doce de cristal!!
    beijos

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  3. este é mesmo o meu preferido, ontem imprimi tudo e fui ler nas calmas, adorei tudo. outro meu preferido é o que se chama "6.5.06"

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  4. ADOREI MESMO...ESTA VIAGEM É MAIS RAPIDA DO QUE APANHAR BOLEIA NAS ASA DUM DRAGÃO.
    VOAREMOS POR AÍ.
    aTÉ SEMPRE

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  5. Bruna Pereira25/09/06, 10:18

    E quando o cabelo se lhe arrepiou em forma de clave de sol, ela percebeu que a escala musical tinha notas de euro penduradas nas árvores da cabeça que doía ao sonhar. O pesadelo começou em lá sustenido e estremeceu o piolho que dormia no refrão da vida de parasita saltador de carteiras. Foi então que apareceu o ?Quitoso? com rótolo de Sinfonia nº 9. Ambos cantam a canção dos surdos-mudos quando a noite se engasga com tosse da lua.

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  6. Bruna Pereira25/09/06, 14:39

    Queria ter escrito rótulo... Mas perder-se no país das letras é um sempre constante.

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