17.1.05
Publicidade (Base de dados)
Senhor José Boné:
Bem vestido,
pindericamente penteado,
acredita no Pai Natal mas não na retoma económica,
pequena cicatriz no mindinho do pé direito mas ainda mexe ambas as pernas,
dois filhos (uma criança na idade do a e i o u e outra no Estádio sensório-motor segundo Jean Piaget, ambas do sexo masculino [potenciais consumidores de lâminas ou máquinas de barbear]),
nunca efectuou o Teste Projectivo de Porschach,
viaja três vezes por semana em transportes públicos,
disfruta da amizade de três vegetarianos e quatro esfomeadas por carne,
fastfood dia sim dia não,
carrega caixas de uma lado para o outro numa grande superfície comercial,
não se lembra de ter visto o por do sol e desconfia-se que confunda José Régio com uma marca de Bacalhau,
já não come iogurtes nem compra para os filhos porque é divorciado e esses estão sob tutela da mãe,
não pensa voltar a casar ("mais mulheres não, mais mulheres não!"),
sonha com hospitais e partos porque, diz-se, tem um exemplar do "Maternidade" de Almada Negreiros pendurado nas paredes do quarto,
fuma? às vezes sim, às vezes não,
paga renda da casa,
não tem carro e raramente roupa lavada,
penteado risca ao meio com salientes entradas para a progressão da calvice,
sonha com hospitais e com os filhos que deixou de poder visitar,
embebeda-se frequentemente (não esquecer: enviar informação à União Cervejeira e à Rota dos Vinhos) porque, sustenta-se, há um exemplar da pintura "Tempo passado e presente" de Paula Rêgo junto à lareira e ao sofá onde (às vezes não, às vezes sim) fuma e adormece (vender-lhe almofadas novas),
lê jornais,
homem sem idade,
ex-jogador de hóquei em patins no Desportivo das Andorinhas,
sofre de pânico de morrer só, de sofrer sozinho
e é o perfil perfeito para potencial cliente para os nossos produtos que são, bem feitas as contas, o mais importante de tudo. Faz-se uma piada, duas ou três imagens bonitas, um sorriso e ele compra. Nem que tenha que vender o que lhe resta da alma, ele compra.
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10.1.05
Plantaçã0 67##773
Às vezes somos egoístas,
às vezes é mais fácil colher,
às vezes o silêncio não sabe mesmo falar,
às vezes somos sombra.
Eu até já nem sei. Mas planto.
Semeador
Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram as aves do céu, e comeram-na. Outra parte, porém, caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra; e logo nasceu, porque não tinha profundidade de terra. Mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou. Outra parte caiu entre os espinhos; e cresceram os espinhos, e a sufocaram. Outra parte enfim caiu em boa terra e frutificou; uns grãos renderam cem por um, outros sessenta, outros trinta. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
(Evangelho segundo Mateus, capítulo 13, versículos 3 a 9)
7.1.05
História do século XX
29.11.04
Trombar II
Resta-nos ainda tinta (para a "Paixão")?
Também eu gosto de desenhar palavras: letra a letra, uma após outra. Enchê-las de curvas, de insuportável elegância.
Paixão é o nome que os meninos chamam aos amigos-elefantes quando não os têm.
Os dias consavam-se ("Mãe, porque desaparece o sol sempre que o tento abraçar?") e lá vinha, operária descalça, a Noite. Era um menino que na dimensão de sonhar atirava bolas ao ar: tentava acertar em estrelas e astros com trombas.
As noites cansavam-se ("mãe, porque não me acordas com um abraço?") e surgia, renovado de boné roto, o Sol. E a mãe-pós-pergunta é toda lágrima: um triste mar arrastando-se pelas pedras da casa, a mãe-sem-resposta.
Era só um elefante que ele queria, Pai distraído que apenas mosquito lhe deste; Pai que entras na história e, talvez por isso, não a sabes ler.
"Quando for grande? Quem disse que alguma vez vou querer ser grande, professor?". E afinal não os havia na sala de aula. "Estou é cansado de ser só".
Campaínha: o seu toque siginficava que, lá fora, o mar se misturava com o nevoeiro. Cinco da tarde. E que as pessoas que fingiam não existir nessa altura não existiam mesmo. Algo que só as gaivotas sabem: voar, bater asas exaustivamente, fechando círculos com curvas: as mesmas com que desenham palavras, letra a letra, lágrima pós outra.
Resta, menino doce. Resta-nos.
26.11.04
Trombar

Vou contar uma história. É uma mania que tenho. Peço desculpa por isso, mas vou contar uma história.
Ele tinha seis anos e brincava com três brinquedos. Apenas três brinquedos desde os quatro anos. Uma bola, uma bola mais pequena e um Fiat Panda em miniatura já sem rodas. Nunca lhe deram outros e era com esses três que brincava. Observava-os insistentemente, dia após dia, imaginando um elefante. "Não consigo, nunca conseguirei!" e começava a espalhar pela terra castanha lágrimas tão tristes e tão livres que o deixavam rodeado por famílias inteiras de arco-íris. Queria fundir os três brinquedos num só: queria construir um elefante: queria que alguém lhe respondesse quando falava sozinho: queria um amigo. Ele que falava tantas vezes para ninguém. O eco ãe ãe ãe ãe ãe ãe ãe era a única resposta que obtia da questão, ainda multicolor, "Onde está a Mãe?". Estava no Mercado. A vender fruta da qual só comia a versão podre.
Brincava com três brinquedos e tinha seis anos. No papel da matrícula para a escola tentava desenhar elefantes e suspirava. Imaginava a sala de aula cheia de trombas e orelhas gigantes. O professor como o elefante maior e com roupa de circo. "Não consigo, nunca consiguerei!" e logo o socorriam arco-íris. No papel apenas desenhos de gravatas e fatos-de-casamento ("Mãe, o pai casa-se todos os dias?") porque se lembrava, não se esquecia do pai. ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai, "Onde está o pai?".
*** continua ****
18.11.04
Até Sempre, Haddock
Até sempre, Haddock.
Agora eu.
15.11.04
Título? não quer ter.
mas bem próxima do fim,
a lágrima que eu
(o génio, uma porcaria de nada, autor vomitando palavras, o sujo)
não sabendo o que dizer,
prefiro chamar de puta e imaginar de salto alto e saia pelo pescoço, descendo-me na face e queimando-a. Como lava de um vulcão no seu décimo terceiro enfarte.
Porque, sim, tudo indica que seja salgada. E que volte.
4.11.04
Sobre George W
Era um elefante e um burro. O Eminem (esse exemplo de consciência social) estava contra tudo mas queria votar, o Kerry não estava certo de querer ganhar. O seu grande trunfo era, precisamente, o facto de não ser o Bush. Mas de nada lhe valeu. O Burro não foi capaz de dar o coice.
Temos vencedor. É o fim. Os Homens estão doentes, crescem demasiado, batem com a cabeça no tecto, ficam com galos de corrupção e mais vampírica sede de poder.
Aprisionaram-nos, é o fim.

28.10.04
Mar inesgotável que desliza no silêncio.
Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo
sem tremer: sinto-me
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés,
E estou só e a noite.
Há palavras que requerem uma pausa e silêncio."
Herberto Helder
27.9.04
Se alguém o vir que lhê um cigarro e um bocado de pão. Seja bondoso.
6.7.04
Do Exame de TAD: só.
descreve-me,
porque me constróis.
a cada descrição tua corresponde um novo parto,
e surjo outro, noutro ser, com outros nomes.
ainda viscoso de líquidos e células de teu ventre.
somos como polvos, na posse de trinta e cinco mil cordões umbilicais.
corta-os, corta! liberta umbigos para outros. novos. produtores das
tuas descrições. engenharia de novos eus em mim.
II
Contar uma história é dar uma facada no mundo,
deixar-lhe cicatrizes impossíveis de disfarçar.
Ele continua a rebolar, é certo, mas a rota...
repara como se altera.
Entre jactos de água e Cantos de baleia o mar vai ganhando
sal. palavra tua. a palavra, o discurso, as histórias.
a lágrima secular de tantas marés.
a escrita, a fala, principalmente a escrita, são o caminho
para a nossa perdição.
Gosto deste silencioso estar aqui. Secreto, clandestino
murmurado de boca em boca. "Não vais passar; não sei; o discurso tal porque o autor tal o afirma; eu não te disse?; Não!; Bate-lhe, risca-o!"
Bastava que me levantasse e gritasse uma mentira para que ela fosse verdade na nova realidade que criava. Mas não, porque
gosto de silencioso estar aqui.
uma facada no mundo, é como quem diz: um abrigo sem chão, incendiado - cá dentro, onde as palavras e as lágrimas não chegam.
o caminho é longo, individual. quantas horas de solidão dentro de cada palavra? caminhando em frente sem saber onde a Frente fica. Mas não; é, na verdade, a libertação em acto. os actos de fala, os actos de escrita - os actos em fuga - constante. rebolar é como quem diz: disponível para a cinza extrema do que só dói por dentro. como o discurso, inalcançável.
fim da página um
gosto deste estar aqui, híbrido no silêncio,
e no entanto quero sair, ir-me embora sem olhar para trás. cruzar três vezes
uma mão na outra sem deixar transparecer o quanto sei que também choras,
que, se quisesses poder, não permitias que a minha uga fosse solitária
e das tuas mãos
[abstenção de quatro em cinco e só o polegar se levanta]
tão democráticas.
nossa perdição é como quem diz: minha, do lado por encontrar, teimosamente desconhecido.
e perdição nesse sentido, da complexidade in(di)visível.
as minhas mãos não fazem referendos nas tuas.~
gosto deste estar.
- febre delirante dentro de cada palavra, senhor. Quantos graus?
- um por minuto, excelência. Quantos?
- uma hora e meia de graus, saudoso cavaleiro.
a galope no tempo. Cinza é como quem diz: restos mortais ou cigarros injectados via inalatória. mas antes: circuito fechado de memórias.
inalcançáveis por mais facadas, batidas ou riscos.
libertação é como quem diz: desenhar borboletas. coloridas. que gostem de estar.
no híbrido e no silêncio. no aqui.
mas, sobretudo, que saibam bater asas consistentemente para
que possam partir.
borboletas que sejam as próprias estórias.
estórias é como quem diz: inalcançáveis.
1.7.04
"O fugitivo não sabe regressar"
fuma compulsivamente, não sabe bem, nem queria. e continua: nem por um momento pensei na dor. não se diz se realmente dói. não há dor, nem prazer. uma única palavra resume... sensação. sentes?
bebe um último cálice de Lágrima. e conclui: sentiste o quanto te amei?
mas não volta.
10.5.04
eu não
e morri num pântano lacrimal
cortaram-me os dias, as unhas, as pernas
mas não faz mal, não faz mal, não faz mal.
22.3.04
11.3.04
Mordedela e queimadela. Ura.
Viva a puta da revolução e as consequentes subsequências das novas repúblicas indepentes. Quantos mortos precisam de contar ainda? Quantos pais e mães que não regressam a casa faltam ainda?
tudo parece estar certo. porque há menos inocentes nos transportes públicos de Madrid.
Asfixia, asfixia, asfixia.
nunca saberei viver, aqui.
... killed in train blasts
quem se importa?
judicial sources say 186 people killed
blames Eta, Blames ETA, Aznar blames Eta.
...
porque o amor, e o amor,
porque ambos,
porque eles,
porque o amor?,
porque.
em 1489 também era mau, mas com menos carris.
alguém se importa?
killed in train blasts killed in train blasts killed in train blasts killed in train blasts
killed in train blasts
...
...
..
...
.....
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......
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é assim
a humanidade
?
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