6.7.04

Do Exame de TAD: só.

I

descreve-me,
porque me constróis.
a cada descrição tua corresponde um novo parto,
e surjo outro, noutro ser, com outros nomes.
ainda viscoso de líquidos e células de teu ventre.
somos como polvos, na posse de trinta e cinco mil cordões umbilicais.
corta-os, corta! liberta umbigos para outros. novos. produtores das
tuas descrições. engenharia de novos eus em mim.

II

Contar uma história é dar uma facada no mundo,
deixar-lhe cicatrizes impossíveis de disfarçar.
Ele continua a rebolar, é certo, mas a rota...
repara como se altera.

Entre jactos de água e Cantos de baleia o mar vai ganhando
sal. palavra tua. a palavra, o discurso, as histórias.
a lágrima secular de tantas marés.
a escrita, a fala, principalmente a escrita, são o caminho
para a nossa perdição.
Gosto deste silencioso estar aqui. Secreto, clandestino
murmurado de boca em boca. "Não vais passar; não sei; o discurso tal porque o autor tal o afirma; eu não te disse?; Não!; Bate-lhe, risca-o!"
Bastava que me levantasse e gritasse uma mentira para que ela fosse verdade na nova realidade que criava. Mas não, porque
gosto de silencioso estar aqui.

uma facada no mundo, é como quem diz: um abrigo sem chão, incendiado - cá dentro, onde as palavras e as lágrimas não chegam.
o caminho é longo, individual. quantas horas de solidão dentro de cada palavra? caminhando em frente sem saber onde a Frente fica. Mas não; é, na verdade, a libertação em acto. os actos de fala, os actos de escrita - os actos em fuga - constante. rebolar é como quem diz: disponível para a cinza extrema do que só dói por dentro. como o discurso, inalcançável.

fim da página um

gosto deste estar aqui, híbrido no silêncio,
e no entanto quero sair, ir-me embora sem olhar para trás. cruzar três vezes
uma mão na outra sem deixar transparecer o quanto sei que também choras,
que, se quisesses poder, não permitias que a minha uga fosse solitária
e das tuas mãos
[abstenção de quatro em cinco e só o polegar se levanta]
tão democráticas.

nossa perdição é como quem diz: minha, do lado por encontrar, teimosamente desconhecido.
e perdição nesse sentido, da complexidade in(di)visível.
as minhas mãos não fazem referendos nas tuas.~
gosto deste estar.

- febre delirante dentro de cada palavra, senhor. Quantos graus?
- um por minuto, excelência. Quantos?
- uma hora e meia de graus, saudoso cavaleiro.

a galope no tempo. Cinza é como quem diz: restos mortais ou cigarros injectados via inalatória. mas antes: circuito fechado de memórias.
inalcançáveis por mais facadas, batidas ou riscos.
libertação é como quem diz: desenhar borboletas. coloridas. que gostem de estar.
no híbrido e no silêncio. no aqui.
mas, sobretudo, que saibam bater asas consistentemente para
que possam partir.

borboletas que sejam as próprias estórias.
estórias é como quem diz: inalcançáveis.

1 comentário:

  1. O artista é o mesmo(s)..??? Poesia e desenho???

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