11.3.06

Metro

Tudo foi para ti o que eu não vou escrever. Eras uma raiva à solta num metro cambaleante, para mim Lisboa é essa mancha negra subterrânea das manhãs e dos finais da tarde, onde a meu lado se apaixonam dois restos de razão, talvez o primeiro beijo, não sei, é um beijo ai isso é, uma mão no barão outra a acariciar o braço, amam-se mesmo, para eles Lisboa é mais que este escuro meu, para eles Lisboa é gaivota, um fado malandro na menina dos olhos, para eles Lisboa é outra coisa porque falam outra língua e sorriem de outra forma, para eles se calhar nem é Lisboa, é como se voassem ou nunca os visse, para eles até podia ser Istambul, que se foda desde que se amem, desde que o beijo (ai isso é: um beijo) seja o mesmo beijo, para eles não é estação terminal nem têm que trocar de linha coisa nenhuma, quando a linha é de amor não se troca de linha nem que se mate, para eles é mil vezes ritos de beijo,
viro a cara para outro lado, farto de ver, viro a cara para outras cores, e não é para ti nada do que escrevo, troco eu de linha, este metro é mais quadrado o que torna óbvio que se deve entrar pela janela, mas ela é de vidro e a porta já se fechou, estação terminal vai para lado nenhum, se calhar ainda fujo, não calhou e sigo no próximo, uma acordeão cego pede esmola pela graça de deus, mas como não lhe acho piada nenhuma desvio-me e abano os bolsos como quem não tem dinheiro, queria a espuma o mar, talvez se o metro fosse mais fundo tivéssemos que usar máscara, equipamento de mergulhos, todos os dias seriam uma nova navegação e as espécies que se encontram no metro não fossem ausentes de olhar, e nada disto é para ti, porque tu és tudo o que não escrevo, porque eles que sabiam o que era o amor já se foram para lá da estação terminal, para lá da vida, fazer amor, talvez só em beijos, talvez levassem o barão para poderem segurar a vertigem, não sei, eles que sabem do amor é que sabem, porque quando vejo a luz são cem metros até um prédio verde e lá se vai a luz outra vez, e vêm os computadores e as lâmpadas, se amassem até fazer luz não precisávamos de luz, e preciso que Lisboa seja mais, e nada disto foi escrito para ti. Tu, que me lês, se me lês, és tudo o que não sou capaz de escrever.

10 comentários:

  1. Liliana Pacheco12/03/06, 13:35

    Não a vês? Começa por ser um pontinho brilhante, a latejar na escuridão. Mas vai crescendo, à medida que se aproxima de ti. Até te encandear completamente a visão, até que já não consigas ver mais nada.
    É a luz ao fundo do túnel, aue de um modo ou de outro, acaba por estar sempre lá.

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  2. lindo...da vontade de ler uma, duas, três vezes...sem palavras.

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  3. No metro nunca me sentei no teu colo a fumar cigarros!!

    quanto ao texto, já te disse, pessoalmente, o que me fazia sentir :)

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  4. Vivi isso que contas. há muito tempo atrás. Sem o saber contar dessa maneira.

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  5. Se alguém é capaz de escrever, de forma brilhante, sobre o que quer que seja, esse alguém és tu, caro amigo.
    Abraço

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  6. ...Speechless...nem sei como comentar tanta sensiblidade, tanta emoção, tanto engenho para a escrita...parece que as palavras não te custam a sair, pelo contrário fluem, és tu que lhes dás vida...és um poeta não resisto a dizê-lo.Pura poesia, pura melodia para os meus ouvidos...és suberbo na forma como descreves formas, sabores, sensações, emoções...arrebatador!
    Continua a escrever assim de forma tão sublime!
    Foi tudo para ti o que escrevi...
    Gosto muito de ti, beijinho com saudades*

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  7. Gosto de ler o que escreve. Lembra-me Clarice Lispector e Lya Luft, onde as palavras fluem e sentimentos afloram inconscientemente. Somente os escritores o sabem fazer, porque precisam soltar a sua dor, o seu amor, a sua alegria ou a sua tristeza, em palavras...
    E você é um escritor.
    Virei sempre aqui.
    Abraços de uma brasileira

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  8. Lindo, Silbo. Demasiado lindo.

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  9. vou ter de discutir este texto contigo pessoalmente ;)
    abraço

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