24.3.06

Euskadi eta askatasuna

Sou uma criança normal que ficou sem braços, não é muito mau na medida em que ainda posso falar, mas para escrever este texto foi preciso chorar, chorar muito até a raiva ganhar a forma de palavra. Não me importo, desde que chore. Os braços só atrapalham, se os tivesse já havia explodido uma bomba de vingança no cessar-fogo. Mas as minhas lágrimas, palavras, nunca ganham forma de bomba. Não me importo. Desde que chore muito, como sempre faço desde o dia em que me rebentaram com a cara. Até nem foi mau de todo, a outros rebentaram-lhe com a vida. A mim não me interessa. Ainda tenho cabeça para mascarar nos sonhos. Ontem sonhei com uma gigante capaz de engolir a paz, encapuçada, sonhei que me engoliu os membros quando abri a porta de um carro, que vi o meu pai a ser despedaçado enquanto as rodas voavam. Não me importo desde que acorde aos gritos durante a noite a chamar pelo pai que já não tenho. Desde que chore, grite tudo. Se tivesse braços dava-lhes com a participação cívica e política, que nem sei o que isso é, mas deve ser inacessível, das que se seguram com as mãos, na ponta de um machado. Mas não tenho, nem me importo porque já nada me importa, mesmo que por mim chorem e me amarrem contra o peito e me enfeitem com ramos de flores. Se tivesse braços arrancava-lhes os capuchos pelas orelhas e ensopava-os de vómito, mas já não tenho, nem me importo, desde que chore, desde que morda panos muito espessos até à asfixia. Não me importo. A propósito o meu nome é Cármen. Pelo menos era, antes de morrer.

Foto: El pais

29 comentários:

  1. Ficar assim sem saber o que dizer... depois de ler e reler e só sentir...

    Beijo grande*

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  2. Gotas de água a rolar pela alma...

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  3. E hoje... outra vez... O coração atado (sensibilidade nula imposta) e a alma a querer verter sentimentos...

    Só mesmo um texto teu (um destes teus textos) para criar (ajudar?) esta confusão interior...

    (Re)Lerei sempre - a sensibilidade existe!

    Abraço sentido, amigo! Abraço

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  4. E PS - O coração atado do Hugo diz tudo...

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  5. Grata pela visita.
    A porta fica aberta.

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  6. Carmen, Maria, Montse, Isabel, Ana, Lorena, Angels, Conxita, Alejandra... ... ... ... ...

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  7. passei pela mão do Rui Afonso-

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    e ficou tudo a doer-me....


    excelente e dramático.


    bjo.

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  8. saudades de te ler...
    soluço demorado num olho escondido (pelas palavras).

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  9. GORA ETA!!!
    TANGAS DO ESTADO ESPANHOL E DO EL PAIS.
    AGORA QUE TEM A VOSSA PAZ QUEREMOS A NOSSA!!!
    SEMPRE COM GRANDES DESCULPAS PARA NÃO DAR A AUTODETERMINAÇÃO.
    PORQUE NÃO COLOCAS AQUI UM TEXTO DOS COITADINHOS QUE MORRERAM ÁS MÃOS DO XANANA GUSMÃO?OU DAS GUERRILHAS AFRICANAS?
    MERDA PARA A COBARDIA EUROPEIA.

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  10. Meu caro,
    peço-lhe que não misture questões políticas com este texto. É humano, só - sem qualquer tipo de conotação ideológica. E pode ter a certeza que também escreveria (escreverei) sobre os casos que referiu, ou acerca de qualquer prisioneiro do estado espanhol que tenha provado as lágrimas da injustiça.
    Mas, por favor, não me leia com os óculos do faccionismo.

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  11. alguem me sabe dizer o nome dessa criança?
    quando é que isso foi?em que ano?
    em que local?
    poesia melodramática...
    só acredita quem quer nas tangas espanholas...

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  12. é humano?
    se for verdade é humano.
    o problema é que quase de certeza que é mentira, o que o torna ainda mais humano, não acha?

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  13. Tomo a expressão "poesia melodramática" como um elogio.
    O texto é óbviamente ficção (minha), ispirada numa fotografia (real - ou essa reacção insinua mesmo que se trata de uma manipulação de imagens?).
    E negam vocês, nobres batalhadores, todos os ataques terroristas (bárbaros, inadmissíveis!) encenados pela ETA? São mentiras de estado? Ou é nesse barco que navega a vossa luta?
    negam a morte de crianças (por exemplo) inocentes em todo este 'processo'? A luta justifica-o?
    Orgulhar-me-ei do vosso movimento, se de vós vier uma resposta sincera a cada uma destas perguntas.

    E é assim tão difícil de perceber o alcance/objectivo/propósito/intenção de qualquer um dos textos que figuram neste blogue?

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  14. não, não nego e mais fico orgulhoso das pessoas que abdicaram da sua vida par lutarem pela sua pátria.
    e os crimes? diga-me um, só um, em que quem morreu fosse um gajo porreiro. um???????
    o hipercor?culpa de quem?
    morreram e morreram bem, pena é que foram poucos.

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  15. Então primeiro diz que não nega. (não nega 'negam a morte de crianças (por exemplo) inocentes em todo este 'processo'?' e depois diz-me que todos os eles foram 'bem assassinados'?? As qautro crianças (queria um exemplo) que morreram no sangrento atentado de 29 de Maio de 1991 não eram "gajos porreiros"?
    Não estou mesmo a perceber. Mas aí está você para eventuais esclarecimentos...

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  16. compreendeu-me mal, mas eu passo a explicar, a ETA, como qualquer site anti terrorista lhe poderá dizer, inclusivé o da CIA, utiliza a práctica de assassinios selectivos. Quer que explique? é melhor...a ETA ataca alvos com importancia politica ou por se empenharem na luta anti-independentista. Dentro destes alvos estão pois forças militares e policiais. o pais basco é a o local com uma maior presença policial e militar por habitante do mundo, os numeros são absurdos, cerca 1 policia para 13 pessoas, ao passo que em portugal será de 1 para 300.
    e por outro lado alvos politicos, alvos esses que encaram não o terrorismo como um perigo, mas a esquerda em geral em especial a independentista.
    relativamente ao atentado que fala.
    folgo em saber que tem boa memória, eu nem por isso, que atentado foi?
    o do quartel em barcelona?
    cheio de militares que torturam durante 3 dias ao abrigo d lei espanhola sem a presença sequer de um advogado?
    se é esse, então só lhe posso dizer que esses senhores de inocente não tem nada, como não tem nada de inocente um senhor que faz uma grande prosa sobre uma situação que desconhece, acabando por tomar(mesmo que sem querer) partido.
    por tudo isto:
    GORA EUSKADI TA ASKATASUNA

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  17. Caro amigo,
    eu volto a explicar:
    não escrevo "sobre", escrevo "a partir de", neste caso a partir de uma imagem, ou do sentimento que ela me transmitiu, só.
    Não é uma análise política, nem ideológica, é literatura. Ou, para ser mais correcto (e sei que também estará de acordo comigo neste ponto), tentativa de literatura. Nada mais.
    Não tenho memória, procuro informação. Que estava no mesmo local onde encontrei foto. É sentimento, não ideologia. É uma personagem que escreve. já leu mais alguma coisa do blog? E não me venha outra vez com a teoria da manipulação dos media, porque é mais do que factual, e se o fizer abdico desta "conversa" - até a paciência de ouro tem limites.

    Não me endereçe acusações pouco rigorosas porque, na verdade, não me conhece - nem eu sei seu nome - "estamos quites", portanto.
    Alvos seleccionados que resultaram, não poucas vezes, em mortes de cidadãos inocentes. neste caso, neste "a partir de", foram quatro crianças. Não o choca? A mim também me chocam as situações que descreveu acima, acredite. E, para que veja como respeito a sua opinião e luta, até abri uma excepção: nunca comento vírgula nenhuma do que escrevo. E eis-me aqui, em exageradas explicações.

    E, se quer a minha opinião, repugna-me qualquer tipo de terrorismo. Do mais comum, o de Estado, até ao de "alvos seleccionados". Sou também contra a pena de morte e contra a indiferença pela dor alheia. E gosto de flores.
    Volte sempre.

    Agora, se é a minha opinião

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  18. "Nunca a voz de um revolucionário será calada!"

    Posso retirar o que disse, caro amigo?! ;)

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  19. the revolution wont be televised!
    como se pode tentar dominar a prosa, se não se consegue dominar o conteudo?

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  20. Lamento muito,
    mas não vos (te?) vou explicar pela terceira vez. E é tudo. Mesmo.

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  21. Há sempre algo de sinistro e de profundamente ridículo em (pseudo)discursos fundamentalistas. De lamentar, Sílvio, é que te tenhas dado ao trabalho de tentar explicar o óbvio tantas vezes.
    Um abraço

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  22. fundamentalistas são pseudo poetas que bem podiam contribuir para o melhorar da sociedade em vez de masturbações mentais, que é isso que este texto é.

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  28. Simpatizo com a causada ETA mascompreendo a atitude do autor, pois uma coisa é escrever com propósitos estritamente literários e outra, completamente diferente, é emitir uma opinião consciente em relação a determinado assunto. Neste caso, respeito o texto por compreender que o autor não tenha tido a intenção de veicular uma opinião pessoal anti-Eta. É só uma personagem.Saudações de um gudariak...moderado

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