Ele foi, em tempos, apenas um menino mais velho que eu encontrava sempre de copo na mão e brilho ofuscante no olhar. Não poucas noites, a única pessoa em quem reconhecia a rara faculdade de saber sorrir-com-alma-inteira, estar atento aos que passam, acenar com pureza. E nesta noite, às muitas horas da manhã, aconteceu uma conversa encantada que, à minha maneira, resumo assim:
"preferes vinho ou cerveja?"
Prefiro que me enchas a tela com palavras, com os teus poemas preferidos. Tu que agora, para além de seres isto comigo, és aquele que lança com ansiedade a luz o teu poema preferido para o meio da aparente escuridão de uma conversa nocturna. Este, de João Saraiva:
Passo a passo
"Sou alta - diz a Amizade
Sou profundo - diz o Amor
E lembram bem, na verdade
Montanha e Vale ao sol-pôr
E antes que o Sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o Vale
E ainda há sol na Montanha!"
És aquele que me obriga a derreter nas atordoadas palavras "muito muito muito muito bonito". És medo da solidão, do fim da lua e dos sonhos. E se eles não voltam, e se a lua se deixa aprisionar pelo cronómetro da dor? És aquele que procura e dá ombro. És o que diz "Foda-se! Ainda aqui estou! Venham agora...". Há maduro tinto alentejano para as solidões. És o que o oferece. Curas. Um poeta à direita, afinal também gosto de poetas à direita. És, mais uma vez, um segundo poema fulgurante que rasga com flores a conversa. De Pedro Homem de Mello, este:
Felicidade
Ó infinita consolação
De haver chorado
Algumas vezes!
Ele é, agora, o "eterno apaixonado por poesia". Já o sei. Ele é agora em mim qualquer coisa muito bela muito mais próxima da alma que realmente é. Ele alimenta as conversas com poemas e sonhos de abraços. Eu termino este texto (para ele) com promessas de presença e com mais um fantástico poema que me ofereceu. Há noites assim. Que não deviam acabar. Que deviam ser como na tela de Francisco Duarte Mangas:
"Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos
inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores."
Amanhã há mais sonhos por comer. E mais tempo para amar. Obrigado, amigo. Prefiro os poemas que me deixas. E o vinho dos amanhãs.
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