18.10.05

classificados - café novo

A cada seis nódoas de tinto:
uma metáfora, um patinho morto, um palito de pernas para o ar. a cada risco de vinho na testa.

1.
Tudo começou na festa de aniversário da Vergonha, como se acontecesse nos abortos da sombra. O bolo era alimentado por energia eléctrica mas não comia ninguém. Nos pouco lúcidos segundos de luz cuspiam-se as travessas, grávidas de porcos vivos e sapateiras como molho de petróleo. Erguiam-se fósforos acesos em ritual de sede. A negra Vergonha, coleccionadora de estórias, escondia a uva esmagada (fugia dos fósforos) (apaga-os com a língua). E o petróleo quase lume, de tanto tesão. O calor da chama conduz a boca até ao vinho. Sabes dele, malte de quê, dá-me um bocadinho. Meninas com cebolas nas mãos e lágrimas nos olhos corriam para braços, tropeçavam antes do aperto (corpo-contra-corpo) e meninas com sangue e cebolas picadas pelo corpo abraçavam. Mas, sobretudo, queriam beber. Elas e os ninhos de homens com pernas, que aplaudiam a vergonha na súplica por um copo. Vinte e sete séculozinhos acabadinhos de fazer e toda uma vindima empacotada no desejo. As mãos recuavam, subtraíam factores de euforia, tremiam com a ausência de fumo. Dedos no cristal.
Finalmente espuma a rasgar canecas. Todos os homens desenrolam a sua tromba de elefante e sugam tudo. Os que não tinham tromba lamberam os copos poupando trabalho à doméstica que só limpou.

2.
Uma criatura de lata, com três pernas e uma gaiola de flores no antebraço direito, bebia através da guitarra clássica. É um gesto: vermelho despenteado para dentro do corpo - lugares fermentados, umbigo à mostra, bocas que o reconhecem como torneira. Há quem escreva nos sofás, palavras e buracos na pele. Vinho lá para dentro. Há quem se engane nos furos e se esconda nas palavras. Amo-te. Vem comigo. Estende-me esse olhar. És verde. Escolhem mal, por engano.
Vergonha já não está na sala. Por mais forte que seja a fechadura há sempre janelas abertas, tocas de ratos, canos de ventilação. Vergonha não está. Acabou de sair. Está frio, é um dia como os outros. A Vergonha é um exercício para sóbrios. Mas as velas vertem vinho.

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