16.6.10

escrever futuro em todas as línguas
nas ponta dos pés
e pontapear o mundo.

Lisanov



Eis a sinfonia dos distraídos.
Antes um bairro que um poema
e depois essas portas para quem?

Há uma maneira de ver isto:
um dia, qualquer um, sair de casa
e nunca mais ser encontrado.
ilusionismo ou fogo posto na cabeça
- uma questão de memória.

-uma questão de sonho.
Se vês uma multidão em sintonia e caminhas em sentido oposto, não é a tua multidão.
Se, mesmo furando a multidão, desapareces, a multidão venceu-te.
E não acordas.

Eis a última sintonia dos distraídos.
Antes a morte misteriosa que um equívoco neutro.

11.5.10

Homenagem a Rato Zinger




Começou assim:
«se o papa papasse papa
se o papa papasse pão
o papa tudo papava
seria o papa papão»

e acaba assim:

ó papa salgado quanto do teu papal
são papas de Portugal
Por nos papares, quantas mães choraram
quantos filhos em vão rezaram!
quantas noivas ficaram por papar...
Para que fosses papa, no mar

Valeu a papa? Tudo vale a papa
se o papa não é pequeno.
Fui ver.

8.4.10

mingo.

















O que trama isto tudo é que não consigo pensar,
devo muito à inteligência e sou um poço de cansaço.
Nesse capítulo, nada de novo: muita gente
a fazer barulho e um enorme declive
e todos cá em baixo sem forças para subir.

Depois é a grande espera, o silêncio dos que duvidam,
não sei se durma não sei se grite,
e uma solidão maior que a do cão estrangeiro.

Domingo: mulheres que tropeçam no asfalto
porque não souberam esperar.
Domingo: muitas casas mudas, muitas ruas mudas.
Domingo: não sei quem são os que me olham.
Domingo: amanhã será por mim, sossega.

O que dá cabo disto tudo é não saber para onde ir a seguir,
por muito que suba,
ainda que fale alemão.

Aconcheguemo-nos, conhecidos e desconhecidos, cabemos todos
e viagem não assim tão grande.

Subamos enquanto os homens que gritam
são uma ameaça com pássaros
aos homens que dormem.
Subamos o domingo: a escadaria dos que ficam lá no fundo.

30.3.10

aço, fome, cavalo, sono



Não é assim tão bom,
não é assim tão mau
- tem momentos, espasmos,
acumula erros
cristais
ilusões de aço
flores em chamas.

Antes do romance, a honestidade:
não prestas, poeta.
És pó, fumegas, tosses mas não dizes,
perdes o teu tempo.

Enquanto pestanejam o bem e o mal,
mastigas o futuro em círculos
e queimas a artéria esgotada.

Antes do romance, a matemática:

1. Doeu. O nariz dói quando está irritado. Quando dói, as sobrancelhas juntam-se a pele estica, quando ai. Não gostas que suspeitem do teu ai.

2. tenho fome. tenho comida. não como.

3. As minhas botas pintam as meias de castanho. Não cheiram mal.

4. Tenho uma guitarra. Tenho silêncio nas duas mãos. Não toco.

Não é assim tão longe,
não estás assim tão perto.
por muitos sonhos que saltes
como um cavalo
na flor brotada.

8.3.10

A isenção do homem-livro























Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.

É uma fórmula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela janela nem atravessa pontes.
E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.

A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma tirania difícil de inalar.

Dão-lhe a poesia e ele escreve tempestades.

27.2.10

A zaragata dos Livros ou O uivo de uma biblioteca em construção

















Gil Vicente namora com Jorge Amado,
eles agora até já se casam!,
A Paixão de Almeida Faria é uma anedota para Agostinho da Silva,
Mia Couto ensanduichado por uma Gramática de Português para estrangeiros,
a língua portuguesa é muito traiçoeira,
que o diga Enrique Vila-Matas, mesmo Longe de Veracruz,
que tudo vê amarelo, onde tudo é Aparição,
mesmo que Vergílio Ferreira se distraia com anões.
Harold Pinter, alguma madeira e uma Polaroid para Saramago.

Cecília Meireles muito acima de Sarah Kane,
eles agora até se amam!,
vão à pesca com Raul Brandão e morrem em palco,
deseja o leitor - Bernardo Santareno e Anunciação.

E os Antónios, Franco Alexandre?
E os Antónios, Ramos Rosa?
E os Antónios, Ferlinghetti?
Que os Antónios - meu Lobo Antunes - sejam todos Herbertos,
absolutos, laranjas, peixes, amador e coisa amada,
martelem, martelem, martelem!,
eles agora até se martelam!,
num século ou num segundo
desde que em Ofíicio Cantante.

22.2.10

O nosso primeiro Rilke


(...)
«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade.»
(...)

Rainer Maria Rilke, Primeira Elegia de Duíno

19.2.10

Quarto Crescente



Tantos cavalos, tantos Camões, não é?
um homem é um poema que passa a correr
mas há-de voltar, não é?
a memória curta de um gladiador, dizes tu.
quatro pernas robustas: o poema.
o cavalo que corre na passada
e o homem que não o alcança.
o poema: dança.