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27.2.10

A zaragata dos Livros ou O uivo de uma biblioteca em construção

















Gil Vicente namora com Jorge Amado,
eles agora até já se casam!,
A Paixão de Almeida Faria é uma anedota para Agostinho da Silva,
Mia Couto ensanduichado por uma Gramática de Português para estrangeiros,
a língua portuguesa é muito traiçoeira,
que o diga Enrique Vila-Matas, mesmo Longe de Veracruz,
que tudo vê amarelo, onde tudo é Aparição,
mesmo que Vergílio Ferreira se distraia com anões.
Harold Pinter, alguma madeira e uma Polaroid para Saramago.

Cecília Meireles muito acima de Sarah Kane,
eles agora até se amam!,
vão à pesca com Raul Brandão e morrem em palco,
deseja o leitor - Bernardo Santareno e Anunciação.

E os Antónios, Franco Alexandre?
E os Antónios, Ramos Rosa?
E os Antónios, Ferlinghetti?
Que os Antónios - meu Lobo Antunes - sejam todos Herbertos,
absolutos, laranjas, peixes, amador e coisa amada,
martelem, martelem, martelem!,
eles agora até se martelam!,
num século ou num segundo
desde que em Ofíicio Cantante.

11.9.07

Teu ajeito

A um de maio, no início de setembro, escrevo-te uma carta de amor para todo o inverno.
Deitados assim, nos gestos um do outro, somos o tempo a passar - a tua saia rodada é o tempo a passar.
A um de maio, nas nuvens de amora, rasgo três versos de ócio, danço seis vezes o fandango e o tempo passa nos teus olhos.

22.4.07


















Um dia vais olhar-me tão fundo nos olhos que reconhecerás a lua.


Pintura: Ashes (1894), Edvard Munch.

27.3.07

Palavras Cruzadas

Ela
Na vida
Tanto que não mais saiu
Rastejante na ponta de um dedal azul
Ou saiu - esteve de certeza com ele, na vida, com ele, na vida,
Uma vez mais
-
Levantada por um impulso de nuvem
Há cerca de cinco meses de mãos dadas
E nunca mais saiu.

25.2.07

Lisboa outra vez





















De cada vez que alguém agarra uma caneta para escrever, é o pânico geral.
Como se a escrita fosse o laboratório de onde emergirá a próxima arma de destruição em massa.
Enquanto algumas dezenas de lisboetas tiram seus dias para falarem sozinhos na pesada linha do metro, eu espalharei palavras de rorret (terror ao contrário), pelos arredores deste ascensor. Enquanto os homens falam, ou dormem, ou olham o vazio, ou consentem a solidão, concretizo minhas aspirações de rorretista num papel grande, em janela próxima deste brinquedo que desce e ascende.
Às vezes dá-me a sensação que se um novo Mozart surgisse com composições de génio, em plena carruagem, ninguém se apercebia. Mas a ideia para este texto era só mesmo a de sorrir e dizer que vou viver na Bica. Em busca da chave de mudar o mundo, verde, com sonhos de Tejo.

29.1.07

A menina do quadro







Na cama também nasce uma flor, despenteada no cabelo, de amanhecer espantado nos olhos. Não é ter sono, é a varanda virada para os barcos da noite. Num escuro tão denso que cada onda é um problema auditivo e o oceano um violento ruído de sal. Mesmo assim, adormece. Cabeça apoiada à esquerda, suspensa no travesseiro alto, à espera que, lá em baixo, junto ao estremecer da parede da janela, passe o último comboio para a madrugada. Mesmo assim, não é seguro que durma inteira. O corpo descansa por turnos e é a vez dos olhos se abrirem e os lábios também. O bater de dentes porque a carruagem já atravessou o frio a 60 à hora e deixou-lhe o corpo a gemer de viagem. Mudança de turno. Mesmo assim, não é seguro que tenha acordado sem excepções. É a vez das mãos tactearem o espaço, três palmos à esquerda, do lado onde melhor assenta o rosto, encontra a boca traçada na linha imaginária ligeiramente diagonal à sua. É doce, porque provou. E mesmo assim dorme e mesmo assim é seguro que beije.

18.1.07

sopra-lhe ternura e desliga

Atravessam a rua com o dobro dos passos porque, para além das quatro pernas, amam-se.

Experimenta o espasmo,
espalha o espanto pelo corpo
como é galopante a espera.

Expira o fumo para uma mesa sozinha
sobra-lhe voz para a certeza no telefone:
dois passos num só
caminham em silêncio para uma chave.

Chegam ao outro lado da rua como o desejo nos vinte dedos da mão. Porque, para além dos dois braços cada, sabem que são quatro.

3.1.07

















é minha ou tua a saliva que largo no travesseiro
pelo teu peito sobem temperaturas de espanto
agora que a luz é opaca e nos refugiamos na sombra um do outro
até que amanheça uma sombra única antes de adormecermos
ou que duas almas iluminadas pela força motriz
olhos nos olhos
sejam duas flechas sem descanso.

o caminho arrepiado de lábios, saliva é do beijo dos dois.

o não saber se é um acordar ou se ainda nem adormecemos
são estrelas ou sol quem bate à janela para entrar
entrelaçados com nós de braço nos braços, não abrir
mas somos marinheiros que abandonam o barco para nadar em céu aberto.



Pintura: Henri de Toulouse-Lautrec; The Bed.

13.12.06

Breve apontamento sobre a felicidade

Casados há dezassete anos, não sabiam mais o que fazer para experimentar o amor. O filho andava na escola, os dois andavam de trombas no terraço de terra batida e o calendário, cruel e indiferente, andava para a frente sem se cansar. Ambos cansados de flores que secam em jarros, decidiram plantar uma árvore e esperar que desse frutos.

São avós muito jovens. E comem as maçãs colhidas pelos rebentos.

Casados há trinta e sete anos, sabem que o amor não se experimenta, que não precisam de fazer nada. Andam a pé.

28.5.06

Lama.






















Tinta para um lado, tela para o outro, não a borro mais a teus olhos.
É a lágrima finita,
é o passado que nos traiu e futuro que escolhemos,
é o último lugar a dois.

* Karel Appel, The Discovery

26.4.06

Chamada geral


Muito cuidado
porque anda por aí um montanhista à solta,
com uma objectiva afiada
com todos os graus de sensibilidade.
Nasce um novo mito: "O adorável homem das neves". Diz-se que a seus olhos só se vê disto.

11.3.06

Metro

Tudo foi para ti o que eu não vou escrever. Eras uma raiva à solta num metro cambaleante, para mim Lisboa é essa mancha negra subterrânea das manhãs e dos finais da tarde, onde a meu lado se apaixonam dois restos de razão, talvez o primeiro beijo, não sei, é um beijo ai isso é, uma mão no barão outra a acariciar o braço, amam-se mesmo, para eles Lisboa é mais que este escuro meu, para eles Lisboa é gaivota, um fado malandro na menina dos olhos, para eles Lisboa é outra coisa porque falam outra língua e sorriem de outra forma, para eles se calhar nem é Lisboa, é como se voassem ou nunca os visse, para eles até podia ser Istambul, que se foda desde que se amem, desde que o beijo (ai isso é: um beijo) seja o mesmo beijo, para eles não é estação terminal nem têm que trocar de linha coisa nenhuma, quando a linha é de amor não se troca de linha nem que se mate, para eles é mil vezes ritos de beijo,
viro a cara para outro lado, farto de ver, viro a cara para outras cores, e não é para ti nada do que escrevo, troco eu de linha, este metro é mais quadrado o que torna óbvio que se deve entrar pela janela, mas ela é de vidro e a porta já se fechou, estação terminal vai para lado nenhum, se calhar ainda fujo, não calhou e sigo no próximo, uma acordeão cego pede esmola pela graça de deus, mas como não lhe acho piada nenhuma desvio-me e abano os bolsos como quem não tem dinheiro, queria a espuma o mar, talvez se o metro fosse mais fundo tivéssemos que usar máscara, equipamento de mergulhos, todos os dias seriam uma nova navegação e as espécies que se encontram no metro não fossem ausentes de olhar, e nada disto é para ti, porque tu és tudo o que não escrevo, porque eles que sabiam o que era o amor já se foram para lá da estação terminal, para lá da vida, fazer amor, talvez só em beijos, talvez levassem o barão para poderem segurar a vertigem, não sei, eles que sabem do amor é que sabem, porque quando vejo a luz são cem metros até um prédio verde e lá se vai a luz outra vez, e vêm os computadores e as lâmpadas, se amassem até fazer luz não precisávamos de luz, e preciso que Lisboa seja mais, e nada disto foi escrito para ti. Tu, que me lês, se me lês, és tudo o que não sou capaz de escrever.

16.1.06

Sobrevivi aos lábios, voltei ao mar que amo.
Ela disse pára, disse está errado, disse não mereces, disse não devemos, não disse nada, ensopou-me de fantasia, mordeu-me o beijo, disse já chega, disse olha o que fizemos, afundou-me em círculos de laranja perfeita, disse já chega, disse já chega, eu adormecido elefante bebé, disse não está certo, língua, barco à vela a furar o céu, estrela cadente, disse ainda te estou a magoar mais, disse deixa-me ir embora, língua, não disse nada, eu morango anestesiado, eu guerrilheiro rendido, eu perdido nos lábios que sobreviveram aos meus.
É um só sol, uma única flor, voltei do mar que amo.


Figura: Le bateau atelier, Claude Monet

28.12.05

"Não quero continuar uma estória que já deu tudo o que tinha a dar..."

Quando o escritor desiste de criar não há mais nada a fazer. Mesmo escondendo mesas com propostas e sapatos dançáveis em cima. Um pacto entre editores não era mal pensado. O Ana [nome de cão] sai de Outono em Pequim de Boris Vian e ressuscita no próximo romance de Mia Couto. A mulher do primeiro homem a cegar abandona as páginas de Saramago para iluminar os versos de António Ramos Rosa. Nada a fazer.
A culpa é do leitor, se o houver. Caso contrário volta a ser de quem pinta.

- As estórias são crias das páginas em branco, meu amor, não têm fim.

tela: La Promenade; August Renoir

29.11.05

"o sol é um arco-íris, não é noite nem dia"

Aproximaram-se porque partilhavam cinzeiros. É melhor termos cuidado, advertiu ela. Diz aqui que faz mal, está aqui escrito que mata, que nos torna demasiado dependentes da vida.
E apaixonaram-se.

15.9.05

Regresso; não-regresso

Não sei se árvore, não sei se sal, não sei se fumo. Nas ondas do abraço te trepo - a tua saúde pontiaguda, ou janela azul, ou lezíria mental.
Não sonho se fico, não sonho se livro-fechado, não finjo se sonho. É a verdade.
E, no entanto, fumega.
Eu era total. Bebia dos barcos que te atravessavam os olhos; unicórnios com velas, o vento, círculos de fogo; não dormia. Não sei se ramos estalavam antes de me fintares pelas flores do sono. Árvore seca, talvez, no vermelho da terra, do vermelho sem estrada. Do trilho de um amor que não digo porque não é da natureza mofa deste dardo sem alvo; a palavra subterrânea; sem aquedutos de luz.
Não sem sal, não sei se vale o que te sonho, não sei explicar e tal. Eras distante, mas vital. Caminhas descalça como se já não houvesse mais vinho por pisar; tanto bebido; bebemos tudo? Lembras-te como engolíamos o azul para que não nos fugissem as nuvens?
E, no entanto, queima.
Os degraus são demasiado duros para dobrar, ficam mais pesados por cada lata que cai; pedra impermeável com buracos de lágrima.
Não sei se luto, não sei se branco de desistir. Bala de pânico, canudo apontado à testa, revolver faminto - sistemático-nulo.

9.8.05

Esta é uma profissão filha da puta!
Roupa suja pelo pó, pelo verniz, por todos os inflamáveis que partilham o ar. Não é para respirar. Usa a máscara para que não morras já. Móveis para trás e para a frente. Aqui trabalha-se, há mesmo quem trabalhe todo o ano e é bom que se saiba. Quem chegue ao fim do dia e se contente com um chuveiro. Com um cigarro fumado À pressa. Livros ler? E o tempo para cozinhar, quem o inventava. Depois há a louça, a roupa, oferecer uma mão carinhosa (e só se tem duas!) a cada filho. Amo-vos pai e mãe. Amo-vos. Batalham tanto por mim. E sabe-vos tão bem aquele meio beijo que vos dou por semana.

14.5.05

Amigo nocturno



Ele foi, em tempos, apenas um menino mais velho que eu encontrava sempre de copo na mão e brilho ofuscante no olhar. Não poucas noites, a única pessoa em quem reconhecia a rara faculdade de saber sorrir-com-alma-inteira, estar atento aos que passam, acenar com pureza. E nesta noite, às muitas horas da manhã, aconteceu uma conversa encantada que, à minha maneira, resumo assim:
"preferes vinho ou cerveja?"
Prefiro que me enchas a tela com palavras, com os teus poemas preferidos. Tu que agora, para além de seres isto comigo, és aquele que lança com ansiedade a luz o teu poema preferido para o meio da aparente escuridão de uma conversa nocturna. Este, de João Saraiva:

Passo a passo

"Sou alta - diz a Amizade
Sou profundo - diz o Amor
E lembram bem, na verdade
Montanha e Vale ao sol-pôr
E antes que o Sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o Vale
E ainda há sol na Montanha!"


És aquele que me obriga a derreter nas atordoadas palavras "muito muito muito muito bonito". És medo da solidão, do fim da lua e dos sonhos. E se eles não voltam, e se a lua se deixa aprisionar pelo cronómetro da dor? És aquele que procura e dá ombro. És o que diz "Foda-se! Ainda aqui estou! Venham agora...". Há maduro tinto alentejano para as solidões. És o que o oferece. Curas. Um poeta à direita, afinal também gosto de poetas à direita. És, mais uma vez, um segundo poema fulgurante que rasga com flores a conversa. De Pedro Homem de Mello, este:

Felicidade

Ó infinita consolação
De haver chorado
Algumas vezes!


Ele é, agora, o "eterno apaixonado por poesia". Já o sei. Ele é agora em mim qualquer coisa muito bela muito mais próxima da alma que realmente é. Ele alimenta as conversas com poemas e sonhos de abraços. Eu termino este texto (para ele) com promessas de presença e com mais um fantástico poema que me ofereceu. Há noites assim. Que não deviam acabar. Que deviam ser como na tela de Francisco Duarte Mangas:

"Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes

a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores."


Amanhã há mais sonhos por comer. E mais tempo para amar. Obrigado, amigo. Prefiro os poemas que me deixas. E o vinho dos amanhãs.

9.5.05



Haverá diferenças:
Um. É delicioso carregar um amigo às costas, pesado com os seus fantasmas de alcóol, às 8 da manhã junto ao Mar quase-beija-Porto. O Mar que amanhace em faces cansadas de tanto beber, de tanto biber. É inspiradora a travessia de sono e desejo que se arrasta (pés no chão, sonhos no horizonte) nos passos de exílio da Queima das Fitas do Porto.
O Porto é único ninho onde me permitem amar a minha solflor.

Pássaro-bati-asas-para-aqui. Para o aqui definitivamente sol de Braga.

Dois. É assutador que nenhum amigo me carregue às costas, fantasma só com copos em dívida, e que o caminho se arraste pelas ruas improvisadas, asfixiadas pelos monstros gigantes com portas e janelas. São de medo e de tédio os pensamentos do homem que queria sonhar. É inaceitável que não beba o suficiente para que possa ignorar a dor de mais um dia que vou falhar, dos tão carenciados alguéns a quem vou faltar. Às 8 da manhã, nem-um-rio, a sair do Enterro da Gata de Braga.
Braga é ser extraterrestre na única morada que tenho. É estar proibido de amar, sem nunca ter percebido porquê.
Haverá sempre.


ilustração: "Solflor" de Franco A. Stancato