Mostrar mensagens com a etiqueta pintura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pintura. Mostrar todas as mensagens

22.4.07


















Um dia vais olhar-me tão fundo nos olhos que reconhecerás a lua.


Pintura: Ashes (1894), Edvard Munch.

17.4.07














Na Assembleia do Inverno, ocorrência rotineira do Dia da Árvore, as nuvens carregadas de escuros e os trovões de luz continham-se para não aplaudirem em demasia as propostas apresentadas. Cada explosão de palmas significa tempestade, de imediato atribuída ao buraco do ozono que, cada vez mais alvo de documentários, já não tem noites de sossego. Para todos os efeitos o buraco dormia, há que bloquear o entusiasmo.

Um aparatoso e bem conjugado jogo de espelhos transformava três ou quatro nuvens pingadas, mais uma ou outra faísca de relâmpago, numa assembleia infinita. Sobre a mesa, ideias de grandiosidade. Pequenos heróis em auto-elogio, o reflexo traidor, combinado vegetal de multiplicações várias, voto anónimo de braço no ar, viva a Assembleia, viva o debate arrogante do pré-decidido.

Este ano, atacamos em Setembro. Ainda há gente nas praias, surpreendemo-la por todos os flancos, raios de zanga no epicentro do mar, tempestades de vento no miolo da areia, nuvens intactas nas copas das árvores, um sambinha de chuveiro para todo o planeta. Satisfação geral, unitária, quadricular. O silêncio do zelo. Também não gostamos quando o sol se distrai e nos corrompe o Natal com temperatura fora-do-prazo. O cinzento tem um custo. Deixemos a planta florir, por agora.

Uma ala enorme de multidão espreita o relógio ao mesmo tempo, é o próprio orador a sentir que se faz tarde em reflexo. E, porque anoitece, há que ceder a sala aos elementos da Assembleia do Amanhecer. Retiram-se os espelhos, porque esses são realmente muitos.



Pintura: Rainwater dreaming, Moses Fry

3.1.07

















é minha ou tua a saliva que largo no travesseiro
pelo teu peito sobem temperaturas de espanto
agora que a luz é opaca e nos refugiamos na sombra um do outro
até que amanheça uma sombra única antes de adormecermos
ou que duas almas iluminadas pela força motriz
olhos nos olhos
sejam duas flechas sem descanso.

o caminho arrepiado de lábios, saliva é do beijo dos dois.

o não saber se é um acordar ou se ainda nem adormecemos
são estrelas ou sol quem bate à janela para entrar
entrelaçados com nós de braço nos braços, não abrir
mas somos marinheiros que abandonam o barco para nadar em céu aberto.



Pintura: Henri de Toulouse-Lautrec; The Bed.

24.10.06

Dois laranjais secos

Da Suécia à Grécia são apenas cento e vinte centímetros.
E, às vezes, o azul de cada um deles mistura-se indecentemente com o outro,
sem diplomacia intermédia, mesmo nas barbas do dono do hotel.
















A doença terminal sonha com um aborto ou com recém-nascidos?
Acorda o corpo prestes a tombar, leva-o pela mão até um espelho e sopra-lhe baixinho ao ouvido:
Olha, era este o monstro que te queria mostrar.
Os que lhe são próximos, que não enxergam nem monstro nem homem, choram Porque não sabem cantar hinos ao amor. Porque, pobres ingénuos, ainda acham que um homem pode morrer.


* imagem: História trágico-marítima; Helena Vieira da Silva (1944)

15.10.06

O milagre da mão-invisível
















Foi pedido ao tio zé, campeão europeu de construção de castelos de areia, que construísse uma casa sobre o mar.
Zé, ou tio para os sobrinhos mais próximos, enterrou a pá na areia, encomendou um barco, comprou fato de mergulho, aprendeu a nadar, licenciou-se em ciências marinhas, registou a sua cana de pesca junto das entidades competentes, lambeu um gelado de baunilha, contou duas anedotas aos caranguejos, fotografou a água a espumar-se nas rochas,
foi ver o barco, pagou-o às prestações com oferta dos remos, inventou a grua que levita, sonhou com tijolos de esferovite, concebeu-os em forma de sardinha, vomitou uma posta de bacalhau no restaurante do irmão, vendeu núcleos de ilusão no interior das dunas, sobreviveu a tempestades de areia, publicou um artigo de jornal sobre o assunto, foi lido por trezentas e vinte pessoas, engadelhou-se com uma rede de pesca, partiu para alto-mar,
equeceu-se de levar cimento, projectou o edifício com as coordenadas do pôr-do-sol, enfiou dois dedos na água salgada, levou-os à boca, tombou de encantamento porque se apaixonara por uma estrela.
Não pensou uma segunda vez: recusou.


* Ilustração: Moon and Sea, No. 2; Donna Ciaciarella

3.7.06

Casa










Um homem nasce com tudo, nem lhe deram tempo para pedir, deram com ele assim, sentado num buraco verde de quatro pernas. Casa, livro, roupa lavada. Com a alegria de palhaço, de quem nunca conquistou nada, tudo lhe veio colar-se ao corpo, encontraram-no assim, desolado. Observa a roupa rasgada suspensa no skate, com inveja. Já leu três ou quatro romances dos grossos, páginas de açúcar numa diabetes de vida, balões que não rebentam, encontrou-os numa estante, encontraram-no assim, de mãos erguidas para o céu, súplica por tempestades, pastilha elástica colada ao céu da boca.


* The Isle of the dead, Arnold Bocklin

9.6.06

Os olhos do outro.














Quanto mais amarrada a boca, maior a urgência de falar. Não são parte do silêncio, os olhos. Brotam dimensões de intervenção onde tudo grita com ternura, órbita na órbita, um no outro com tanta intenção que torna marítima e secular a compreensão, qualquer tentativa vã, este desejo pelo indefinido, a procura de palavras inexistentes, como se na própria definição, no todo definido, vivesse o bicho que infecta e apodrece a vida. É por isso que me olhas, te observo, é por isso e, sobretudo, por não ser isso. Porque é também mais complexo, ou então é nada, todo este desejo que partilhamos na desajeitada carruagem comum.
E nunca me dirás se realmente me olhavas,
tão rápido como eu nunca ser capaz de to perguntar.

* Never-ending train, Neurone Pipero

28.5.06

Lama.






















Tinta para um lado, tela para o outro, não a borro mais a teus olhos.
É a lágrima finita,
é o passado que nos traiu e futuro que escolhemos,
é o último lugar a dois.

* Karel Appel, The Discovery

10.5.06

Áustria




















O Zé é daquelas pessoas fáceis de admirar. Uma janela de honestidade. Zé, ou então José Bento Amaro, irreverente jornalista, insubstituível camarada de redacção.
Não me deixou sair sem enrolar o braço amigo de quem sabe por cima do meu ombro. Sem sussurrar o segredo mais Público de um grande profissional:

Mantém-te fiel aos teus princípios
e àquilo que achas correcto.

Depois foi-se, enigmático, com o cigarro por acender na boca.
E amanhã voo, com o instante a entoar sentido na minha cabeça.

Sim.


* Gartenweg,
Gustav Klimt

6.5.06














sete rios de cegonha em cada olho
seios olhos de lobo em cada mão
cinco cascas de mão em cada ramo
quatro troncos de toca em cada nuvem
três buracos de chuva em cada pau
duas pauladas bem dadas
um morto.


* ilustração: El cielo azul de un luz quieta, Pablo Aizoiala.

6.4.06

Do fundo do sono.

















Sei bola de nuvem a bola de nuvem o que se passa com os pássaros
mas não conto enquanto não me crescerem as asas

Ilustração: Joan Miró

16.1.06

Sobrevivi aos lábios, voltei ao mar que amo.
Ela disse pára, disse está errado, disse não mereces, disse não devemos, não disse nada, ensopou-me de fantasia, mordeu-me o beijo, disse já chega, disse olha o que fizemos, afundou-me em círculos de laranja perfeita, disse já chega, disse já chega, eu adormecido elefante bebé, disse não está certo, língua, barco à vela a furar o céu, estrela cadente, disse ainda te estou a magoar mais, disse deixa-me ir embora, língua, não disse nada, eu morango anestesiado, eu guerrilheiro rendido, eu perdido nos lábios que sobreviveram aos meus.
É um só sol, uma única flor, voltei do mar que amo.


Figura: Le bateau atelier, Claude Monet

28.12.05

"Não quero continuar uma estória que já deu tudo o que tinha a dar..."

Quando o escritor desiste de criar não há mais nada a fazer. Mesmo escondendo mesas com propostas e sapatos dançáveis em cima. Um pacto entre editores não era mal pensado. O Ana [nome de cão] sai de Outono em Pequim de Boris Vian e ressuscita no próximo romance de Mia Couto. A mulher do primeiro homem a cegar abandona as páginas de Saramago para iluminar os versos de António Ramos Rosa. Nada a fazer.
A culpa é do leitor, se o houver. Caso contrário volta a ser de quem pinta.

- As estórias são crias das páginas em branco, meu amor, não têm fim.

tela: La Promenade; August Renoir

14.5.05

Amigo nocturno



Ele foi, em tempos, apenas um menino mais velho que eu encontrava sempre de copo na mão e brilho ofuscante no olhar. Não poucas noites, a única pessoa em quem reconhecia a rara faculdade de saber sorrir-com-alma-inteira, estar atento aos que passam, acenar com pureza. E nesta noite, às muitas horas da manhã, aconteceu uma conversa encantada que, à minha maneira, resumo assim:
"preferes vinho ou cerveja?"
Prefiro que me enchas a tela com palavras, com os teus poemas preferidos. Tu que agora, para além de seres isto comigo, és aquele que lança com ansiedade a luz o teu poema preferido para o meio da aparente escuridão de uma conversa nocturna. Este, de João Saraiva:

Passo a passo

"Sou alta - diz a Amizade
Sou profundo - diz o Amor
E lembram bem, na verdade
Montanha e Vale ao sol-pôr
E antes que o Sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o Vale
E ainda há sol na Montanha!"


És aquele que me obriga a derreter nas atordoadas palavras "muito muito muito muito bonito". És medo da solidão, do fim da lua e dos sonhos. E se eles não voltam, e se a lua se deixa aprisionar pelo cronómetro da dor? És aquele que procura e dá ombro. És o que diz "Foda-se! Ainda aqui estou! Venham agora...". Há maduro tinto alentejano para as solidões. És o que o oferece. Curas. Um poeta à direita, afinal também gosto de poetas à direita. És, mais uma vez, um segundo poema fulgurante que rasga com flores a conversa. De Pedro Homem de Mello, este:

Felicidade

Ó infinita consolação
De haver chorado
Algumas vezes!


Ele é, agora, o "eterno apaixonado por poesia". Já o sei. Ele é agora em mim qualquer coisa muito bela muito mais próxima da alma que realmente é. Ele alimenta as conversas com poemas e sonhos de abraços. Eu termino este texto (para ele) com promessas de presença e com mais um fantástico poema que me ofereceu. Há noites assim. Que não deviam acabar. Que deviam ser como na tela de Francisco Duarte Mangas:

"Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes

a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores."


Amanhã há mais sonhos por comer. E mais tempo para amar. Obrigado, amigo. Prefiro os poemas que me deixas. E o vinho dos amanhãs.

13.5.05

Chove



Gosto da chuva como quem acaricia um cão com pulgas no meio da rua. Abro os braços e vem-chuva-matar-com-o-vírus-do-prazer. Grito para os céus.
Mas, porque gosto muito de animaizinhos, queria mesmo era que chovessem gatos peludos lá do cimo do monte, por cima das nuvens, onde só habitam os reis das chuvas. E as rainhas, responsáveis por derrames de arco-íris.
Gosto das chuvas de fria e cândida gota.

ilustração: "Mulheres na chuva" de Alice Candeias Ambrosini

9.5.05



Haverá diferenças:
Um. É delicioso carregar um amigo às costas, pesado com os seus fantasmas de alcóol, às 8 da manhã junto ao Mar quase-beija-Porto. O Mar que amanhace em faces cansadas de tanto beber, de tanto biber. É inspiradora a travessia de sono e desejo que se arrasta (pés no chão, sonhos no horizonte) nos passos de exílio da Queima das Fitas do Porto.
O Porto é único ninho onde me permitem amar a minha solflor.

Pássaro-bati-asas-para-aqui. Para o aqui definitivamente sol de Braga.

Dois. É assutador que nenhum amigo me carregue às costas, fantasma só com copos em dívida, e que o caminho se arraste pelas ruas improvisadas, asfixiadas pelos monstros gigantes com portas e janelas. São de medo e de tédio os pensamentos do homem que queria sonhar. É inaceitável que não beba o suficiente para que possa ignorar a dor de mais um dia que vou falhar, dos tão carenciados alguéns a quem vou faltar. Às 8 da manhã, nem-um-rio, a sair do Enterro da Gata de Braga.
Braga é ser extraterrestre na única morada que tenho. É estar proibido de amar, sem nunca ter percebido porquê.
Haverá sempre.


ilustração: "Solflor" de Franco A. Stancato

31.1.05

História e Semiótica das Artes Visuais

Arte: ou personalidade artística: aquele instante preciso em que os dedos deixam de sentir.
Vou comprar um casaco cor-de-mãe para nunca mais ter medo. Pintar esta ideia.
A maior das artes consiste no viver feliz. Juro que li esta frase em algum lado. Juraria. Também Modigliani se enterneceu pelos anjos caídos, apagou-lhes a aura, desenhou-os com cérebro.
"Um pintor autêntico tem o seu modo de imaginar que descobre um mundo novo", é certo.
O que escreve também.
O que escreve em colapso, apaixonado, também.

6.7.04

Do Exame de TAD: só.

I

descreve-me,
porque me constróis.
a cada descrição tua corresponde um novo parto,
e surjo outro, noutro ser, com outros nomes.
ainda viscoso de líquidos e células de teu ventre.
somos como polvos, na posse de trinta e cinco mil cordões umbilicais.
corta-os, corta! liberta umbigos para outros. novos. produtores das
tuas descrições. engenharia de novos eus em mim.

II

Contar uma história é dar uma facada no mundo,
deixar-lhe cicatrizes impossíveis de disfarçar.
Ele continua a rebolar, é certo, mas a rota...
repara como se altera.

Entre jactos de água e Cantos de baleia o mar vai ganhando
sal. palavra tua. a palavra, o discurso, as histórias.
a lágrima secular de tantas marés.
a escrita, a fala, principalmente a escrita, são o caminho
para a nossa perdição.
Gosto deste silencioso estar aqui. Secreto, clandestino
murmurado de boca em boca. "Não vais passar; não sei; o discurso tal porque o autor tal o afirma; eu não te disse?; Não!; Bate-lhe, risca-o!"
Bastava que me levantasse e gritasse uma mentira para que ela fosse verdade na nova realidade que criava. Mas não, porque
gosto de silencioso estar aqui.

uma facada no mundo, é como quem diz: um abrigo sem chão, incendiado - cá dentro, onde as palavras e as lágrimas não chegam.
o caminho é longo, individual. quantas horas de solidão dentro de cada palavra? caminhando em frente sem saber onde a Frente fica. Mas não; é, na verdade, a libertação em acto. os actos de fala, os actos de escrita - os actos em fuga - constante. rebolar é como quem diz: disponível para a cinza extrema do que só dói por dentro. como o discurso, inalcançável.

fim da página um

gosto deste estar aqui, híbrido no silêncio,
e no entanto quero sair, ir-me embora sem olhar para trás. cruzar três vezes
uma mão na outra sem deixar transparecer o quanto sei que também choras,
que, se quisesses poder, não permitias que a minha uga fosse solitária
e das tuas mãos
[abstenção de quatro em cinco e só o polegar se levanta]
tão democráticas.

nossa perdição é como quem diz: minha, do lado por encontrar, teimosamente desconhecido.
e perdição nesse sentido, da complexidade in(di)visível.
as minhas mãos não fazem referendos nas tuas.~
gosto deste estar.

- febre delirante dentro de cada palavra, senhor. Quantos graus?
- um por minuto, excelência. Quantos?
- uma hora e meia de graus, saudoso cavaleiro.

a galope no tempo. Cinza é como quem diz: restos mortais ou cigarros injectados via inalatória. mas antes: circuito fechado de memórias.
inalcançáveis por mais facadas, batidas ou riscos.
libertação é como quem diz: desenhar borboletas. coloridas. que gostem de estar.
no híbrido e no silêncio. no aqui.
mas, sobretudo, que saibam bater asas consistentemente para
que possam partir.

borboletas que sejam as próprias estórias.
estórias é como quem diz: inalcançáveis.