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22.2.10

O nosso primeiro Rilke


(...)
«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade.»
(...)

Rainer Maria Rilke, Primeira Elegia de Duíno

3.5.05

Às vezes isto.

"Sonhar! Mas eu já não posso sonhar só isto. Preciso de sonhar mais - dum sonho sem limites que me satisfaça.
Dias há em que me deito na cama e não tenho mais vontade de me levantar. Olho em roda. Toda a vida me parece aborrecida e vazia. A minha falta de energia exaspera-me. Estou gasto e com rugas aos trinta anos. Estou cansado e esgotado, sem imaginação e sem nervos. Aflige-me não ter sido moço, não ter vivido como os mais, e insulto a minha quimera que me parecia de oiro, por quem me esgotei, para afinal a encontrar gelada e fugidia... Errei o caminho: não era por aqui."

Raul Brandão, A morte do palhaço e o mistério da árvore

22.1.04

Lobo da minha vida

"De bata nos joelhos via a cidade iluminar-se. Os pombos emigravam para o telhado do anúncio Sandeman, um homem de chapéu e capa, com um cálice de vinho do Porto. Na minha opinião, adquirida pelos cinco ou seis anos de idade, nunca existiu nada mais bonito."
António Lobo Antunes

27.11.03

"Disse que havia duas maneira de partir:
uma era ir embora, outra era enlouquecer"

Mia Couto