# A chuva caiu como pão no estômago do homem que fumegava com fúria na boca e com gotas na língua. Em Madrid, um brasileiro festejava um golo.
# Fúria na boca de pensar a coisa que oculta e dizer o que jamais sonhou. Ignorando regulamentos, o homem suplica por um prolongamento.
# Gotas na língua de verdade. Dizer apenas o necessário e o urgente. E é urgente comer, é necessário dizê-lo.
# Na Graça, uma mota ruidosa fura o pacto de silêncio. Na apatia do anoitecer, grite-se: voa ali um homem vivo!
# Para onde caminhas? Que momento procuras?, pergunta um homem sentado. Estou sentado com muita pressa e não há maneira do meu momento chegar.
# É tempo de nos queixarmos da chuva, ensopados, como quem sai indignado de um mergulho de mar. Não nos avisaram que esta nuvem molhava.
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25.10.12
27.1.12
Lisboa, cidade rural
O rapaz cospe na mão,
apoia-se na enxada e observa a planície:
não sei por onde lhe comece.
não sei por onde lhe comece.
4.1.11
não durmo.
São seis da manhã e não consigo dormir.
Lá fora, vultos de homens, serpentes da madrugada,
ajeitam o nevoeiro e expõem no chão os seus objectos mais íntimos.
Lisboa lá fora, a vender-se às fatias por um pedaço de pão.
São seis da manhã e ainda não há fregueses. O dia começa no copo de martini
e na sandes de morcela. Começa no escuro. E não os vejo com medo.
São seis e catorze da manhã e faz frio por oposição. Hoje já não durmo.
O jardim ainda está fechado aos peões mas os homens já lhes preparam armadilhas.
A intimidade: colecções de cromos do Mundial de 86, Diamantino, Valdano, Tigana, Rummenigge, filmes em VHS, usados, pornográficos mas-não-só, livros lidos e não lidos, livros que não lembra ao diabo ler, colecções de chávenas de café, carcaças de computadores portáteis, a chupeta do meu mais novo...
Manhã escorrega no rasto de caracol. Já que não dormes ao menos que se faça luz. Manhã demorada. Ainda seis e trinta e um e hei-de ter muito sono às dez.
Lá fora, o barco para o Barreiro já fez três travessias do Tejo. Visto daqui é uma luz vermelha com muitas pessoas por dentro. Carros em pânico procuram os últimos lugares de estacionamento e duas carrinhas a abarrotar vomitam caixas de sapatos.
São seis e quarenta e oito da manhã num quarto andar da Feira da Ladra.
Hoje vendo a minha alma ao diabo para, às dez, lhe comprar uma pastilha de lucidez.
Todo o dia de hoje lá fora, já com tiques de aldrabão.
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