23.11.11
Parabéns pai
19.3.07
10.5.06
Áustria

O Zé é daquelas pessoas fáceis de admirar. Uma janela de honestidade. Zé, ou então José Bento Amaro, irreverente jornalista, insubstituível camarada de redacção.
Não me deixou sair sem enrolar o braço amigo de quem sabe por cima do meu ombro. Sem sussurrar o segredo mais Público de um grande profissional:
Mantém-te fiel aos teus princípios
e àquilo que achas correcto.
Depois foi-se, enigmático, com o cigarro por acender na boca.
E amanhã voo, com o instante a entoar sentido na minha cabeça.
Sim.
* Gartenweg, Gustav Klimt
24.3.06
Euskadi eta askatasuna
Sou uma criança normal que ficou sem braços, não é muito mau na medida em que ainda posso falar, mas para escrever este texto foi preciso chorar, chorar muito até a raiva ganhar a forma de palavra. Não me importo, desde que chore. Os braços só atrapalham, se os tivesse já havia explodido uma bomba de vingança no cessar-fogo. Mas as minhas lágrimas, palavras, nunca ganham forma de bomba. Não me importo. Desde que chore muito, como sempre faço desde o dia em que me rebentaram com a cara. Até nem foi mau de todo, a outros rebentaram-lhe com a vida. A mim não me interessa. Ainda tenho cabeça para mascarar nos sonhos. Ontem sonhei com uma gigante capaz de engolir a paz, encapuçada, sonhei que me engoliu os membros quando abri a porta de um carro, que vi o meu pai a ser despedaçado enquanto as rodas voavam. Não me importo desde que acorde aos gritos durante a noite a chamar pelo pai que já não tenho. Desde que chore, grite tudo. Se tivesse braços dava-lhes com a participação cívica e política, que nem sei o que isso é, mas deve ser inacessível, das que se seguram com as mãos, na ponta de um machado. Mas não tenho, nem me importo porque já nada me importa, mesmo que por mim chorem e me amarrem contra o peito e me enfeitem com ramos de flores. Se tivesse braços arrancava-lhes os capuchos pelas orelhas e ensopava-os de vómito, mas já não tenho, nem me importo, desde que chore, desde que morda panos muito espessos até à asfixia. Não me importo. A propósito o meu nome é Cármen. Pelo menos era, antes de morrer.
Foto: El pais
15.2.06
Dinamarca
Descolar o galego, aterrar no catalão. Vou inventar mais sete mares para arrancar a timidez do chão. Imaginando com neve oral, dá-se com a língua nos dentes plantando um jardim em francês, adubo de Barcelona, segunda mão em tesoura castelhana, três ou quatro aviões na diagonal leste, larga semente, espalha sonhos suados de estrume chinês, uma pá com terra, dois regos de luz, sotaque lusitano avaliando a evolução da empreitada, 'esta merda não cresce?', 'puta de neve, por que não é vegetal?', um regador com Sagres. conta quilómetros. Ignorando os sabres do dia, o preço de cada bala, brotarão árvores verdes?Dinamarca foi escrito em Andorra pensando em Portugal.
11.12.05
Trova do Vento que Passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre
(É oficial e irreversível: estou/sou/ando alegre)
6.10.05
a vulnerabilidade
não sei com que direito correm, de chinelo calejado pelo pé, mala amarrada ao ombro. Num passo de cada vez, várias vezes apressado. Num salto de cada vez, várias vezes até cair. Olhar de medo que morde, de mimo. Seria assim o nosso abanar de cauda, se a tivéssemos - um olhar com dentes afiados, deslocados da boca para o frio. Cegos de braços quentes, do movimento sorridente de coçar o corpo, ajeitar a blusa, enrolar o cabelo. Círculos como se quisessem voar. Garrafas de perfume abertas em prateleiras de sonho.
o cabelo cresce com sombra, esvoaça o chão das patas com pormenores de futuro. Sóis circulares - incêndios apertados - asfixias de amanhãs; infecções.
(uma vez pus um ponto final no dia e começou a chover)
quantas bocas neste dia dos que gritam?
9.8.05
Roupa suja pelo pó, pelo verniz, por todos os inflamáveis que partilham o ar. Não é para respirar. Usa a máscara para que não morras já. Móveis para trás e para a frente. Aqui trabalha-se, há mesmo quem trabalhe todo o ano e é bom que se saiba. Quem chegue ao fim do dia e se contente com um chuveiro. Com um cigarro fumado À pressa. Livros ler? E o tempo para cozinhar, quem o inventava. Depois há a louça, a roupa, oferecer uma mão carinhosa (e só se tem duas!) a cada filho. Amo-vos pai e mãe. Amo-vos. Batalham tanto por mim. E sabe-vos tão bem aquele meio beijo que vos dou por semana.
9.7.05
LONDRES
tenho cinco medos em cada mão
mas não sou de cá.
Sou daquela ceara de trigo,
de profundo silvado
ou matagal.
Sou do frio dos Invernos,
da caverna submersa pela luz
dos lagos eternos de Pompeia.
Sou dos bicos dos melros,
da asa partida da andorinha que falhou o voo,
e dos muros de Trancoso que não a deixaram passar.
Sou do tempo dos beijinhos,
da pólvora como lixo,
dos sete dias excelsos de masturbação.
Das águas engolidas pelos peixes,
por que mão,
por que não?
Sou do santuário onde se rezam páginas em branco
e se agradece aos sonhos do irmão.
Sou um fascista do Islão,
quero a morte,
não o pão.
Sou de lá.
Tenho cinco bombas em cada dedo,
porque não sou de cá.
27.5.05
Lágrima-dor.
Os pobres de Pequim
Mãe e filho dormem nas ruas de Pequim. A poucos dias da celebração do Dia Mundial da Criança, as autoridades chinesas estimam que muitos milhões de crianças chinesas continuam a viver na pobreza.
(Foto: Michael Reynolds/EPA)
Humanidade. Mais uma vez aqui.
16.5.05
Borboletas para colorir cinzentos
Tudo por causa disto. Um encantado(r) Concurso de Borboletas. Hei-de ajudar o meu sobrinho a ganhar, hei-de ajudá-lo a voar.
Queria.
2.5.05
Primeiro de Maio para reflectir
Dia do trabalhador, em Portugal: abençoadamente com os hipermercados fechados e com mineiros no sofá a verem os pontapés na bola.
Dia do trabalhador, pelo mundo, neste texto e imagem recortados do Público:
"Dia do Trabalhador no Paquistão
Um idoso transporta bidões de plástico nas ruas de Peshawar como forma de ganhar a vida, num dia em que o mundo celebra o Dia Internacional do Trabalhador. Manifestações por todo o Paquistão pedem melhores salários e condições para os trabalhadores."
25.4.05
25 de Abril, Sempre!
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
(porque sempre-sempre-sempre-sempre!!! é para nunca esquecer)
4.11.04
Sobre George W
Era um elefante e um burro. O Eminem (esse exemplo de consciência social) estava contra tudo mas queria votar, o Kerry não estava certo de querer ganhar. O seu grande trunfo era, precisamente, o facto de não ser o Bush. Mas de nada lhe valeu. O Burro não foi capaz de dar o coice.
Temos vencedor. É o fim. Os Homens estão doentes, crescem demasiado, batem com a cabeça no tecto, ficam com galos de corrupção e mais vampírica sede de poder.
Aprisionaram-nos, é o fim.
11.3.04
Mordedela e queimadela. Ura.
Viva a puta da revolução e as consequentes subsequências das novas repúblicas indepentes. Quantos mortos precisam de contar ainda? Quantos pais e mães que não regressam a casa faltam ainda?
tudo parece estar certo. porque há menos inocentes nos transportes públicos de Madrid.
Asfixia, asfixia, asfixia.
nunca saberei viver, aqui.
... killed in train blasts
quem se importa?
judicial sources say 186 people killed
blames Eta, Blames ETA, Aznar blames Eta.
...
porque o amor, e o amor,
porque ambos,
porque eles,
porque o amor?,
porque.
em 1489 também era mau, mas com menos carris.
alguém se importa?
killed in train blasts killed in train blasts killed in train blasts killed in train blasts
killed in train blasts
...
...
..
...
.....
......
......
.......
é assim
a humanidade
?
.....
25.11.03
Greve de Zelo na Universidade do Minho
Zeloso: que tem zelo; que mostra zelo.
Zelote: Que simula ter zelo.
e agora um poema com rima total:
Que não voltem a fazer confusão,
porque os dicionáris têm sempre razão,
e obrigado pela atenção.