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19.2.10

Quarto Crescente



Tantos cavalos, tantos Camões, não é?
um homem é um poema que passa a correr
mas há-de voltar, não é?
a memória curta de um gladiador, dizes tu.
quatro pernas robustas: o poema.
o cavalo que corre na passada
e o homem que não o alcança.
o poema: dança.

7.2.10

Diário?

Isto é o passado.
A culpa de um homem, em caso de dúvida, começa aqui.
Quando se sente só, se acha perdido, é no passado que se deita,
aqui, onde a mãe o viu crescer com o nó de mãe no peito,
onde disse o primeiro palavrão com o pânico da desordem,
onde se engasgou para sempre cravando a estaca do seu esconderijo definitivo.

3.9.09

Bicho, sonho, fúria

Uma cabeça de nuvem, cimento, a árvore que aponta ambição para o céu, constante aproximação, assim é tão fácil sonhar, assim um homem não tropeça nos seus monstros de estimação, certo dia contaram-me uma estória assim.

Ouve, há pessoas más e pessoas boas, pessoas grandes e pessoas pequenas, pessoas que ganham a vida de madrugada e que são roubadas durante o dia, há muita gente na fila que não sabe se isto tem fim ou para que serve, vê, aqui está um monte de papel usado, cada um deles eterniza informações de tremenda importância, até que os engulam as baratas. Os três filhos de Marília, idade, profissão, nome completo, é um exemplo, estão todos cá.

É o conhecimento, meu caro, se o queimam ele volta a atacar sob a forma de cheiro a bicho pestilento. Se o ameaçam com a ignorância, o bicho primeiro mata e o bicho, depois, morre.

Diz, um filho por cada raíz, se te roubam a verdade e a atiram para longe, não te rales, o mar, que tudo engole e tudo devolve, trá-la de volta. No final de cada página há sempre uma surpresa, um país a renascer numa janela de comboio. É a nação ou a carruagem que avança furiosa? O sonho que tropeça ou o homem, trapalhão, morto pelo bicho da página?


Pintura: Anthony Green

6.6.07

















É de um mau gosto extremo não ser feliz em Junho.



fotografia da autoria de Fernando Machado

7.4.07

Bilhete válido para a carruagem número 531















É uma solução digna como outra qualquer. Quando se sente triste, concentra-se na felicidade das pessoas à sua volta. Espera um comboio, o seu momento reduz-se à espera de um comboio. É uma situação com muitas pessoas à volta.

Concentra-se, quando consegue.

Óculos de sol rasgam uma cara a sorrir, cruza a perna como quem adormece numa praia de espuma. Uma rosa, duas gerberas, dentro de momentos vai passar uma carruagem qualquer, é só uma máquina com ar bélico, aspecto de quem vai descarrilar a qualquer momento e bater em alguém, porque inventam frentes com faróis zangados; certo dia estava a brincar, canta a criança, eu caí e fiz um arranhão no nariz… na peeernnnaaaa.

Concentra-se, às vezes consegue.

Dentro de momentos. Deu entrada na linha um. E, porque deu entrada, ele entrou também. Um Magalhães de chapéu azul, nome escrito com letra à máquina no leitor de faixas, ouve música. Saco com letras chinesas, entre pernas abertas e chinesas de um chinês. No tecto, um espelho escuro reflecte pedaços de uma mulher a ler o jornal, um saco azul quase atropela uma cabeça, chuva estranha a do interior, um rio na margem direita da linha, árvores namoram o rio, uma ponte que me faz imaginar-te sempre que passo por aqui, o teu cais com o qual tanto sonhei, as campainhas que nunca param, no reflexo outra mulher com a mão suspensa nas preocupações da cabeça.

Concentra-se mas às vezes não consegue.

Uma mala de mulher com pele de animal. Parece que ainda lhe vejo as patas, ouço-lhe os gritos, quem o desventrou ainda não enriqueceu. Menina de quatro anos, tranças na coroa do cabelo, loura, vai adormecer no colo do pai. Dentro de momentos vai dar entrada nos braços do pai número um a carruagem oriunda da paz total de menina pequenina com destino ao sono. Efectua paragem nas pontes, nas nuvens capitais de distrito do céu e em todos os sonhos apeadeiros do tempo.

É uma carruagem com muitas pessoas, mas todas diferentes – como pode ele descobrir o denominador comum da felicidade? As mais felizes, se calhar, já adormeceram, o jornal é uma enciclopédia de tragédias, a música do Magalhães é adornada pelas perguntas da avó. Está ali um rapaz, nove bancos à frente, que já tinha visto no metro. Era mais feliz quando tinha a idade e o penteado dele. É para ele que escrevo, para mim quando era como ele. A menina da guitarra não mais foi vista, sentou-se numa carruagem diferente, ela que faz parte deste texto desde o início, mas ninguém o sabia ainda. Comprou bilhete ao mesmo tempo que eu, afinou a guitarra a meu lado, guardou-a depois.

O texto era mais bonito se ele não estivesse triste, ou conseguisse concentrar-se na solução digna. A menina adormeceu, as tranças já podem ser mesmo coroas se ela sonhar com isso. Concentração de fumadores junto à entrada do bar, inalação em movimento. A calçada reflectida no espelho. Azulejos com a palavra retrete posam para a máquina fotográfica de quatro adolescentes histéricas. Museu de carruagens antigas – paga-se para andar? É só um homem, vai perder a paciência e a concentração com coisas banais: ervas, casas solitárias, fumo a sair da chaminé, barulho de copos plástico a serem partidos, joelhos, saias acima dos joelhos, dores de cabeça, ligeira vontade de dormir. Que guardará a avó no saco? Por que continuam verdes as cortinas? Quanto teria que pagar o homem rico para viajar sozinho na carruagem? Para que servem as perguntas?

Quando se concentra nas pessoas à sua volta, fica mais triste. Desiste.

25.2.07

Lisboa outra vez





















De cada vez que alguém agarra uma caneta para escrever, é o pânico geral.
Como se a escrita fosse o laboratório de onde emergirá a próxima arma de destruição em massa.
Enquanto algumas dezenas de lisboetas tiram seus dias para falarem sozinhos na pesada linha do metro, eu espalharei palavras de rorret (terror ao contrário), pelos arredores deste ascensor. Enquanto os homens falam, ou dormem, ou olham o vazio, ou consentem a solidão, concretizo minhas aspirações de rorretista num papel grande, em janela próxima deste brinquedo que desce e ascende.
Às vezes dá-me a sensação que se um novo Mozart surgisse com composições de génio, em plena carruagem, ninguém se apercebia. Mas a ideia para este texto era só mesmo a de sorrir e dizer que vou viver na Bica. Em busca da chave de mudar o mundo, verde, com sonhos de Tejo.

13.11.06

Não trouxe nada, esta cadeira já aqui estava, a caneta encontrei no chão e isto branco nem sei se é papel. Dom Texto Sem Mensagem é também sem truques ou intenção. Aceita o nome que lhe dermos e este fim antecipado de quem nem sabe porque veio.

11.10.06

Confissões de um Janeiro em Braga

Já não aguento esta cidade. Já me fogem as palavras de aço e é tão infantil a ilusão de as agarrar. Como lego, faltam peças e rodas a estes sempre-mesmos-edifícios.
São demasiados rostos de artifício suspensos nas vagas de ar. Sei que não aguento. Vejo eu, uma criança desesperada (três, quatro anos de desespero) a tentar chamar a atenção da mãe.
A mãe, com sotaque brasileiro, não interessa o sotaque, ignora a criança e discute com um homem que não é pai, um olhar daqueles não pode ser pai. O menino brinca, luta, levanta a voz com deliciosos tiques infantis, os adultos discutem sem nunca se olharem, a criança mexe, abana-se, tosse, brinca. Cresce com os olhos no vestido da senhora que passa.

10.5.06

Áustria




















O Zé é daquelas pessoas fáceis de admirar. Uma janela de honestidade. Zé, ou então José Bento Amaro, irreverente jornalista, insubstituível camarada de redacção.
Não me deixou sair sem enrolar o braço amigo de quem sabe por cima do meu ombro. Sem sussurrar o segredo mais Público de um grande profissional:

Mantém-te fiel aos teus princípios
e àquilo que achas correcto.

Depois foi-se, enigmático, com o cigarro por acender na boca.
E amanhã voo, com o instante a entoar sentido na minha cabeça.

Sim.


* Gartenweg,
Gustav Klimt

4.11.05

Falho sempre visitas à lua

Pingos de chuva contados a cigarro. É como andar de carro, amar - é preciso travar. É como seguir caminhos: vais no teu, esperança falsa, falha-me a mão. É como ficar num buraco com dus pedras de gelo no cérebro.
Acendo outro. Chove. Apetece mastigar o tempo, triturá-lo com uma matilha de motosserras gramaticais, uma febre de vocábulos enraivecidos. É agressiva a viagem dos que ficam, dá frio, faz não querer ninguém. A robustez da teia. Não saio daqui sem uma pequena morte, renascimento de nicotina, raíz rompendo nas trevas, manchas podres nas folhas, nos braços, no corpo, pontos negros nos olhos. Não há lua nem lado nenhum para a imobilidade, depressão de árvore, noites em negro enleadas com fitinhas de sangue, como prendas.
Faz não querer, faz um homem com lágrimas. Estradas sem mim, miragens inaladas - nem lua, nem luz, nem lume. Falta a mão, apetece chover - febre de um manco - sobra em cinzas. É como insistência por afogamento.
Não há visitas no buraco.

15.9.05

Regresso; não-regresso

Não sei se árvore, não sei se sal, não sei se fumo. Nas ondas do abraço te trepo - a tua saúde pontiaguda, ou janela azul, ou lezíria mental.
Não sonho se fico, não sonho se livro-fechado, não finjo se sonho. É a verdade.
E, no entanto, fumega.
Eu era total. Bebia dos barcos que te atravessavam os olhos; unicórnios com velas, o vento, círculos de fogo; não dormia. Não sei se ramos estalavam antes de me fintares pelas flores do sono. Árvore seca, talvez, no vermelho da terra, do vermelho sem estrada. Do trilho de um amor que não digo porque não é da natureza mofa deste dardo sem alvo; a palavra subterrânea; sem aquedutos de luz.
Não sem sal, não sei se vale o que te sonho, não sei explicar e tal. Eras distante, mas vital. Caminhas descalça como se já não houvesse mais vinho por pisar; tanto bebido; bebemos tudo? Lembras-te como engolíamos o azul para que não nos fugissem as nuvens?
E, no entanto, queima.
Os degraus são demasiado duros para dobrar, ficam mais pesados por cada lata que cai; pedra impermeável com buracos de lágrima.
Não sei se luto, não sei se branco de desistir. Bala de pânico, canudo apontado à testa, revolver faminto - sistemático-nulo.

9.8.05

Esta é uma profissão filha da puta!
Roupa suja pelo pó, pelo verniz, por todos os inflamáveis que partilham o ar. Não é para respirar. Usa a máscara para que não morras já. Móveis para trás e para a frente. Aqui trabalha-se, há mesmo quem trabalhe todo o ano e é bom que se saiba. Quem chegue ao fim do dia e se contente com um chuveiro. Com um cigarro fumado À pressa. Livros ler? E o tempo para cozinhar, quem o inventava. Depois há a louça, a roupa, oferecer uma mão carinhosa (e só se tem duas!) a cada filho. Amo-vos pai e mãe. Amo-vos. Batalham tanto por mim. E sabe-vos tão bem aquele meio beijo que vos dou por semana.

16.6.05

Tenho o teu retrato na mão.
Pé a pé choro os meninos do mundo
- de olhos no chão - passos tristes.
Tenho um retrato numa mão
E a lágrima de alguém na outra.

Quero ser como aquela máquina que vende o troco
a quem lhe comprar a fome.

Pé ante pé,
Quero ser um conto infantil.
Leve, azul de mar, barco flutuante.
Sem moralismos, sem noites violentas, sem a simplicidade hipócrita da luz, sem costas voltadas, sem reis e rainhas, sem príncipes bonitos, sem princesas perfeitas, sem espadas mágicas (como se alguma arma pudesse estar submersa no encantamento), sem bocas de hidrogénio.

Quero o silêncio de uma criança amada.
Ser conto infantil numa alma
Que semeia amor nas outras.

10.6.05

Não gosto que me digam "o violino de trás está mal, faltam-lhe duas notas" quando estou apaixonado por uma melodia.

4.6.05

Nunca falho uma visita à Lua



Os dias choram e cada um deles é mais prateado que todos os outros. O arco-íris do tempo une todas as lágrimas pelo cordão umbilical - vêm da liquidez dos sonhos, vão dar em mar. São uma família flutuante que avança por espasmos, à superfície. De que lhes servem os corpos se a alma não está completa?
O homem-fuga é um quadrado com rodas sempre a chocar contra toda a gente nas dentuças dos passeios. De que lhe serve o corpo? Por que se servem dele? Acredito que use as mãos mal se esqueça não ser nuvem. Quer jorrar vida, fazer chover sobre os muros a límpida rede de cores. Roubar à pangeia do choro o sal das lágrimas audazes. Ser homem arqueado em direcção à lua.

27.5.05

Se já nem os muitos dígitos dos números conseguem incomodar a ausência-de-alma que desfolha o jornal, então que uma dor personalizada arrepie a percentagem de humanidade que lhes sobra. Não basta o "coitadinhos", ajudem-me a encontrar o que basta.
Lágrima-dor.



Os pobres de Pequim
Mãe e filho dormem nas ruas de Pequim. A poucos dias da celebração do Dia Mundial da Criança, as autoridades chinesas estimam que muitos milhões de crianças chinesas continuam a viver na pobreza.
(Foto: Michael Reynolds/EPA)

Humanidade. Mais uma vez aqui.

24.5.05

Feliz por te voltar a ver, Tom.



Avisa-se toda a tripulação que me encontro, depois da próxima vírgula,
completamente fora-de-serviço para a vida adulta. Complementa-se o comunicado, adicionando-se-lhe a confirmada informação: extenderei a minha vontade de criança por mais algumas árvores de vida e apresentar-me-ei à sociedade "sempre descalço". Como tu, Tom Sawyer.
Como tu.

16.5.05

Borboletas para colorir cinzentos

Há, de longe a longe, pequenos bater de asas que me fazem sentir uma pontinha de orgulho na minha terra. Neste post sou bairrista. Sou de Paredes.
Tudo por causa disto. Um encantado(r) Concurso de Borboletas. Hei-de ajudar o meu sobrinho a ganhar, hei-de ajudá-lo a voar.
Queria.

14.5.05

Amigo nocturno



Ele foi, em tempos, apenas um menino mais velho que eu encontrava sempre de copo na mão e brilho ofuscante no olhar. Não poucas noites, a única pessoa em quem reconhecia a rara faculdade de saber sorrir-com-alma-inteira, estar atento aos que passam, acenar com pureza. E nesta noite, às muitas horas da manhã, aconteceu uma conversa encantada que, à minha maneira, resumo assim:
"preferes vinho ou cerveja?"
Prefiro que me enchas a tela com palavras, com os teus poemas preferidos. Tu que agora, para além de seres isto comigo, és aquele que lança com ansiedade a luz o teu poema preferido para o meio da aparente escuridão de uma conversa nocturna. Este, de João Saraiva:

Passo a passo

"Sou alta - diz a Amizade
Sou profundo - diz o Amor
E lembram bem, na verdade
Montanha e Vale ao sol-pôr
E antes que o Sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o Vale
E ainda há sol na Montanha!"


És aquele que me obriga a derreter nas atordoadas palavras "muito muito muito muito bonito". És medo da solidão, do fim da lua e dos sonhos. E se eles não voltam, e se a lua se deixa aprisionar pelo cronómetro da dor? És aquele que procura e dá ombro. És o que diz "Foda-se! Ainda aqui estou! Venham agora...". Há maduro tinto alentejano para as solidões. És o que o oferece. Curas. Um poeta à direita, afinal também gosto de poetas à direita. És, mais uma vez, um segundo poema fulgurante que rasga com flores a conversa. De Pedro Homem de Mello, este:

Felicidade

Ó infinita consolação
De haver chorado
Algumas vezes!


Ele é, agora, o "eterno apaixonado por poesia". Já o sei. Ele é agora em mim qualquer coisa muito bela muito mais próxima da alma que realmente é. Ele alimenta as conversas com poemas e sonhos de abraços. Eu termino este texto (para ele) com promessas de presença e com mais um fantástico poema que me ofereceu. Há noites assim. Que não deviam acabar. Que deviam ser como na tela de Francisco Duarte Mangas:

"Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes

a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores."


Amanhã há mais sonhos por comer. E mais tempo para amar. Obrigado, amigo. Prefiro os poemas que me deixas. E o vinho dos amanhãs.

13.5.05

Chove



Gosto da chuva como quem acaricia um cão com pulgas no meio da rua. Abro os braços e vem-chuva-matar-com-o-vírus-do-prazer. Grito para os céus.
Mas, porque gosto muito de animaizinhos, queria mesmo era que chovessem gatos peludos lá do cimo do monte, por cima das nuvens, onde só habitam os reis das chuvas. E as rainhas, responsáveis por derrames de arco-íris.
Gosto das chuvas de fria e cândida gota.

ilustração: "Mulheres na chuva" de Alice Candeias Ambrosini