30.3.10

aço, fome, cavalo, sono



Não é assim tão bom,
não é assim tão mau
- tem momentos, espasmos,
acumula erros
cristais
ilusões de aço
flores em chamas.

Antes do romance, a honestidade:
não prestas, poeta.
És pó, fumegas, tosses mas não dizes,
perdes o teu tempo.

Enquanto pestanejam o bem e o mal,
mastigas o futuro em círculos
e queimas a artéria esgotada.

Antes do romance, a matemática:

1. Doeu. O nariz dói quando está irritado. Quando dói, as sobrancelhas juntam-se a pele estica, quando ai. Não gostas que suspeitem do teu ai.

2. tenho fome. tenho comida. não como.

3. As minhas botas pintam as meias de castanho. Não cheiram mal.

4. Tenho uma guitarra. Tenho silêncio nas duas mãos. Não toco.

Não é assim tão longe,
não estás assim tão perto.
por muitos sonhos que saltes
como um cavalo
na flor brotada.

8.3.10

A isenção do homem-livro























Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.

É uma fórmula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela janela nem atravessa pontes.
E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.

A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma tirania difícil de inalar.

Dão-lhe a poesia e ele escreve tempestades.

27.2.10

A zaragata dos Livros ou O uivo de uma biblioteca em construção

















Gil Vicente namora com Jorge Amado,
eles agora até já se casam!,
A Paixão de Almeida Faria é uma anedota para Agostinho da Silva,
Mia Couto ensanduichado por uma Gramática de Português para estrangeiros,
a língua portuguesa é muito traiçoeira,
que o diga Enrique Vila-Matas, mesmo Longe de Veracruz,
que tudo vê amarelo, onde tudo é Aparição,
mesmo que Vergílio Ferreira se distraia com anões.
Harold Pinter, alguma madeira e uma Polaroid para Saramago.

Cecília Meireles muito acima de Sarah Kane,
eles agora até se amam!,
vão à pesca com Raul Brandão e morrem em palco,
deseja o leitor - Bernardo Santareno e Anunciação.

E os Antónios, Franco Alexandre?
E os Antónios, Ramos Rosa?
E os Antónios, Ferlinghetti?
Que os Antónios - meu Lobo Antunes - sejam todos Herbertos,
absolutos, laranjas, peixes, amador e coisa amada,
martelem, martelem, martelem!,
eles agora até se martelam!,
num século ou num segundo
desde que em Ofíicio Cantante.

22.2.10

O nosso primeiro Rilke


(...)
«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade.»
(...)

Rainer Maria Rilke, Primeira Elegia de Duíno

19.2.10

Quarto Crescente



Tantos cavalos, tantos Camões, não é?
um homem é um poema que passa a correr
mas há-de voltar, não é?
a memória curta de um gladiador, dizes tu.
quatro pernas robustas: o poema.
o cavalo que corre na passada
e o homem que não o alcança.
o poema: dança.

Metamorfose ambulante

Novo hino dos meus dias.

«Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu vou lhe dizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo»

Raul Seixas | Raul Seixas (música mais limpinha)

7.2.10

Diário?

Isto é o passado.
A culpa de um homem, em caso de dúvida, começa aqui.
Quando se sente só, se acha perdido, é no passado que se deita,
aqui, onde a mãe o viu crescer com o nó de mãe no peito,
onde disse o primeiro palavrão com o pânico da desordem,
onde se engasgou para sempre cravando a estaca do seu esconderijo definitivo.

12.1.10

não dou.

é claro que isso é um homem e é óbvio que serve para alguma coisa. é isso que me dizem: ela está pesada, ainda por cima, e não há estrutura óssea que a aguente. é isso: a vida, uma vida de comboio, a brincar às viagens, distâncias, ao silêncio dos percursos.

é claro que um homem se arrisca a morrer num comboio, não conhece os obstáculos, não sabe a que velocidade segue a carruagem e o local exacto onde está move-se a uma velocidade impossível para qualquer geógrafo. é: o homem que nunca está no mesmo local, não está em local algum. sei que finjo. este homem não me interessa particularmente, uso-o para ignorar os meus próprios medos.

é claro que é um homem e é óbvio que os meus medos, hoje, crescem em movimento. é isso que lhe dizem: homem, esgotas-te no teu nome de miragem – foges-te. é isso: se o amor nos esgana, não há limite para a nossa fúria.

o homem adormece na carruagem com um animal morto. é: por que choras tu, pirilampo, se foste condenado à luz. é claro que serve para alguma coisa, inútil seria escrevê-lo. é isso que me diz: fazes-me sentir uma flor, fazes-me sentir uma vassoura ou uma flor com espinhos atravessados na garganta. sentes-me? sinto o meu corpo como um país estrangeiro, diz o homem com uma guerra em marcha, dentro e fora. é isso que eu digo: todos os militares escondem a sua meninice dentro da cabeça do homem.

é isso: há homens que servem para qualquer coisa. é: e outros para os destruir.

12.11.09

Das belezas do mundo

Notícias da Sofia, da mamã e da tartaruga

«Um dia uma menina chamada Sofia completou cinco anos. E nesse mesmo dia uma fada madrinha, de seu nome Paula, ofereceu à menina uma tartaruga, verde, verdinha cor dos prados no despontar da primavera.

A essa tartaruga, que tinha o hábito de levantar-se do pequeno aquário em forma de coração, decorado com uma palmeira à sua medida, Sofia chamou “Fifi”.

Apenas um dia depois da tartaruga chegar à casa da menina e da mãe, não ainda recuperada do jet leg que foi o transtorno do transporte de uma loja de animais até à dita casa, envolta em papel de embrulho e dentro de um caixote, a menina insistiu em levar a tartaruga a passear até à casa do pai.

No reboliço que foi a viagem – Cartaxo – Azambuja – a tartaruga sofreu de amuos, traumas, medos, enjoos e virou-se de carapaça ao contrário no fundo do aquário assustando a menina que prometeu não mais levar a tartaruga em embalos de viagens “todo o terreno”.

A tartaruga está, desde então e para sempre, na imagem da menina. E mesmo num dia mais triste quando a mãe, numa crise existencial, pediu à menina desculpas pelo transtorno que é ter a menina que movimentar-se entre duas casas, que no fundo são suas, respondeu, depois de pensar um bocadinho:

“Não faz mal. Sabes, eu sou uma criança. Não sou uma tartaruga”. E abraçaram-se e adormeceram juntas. Mas sem a tartaruga...»

Ana Santiago, do Jardim de Chuva

29.9.09

Poema erjnfjdnfjdfndjfdjfdf.

São muitos os bancos vazios.
Eu não quero adormecer em cima daquele banco,
Cada seta atravessada na passividade do homem,
Cada decisão errada, essa procura da casa através de um poço,
Uma lupa para ampliar o sono.

Frustrações ao alto,
Coração nos pés,
Fé nos meus.

Se somos um labirinto, haveremos de ter saída.
Um flamingo a frio, se necessário,
É a primeira vida que me aquece.
Toda a impunidade do mundo caia sobre erjnfjdnfjdfndjfdjfdf.

15.9.09

Metro-a-Metro

Abro uma página à sorte para escrever o teu nome.
Mas um movimento de braços, bancos vazios, publicidade pendurada no tecto
- circula muito ar aqui.
Está frio e está calor,
adoece-se bem aqui.

Quando o nome que escrevi te chegou por carta,
não o abriste. Alguém diz:
palavras que anulam a vida num envelope fechado.
São nomes fechados, mesmo os mais belos, que se extinguem
por ignorância do mundo.

No último reduto do mundo, sonha um homem,
anestesiado e sedento de imaginação.
Amaldiçoado pelo gelo, em chamas no interior das raízes,
é uma flor.

São mais as gravatas que os homens no tornado da Avenida Nova.
E por maior que seja o santo, há sempre uma árvore intacta.