18.2.11

«Semear, Resistir, Colher» (2011) | Livro gratuito | Edição infinita

O plantador oferece este pedaço de letra. O meu primeiro livro em .pdf. Explicações aqui seguem, retiradas da "nota de autor":

«Bater palmas, sacudir as pernas com as mãos, compreender a agonia de uma gaivota de inverno, afastar qualquer responsabilidade sobre os destinos do homem, da cidade ou da palavra.
Textos assim, como gaivotas enjauladas, escritos nas correrias do metro, no ócio do comboio, no aperto do autocarro ou na agonia alheia do avião. O ano dois zero um zero registado a pulso, entre esperas e chegadas, sem critério, conceito, edição ou revisão. Essencialmente é isso o que há para oferecer.

E não há que hesitar: um homem fica tão pesado que deve sacudir as suas palavras, erguer a cabeça, e continuar a caminhar.»


Semear, Resistir, Colher


Também disponível a versão física através de encomenda no site Lulu.com
(preço: 3 euros mais portes de envio*)
ou:
encomenda directa aqui ao autor [idiotequesw(at)gmail(ponto)com]
(por 4 euros):
(a entrega poderá demorar o seu tempo,
visto que no acumular de encomendas
é que está:
o ganho. nunca em euros).

Site Oficial "Semear, Resistir, Colher" | Facebook "Semear, Resistir, Colher"

13.1.11

O velho e o gato




As cidades crescem no outro lado do rio,
e aqui
um homem embala o gato de colo
enquanto fuma o último cigarro do dia.



Está completamente sozinho, ouve os passos da noite, que - sabe-se - vai a todo o lado, a um sítio de cada vez. sozinho não: a cafeteira ferve e há algumas memórias comprometedoras, foi militar, aprendeu a matar e a manter-se vivo apesar do mundo e da ordem. Em tempos, soube gritar com os mais frágeis, hoje é um homem só, duas pernas para o sono de um gato.

Não sonha, espera de olhos fechados a passagem das horas, crises e contra-crises, alguns golos do Benfica, uma ida ocasional à urna de votos para exibir a sua melhor água-de-colónia, aroma oceânico, natal de 1964, paquete além-mar. Do outro lado do rio, as luzes das novas cidades continuam a ganhar terreno à escuridão e, a cada novo dia, nasce mais um preto. Quase não há casas de fados, lamenta enquanto coça a anca, Este país caminha gloriosamente para a anarquia, será preciso pegar nas armas e voltar a matar, pena que nessa hora já cá não esteja para ver, avaliar, disparar. Da última vez que sonhou, abril de 78, viu cristo pregado numa cruz de alho a ser comido por sete coelhos voadores. Fugiu para a igreja que ainda estava fechada, esperou. Rezou 16 avé-marias, depois confessou-se e decidiu nunca mais dormir.

Fecha os olhos depois do gato, a ordem é religiosa, sente o tempo a passar. O ruído dos tacões da noite a passar garante-lhe que não corre qualquer risco de adormecer. E, quando, e, se, o corpo começa a ceder, toma banho, perfuma-se, apanha o barco para a outra margem e, de arma em riste, analisa a tiro as especificidades dos bairros problemáticos da periferia.

4.1.11

não durmo.



São seis da manhã e não consigo dormir.
Lá fora, vultos de homens, serpentes da madrugada,
ajeitam o nevoeiro e expõem no chão os seus objectos mais íntimos.

Lisboa lá fora, a vender-se às fatias por um pedaço de pão.
São seis da manhã e ainda não há fregueses. O dia começa no copo de martini
e na sandes de morcela. Começa no escuro. E não os vejo com medo.

São seis e catorze da manhã e faz frio por oposição. Hoje já não durmo.
O jardim ainda está fechado aos peões mas os homens já lhes preparam armadilhas.
A intimidade: colecções de cromos do Mundial de 86, Diamantino, Valdano, Tigana, Rummenigge, filmes em VHS, usados, pornográficos mas-não-só, livros lidos e não lidos, livros que não lembra ao diabo ler, colecções de chávenas de café, carcaças de computadores portáteis, a chupeta do meu mais novo...

Manhã escorrega no rasto de caracol. Já que não dormes ao menos que se faça luz. Manhã demorada. Ainda seis e trinta e um e hei-de ter muito sono às dez.
Lá fora, o barco para o Barreiro já fez três travessias do Tejo. Visto daqui é uma luz vermelha com muitas pessoas por dentro. Carros em pânico procuram os últimos lugares de estacionamento e duas carrinhas a abarrotar vomitam caixas de sapatos.

São seis e quarenta e oito da manhã num quarto andar da Feira da Ladra.
Hoje vendo a minha alma ao diabo para, às dez, lhe comprar uma pastilha de lucidez.
Todo o dia de hoje lá fora, já com tiques de aldrabão.

30.11.10

Baú(s)


Um: Brotou engasgada, com base mas sem pólen. Tu, outra vez. Brotou engasgada a palavra tosse. Este Estado proletário começa a extinguir-se imediatamente após o seu triunfo, pois numa sociedade sem antagonismos o Estado é desnecessário e impossível.
Brotou: o teatro sempre foi um outro nome para a liberdade, a actividade mais próxima da utopia, dos prados amarelados por tantas flores. Engasgada: Encontro-me num restaurante em Espinho à hora do almoço.
Dois:
Curioso falar em homens agora que vou escrever sobre ursos: Peguei num mercado completamente rudimentar. Maneável, manuseável, não. Sorri, limita-te ao simétrico.

Curioso falar: há-de haver sempre uma diferença entre submeter uma multidão e dirigir uma sociedade. Ursos: 1. queixa-se durante noventa páginas de correr risco de vida; 2. aparentemente seguro, quer passar ao lado da História. Morre no fim.
Três: Não é do relógio quando está escuro. La Danza II vs Diabo no corpo. Violino vs Violino. Áreas de segurança, cheiro a borracha queimada e depois chamas. E Matisse não estava lá para registar! A arte escura também dá trabalho mesmo que as histórias dos figurantes fiquem por contar.
Do relógio: E ela disse: Às vezes só tenho força para aguentar certas coisas porque conheço o teu abraço.

12.11.10

Recado para amanhã:

que as nuvens se percam na tua cabeça e tu, com a cabeça no ar, aprendas a flutuar como cada uma delas.

3.11.10

A corunhesa




cidades onde o homem procura desesperadamente o mar, outras onde o mar, aos olhos do homem, inunda conscientemente a cidade. esta é um mar com casas dentro, o homem contornado pela prata da agitação das ondas e pelo sal de muitos séculos. uma urbanidade fingida, aqui somos todos pescadores, aqui todos lançam a rede e confiam no que há-de vir, aqui a luz, as aves, o tempo, flutuam ao sabor das marés.

impossível não sentir a costa, qual delas?, não dar de frente com uma gaivota e perguntar-lhe como és capaz de encontrar terra?. aqui não cheira a mar, só cheira a mar! fácil ser sorriso e andar a pé, aqui, caminhar de pé. cidade recortada por mão trémula na cegueira do homem-peixe. aqui somos todos pescadores, aqui não há interior humano que não se sobressalte com a força das marés. a luz, as aves, o tempo: como fomos capazes de fazer casa em alto mar?

22.9.10

«Le cadavre exquis boira du nouveau vin»





Está calor mas cheira a terra
molhada.
Vais levar para o mar o colchão
de encher. Abanar depois de cheio e furar
tudo,
o gato maltês nasceu num berço
anónimo do antónimo de António
Antunes,
vivo com todo o sangue de
Saramago, mago que sara feridas
literárias,
parcialmente consentidas pelo
medo do lobo que espreita quando visto
vermelho
de Abril, vermelho de janela
inventada de cor e cores que cegam
o branco,
neutro como esta mão sem
palma contígua à continuidade de
Herberto, o grande coração aberto.

Eu e Ela, em Lisboa, Madrid ou Salamanca.

* Imagem: Cadáver esquisito de Fernando José Francisco e Cruzeiro Seixas (especialmente desenhado para o efeito).

1.9.10

Morrer em Moçambique



Pergunta: em que jornal se publica o preço dos mortos?
Pergunta: a que horas passam os autocarros do terror?
Pergunta: senhor fardas, prefere espancar-me dentro de casa ou no exterior?

31.8.10

Santos (amén!) em discurso directo (I)



Vivo no amor, amores. Vivo no milagre da multiplicação do metal, pobre, eu, vivo. Vivo no cálice do temor, arre!, que inimigos não tenho e se os tenho nada podem contra o pão. Vivo no pequeno ecrã, entre lençóis, porque inventei o ócio no horizonte, dizem, carimbam. Vivo na ignorância dos homens, eu, pobre, vivo na morte, eu, pobre santa padroeira de quantas televisões esburacam o mundo. Vivo num guia muito religioso para turistas adinheirados, eu, um poço de metal, uma atracção, um programa de entretenimento muito antigo entrincheirado em televendas.

Eis Santa Clara, amén!

20.8.10

Estudo (muito mau) para um texto (muito mau) sobre o estudo (muito fraco) para um texto (muito fraco)



Acorda cidade ancorada no sono dos cruzeiros. É manhã quente de Agosto, hoje estão em Lisboa e amanhã em Massamã, desfrutar.
Apresenta-te em francês, na toponímia dos campónios viajantes, ici la lune, c'est la vie, fumega na língua universal do turismo navegante, desfaz-te mas acorda.

Este aqui, monumento centenário, evocando o heroísmo dos que se deixaram a dormir na iminência da fronteira de mais um dia de trabalho. Estátua amada, gananciosa, em pose de modelo decapitado.

Acorda cidade, que só no teu despertar se abre a linha azul do vulcão glaciar, muita vontade nos passos da gente, feições apertadas e nuvens de sossego.

Cidade em pó,
com especial atenção nas entradas e saídas do mostrengo, um mar em fogo de argumentação, pronta a misturar-se com a evidente histeria líquida e colectiva de um barco a vapor e seus passageiros: look my darling, a little flower.

Acorda ruidosa, Lisboa, cospe fogo num rugido de tesão, dissolve o silêncio na neutralidade de um urso, sê quotidiano imperturbável, abana a tua nobilíssima cauda de cão e, acima de tudo, não deixes que te afundem com miminhos.

17.8.10

Canção popular de improviso: Éden, vómito, Abergil *




* (pelo Rancho Folclórico de Ashdod)


a pedra espia uma mulher
muito doce em sua farda
pedra suja e pervertida
não vês beleza em tanta vida

Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida


tantos corpos alinhados,
já estão cegos em sentido,
minhas poses para namorados,
arrasam o homem apodrecido

Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida


sei da guerra por decretos,
faço fotos divinais,
encho o papo a analfabetos
podem vê-los nos jornais

Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida


agora querem condenar-me
corro mundo em cabeçalhos
eis a dor a procurar-me
- mas que carga de trabalhos

se for morta aos vinte e dois
declarai amor à guerra
tudo se torna estrume em terra
tanto homens como bois

Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida


pedra suja e desprovida
és testemunha corrompida.

13.8.10

Luz. Contra-luz.




Digo: Lâmpada. Muitas línguas estrangeiras, uma por cada estrela cadente, muita luz em Lisboa, boa, voa, voa, e um sol canino a ceifar rios no Japão. Não vi. Diz-se: Tivesses visto.

16.7.10

Odmor

Vamos.



«[Both:]
Ahh Home. Let me come home
Home is wherever I'm with you.
Ahh Home. Let me go ho-oh-ome.
Home is wherever I'm with you.»