São seis da manhã e não consigo dormir.
Lá fora, vultos de homens, serpentes da madrugada,
ajeitam o nevoeiro e expõem no chão os seus objectos mais íntimos.
Lisboa lá fora, a vender-se às fatias por um pedaço de pão.
São seis da manhã e ainda não há fregueses. O dia começa no copo de martini
e na sandes de morcela. Começa no escuro. E não os vejo com medo.
São seis e catorze da manhã e faz frio por oposição. Hoje já não durmo.
O jardim ainda está fechado aos peões mas os homens já lhes preparam armadilhas.
A intimidade: colecções de cromos do Mundial de 86, Diamantino, Valdano, Tigana, Rummenigge, filmes em VHS, usados, pornográficos mas-não-só, livros lidos e não lidos, livros que não lembra ao diabo ler, colecções de chávenas de café, carcaças de computadores portáteis, a chupeta do meu mais novo...
Manhã escorrega no rasto de caracol. Já que não dormes ao menos que se faça luz. Manhã demorada. Ainda seis e trinta e um e hei-de ter muito sono às dez.
Lá fora, o barco para o Barreiro já fez três travessias do Tejo. Visto daqui é uma luz vermelha com muitas pessoas por dentro. Carros em pânico procuram os últimos lugares de estacionamento e duas carrinhas a abarrotar vomitam caixas de sapatos.
São seis e quarenta e oito da manhã num quarto andar da Feira da Ladra.
Hoje vendo a minha alma ao diabo para, às dez, lhe comprar uma pastilha de lucidez.
Todo o dia de hoje lá fora, já com tiques de aldrabão.



são papas de Portugal
Por nos papares, quantas mães choraram
quantos filhos em vão rezaram!
quantas noivas ficaram por papar...
Para que fosses papa, no mar
Valeu a papa? Tudo vale a papa
se o papa não é pequeno.
Fui ver.