20.8.10
Estudo (muito mau) para um texto (muito mau) sobre o estudo (muito fraco) para um texto (muito fraco)
Acorda cidade ancorada no sono dos cruzeiros. É manhã quente de Agosto, hoje estão em Lisboa e amanhã em Massamã, desfrutar.
Apresenta-te em francês, na toponímia dos campónios viajantes, ici la lune, c'est la vie, fumega na língua universal do turismo navegante, desfaz-te mas acorda.
Este aqui, monumento centenário, evocando o heroísmo dos que se deixaram a dormir na iminência da fronteira de mais um dia de trabalho. Estátua amada, gananciosa, em pose de modelo decapitado.
Acorda cidade, que só no teu despertar se abre a linha azul do vulcão glaciar, muita vontade nos passos da gente, feições apertadas e nuvens de sossego.
Cidade em pó,com especial atenção nas entradas e saídas do mostrengo, um mar em fogo de argumentação, pronta a misturar-se com a evidente histeria líquida e colectiva de um barco a vapor e seus passageiros: look my darling, a little flower.
Acorda ruidosa, Lisboa, cospe fogo num rugido de tesão, dissolve o silêncio na neutralidade de um urso, sê quotidiano imperturbável, abana a tua nobilíssima cauda de cão e, acima de tudo, não deixes que te afundem com miminhos.
17.8.10
Canção popular de improviso: Éden, vómito, Abergil *
* (pelo Rancho Folclórico de Ashdod)
a pedra espia uma mulher
muito doce em sua farda
pedra suja e pervertida
não vês beleza em tanta vida
Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida
tantos corpos alinhados,
já estão cegos em sentido,
minhas poses para namorados,
arrasam o homem apodrecido
Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida
sei da guerra por decretos,
faço fotos divinais,
encho o papo a analfabetos
podem vê-los nos jornais
Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida
agora querem condenar-me
corro mundo em cabeçalhos
eis a dor a procurar-me
- mas que carga de trabalhos
se for morta aos vinte e dois
declarai amor à guerra
tudo se torna estrume em terra
tanto homens como bois
Refrão (x2): pedra suja e pervertida
sou beleza em pouca vida
pedra suja e desprovida
és testemunha corrompida.
13.8.10
Luz. Contra-luz.
16.7.10
Odmor
Vamos.
«[Both:]
Ahh Home. Let me come home
Home is wherever I'm with you.
Ahh Home. Let me go ho-oh-ome.
Home is wherever I'm with you.»
«[Both:]
Ahh Home. Let me come home
Home is wherever I'm with you.
Ahh Home. Let me go ho-oh-ome.
Home is wherever I'm with you.»
18.6.10
No céu uma passarola fora de tempo e Baltazar a desafiar todas as estórias com sete sóis em cada mão. Na terra, dois olhos famintos e sete luas.Adeus.
16.6.10
Lisanov

Eis a sinfonia dos distraídos.
Antes um bairro que um poema
e depois essas portas para quem?
Há uma maneira de ver isto:
um dia, qualquer um, sair de casa
e nunca mais ser encontrado.
ilusionismo ou fogo posto na cabeça
- uma questão de memória.
-uma questão de sonho.
Se vês uma multidão em sintonia e caminhas em sentido oposto, não é a tua multidão.
Se, mesmo furando a multidão, desapareces, a multidão venceu-te.
E não acordas.
Eis a última sintonia dos distraídos.
Antes a morte misteriosa que um equívoco neutro.
11.5.10
Homenagem a Rato Zinger

Começou assim:
«se o papa papasse papa
se o papa papasse pão
o papa tudo papava
seria o papa papão»
e acaba assim:
8.4.10
mingo.

O que trama isto tudo é que não consigo pensar,
devo muito à inteligência e sou um poço de cansaço.
Nesse capítulo, nada de novo: muita gente
a fazer barulho e um enorme declive
e todos cá em baixo sem forças para subir.
Depois é a grande espera, o silêncio dos que duvidam,
não sei se durma não sei se grite,
e uma solidão maior que a do cão estrangeiro.
Domingo: mulheres que tropeçam no asfalto
porque não souberam esperar.
Domingo: muitas casas mudas, muitas ruas mudas.
Domingo: não sei quem são os que me olham.
Domingo: amanhã será por mim, sossega.
O que dá cabo disto tudo é não saber para onde ir a seguir,
por muito que suba,
ainda que fale alemão.
Aconcheguemo-nos, conhecidos e desconhecidos, cabemos todos
e viagem não assim tão grande.
Subamos enquanto os homens que gritam
são uma ameaça com pássaros
aos homens que dormem.
Subamos o domingo: a escadaria dos que ficam lá no fundo.
30.3.10
aço, fome, cavalo, sono

Não é assim tão bom,
não é assim tão mau
- tem momentos, espasmos,
acumula erros
cristais
ilusões de aço
flores em chamas.
Antes do romance, a honestidade:
não prestas, poeta.
És pó, fumegas, tosses mas não dizes,
perdes o teu tempo.
Enquanto pestanejam o bem e o mal,
mastigas o futuro em círculos
e queimas a artéria esgotada.
Antes do romance, a matemática:
1. Doeu. O nariz dói quando está irritado. Quando dói, as sobrancelhas juntam-se a pele estica, quando ai. Não gostas que suspeitem do teu ai.
2. tenho fome. tenho comida. não como.
3. As minhas botas pintam as meias de castanho. Não cheiram mal.
4. Tenho uma guitarra. Tenho silêncio nas duas mãos. Não toco.
Não é assim tão longe,
não estás assim tão perto.
por muitos sonhos que saltes
como um cavalo
na flor brotada.
21.3.10
8.3.10
A isenção do homem-livro

Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.
É uma fórmula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela janela nem atravessa pontes.
E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.
A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma tirania difícil de inalar.
Dão-lhe a poesia e ele escreve tempestades.
5.3.10
27.2.10
A zaragata dos Livros ou O uivo de uma biblioteca em construção

Gil Vicente namora com Jorge Amado,
eles agora até já se casam!,
A Paixão de Almeida Faria é uma anedota para Agostinho da Silva,
Mia Couto ensanduichado por uma Gramática de Português para estrangeiros,
a língua portuguesa é muito traiçoeira,
que o diga Enrique Vila-Matas, mesmo Longe de Veracruz,
que tudo vê amarelo, onde tudo é Aparição,
mesmo que Vergílio Ferreira se distraia com anões.
Harold Pinter, alguma madeira e uma Polaroid para Saramago.
Cecília Meireles muito acima de Sarah Kane,
eles agora até se amam!,
vão à pesca com Raul Brandão e morrem em palco,
deseja o leitor - Bernardo Santareno e Anunciação.
E os Antónios, Franco Alexandre?
E os Antónios, Ramos Rosa?
E os Antónios, Ferlinghetti?
Que os Antónios - meu Lobo Antunes - sejam todos Herbertos,
absolutos, laranjas, peixes, amador e coisa amada,
martelem, martelem, martelem!,
eles agora até se martelam!,
num século ou num segundo
desde que em Ofíicio Cantante.
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são papas de Portugal
Por nos papares, quantas mães choraram
quantos filhos em vão rezaram!
quantas noivas ficaram por papar...
Para que fosses papa, no mar
Valeu a papa? Tudo vale a papa
se o papa não é pequeno.
Fui ver.