o dedo indicador da memória aponta para ti em tardes como esta,
teu rosto rodopia, sem forma, nos sorrisos anónimos,
o resto da mão submete-se ao calor e
às rasuras de um bolso saturado de matéria vã.
o braço dispersa-se pelas suas próprias
células [infectadas pelo vírus Saudade] e extingue-se
neste movimento de teclas. habituar-se-á, não te preocupes.
a condição de cada objecto é a verdade
mas não há nenhum sem uma cor fora do lugar. neutra
perante essa coisa do existir ou do pensar que se existe. o dedo
indicador é uma aproximação perversa à área
de segurança delimitada por esse olhar. expansivo.
e aponta para ti.
11.2.04
3.2.04
30.1.04
Sereia
LINDA é a mulher e o seu canto,
ambos guardados no luar.
Seus olhos doces de pranto
— quem os pode enxugar
devagarinho com a bôca,
ai!
com a bôca, devagarinho...
Na sua voz transparente
giram sonhos de cristal.
Nem ar nem onda corrente
passuem suspiro igual,
nem os búzios nem as violas,
ai!
nem as violas nem os búzios...
Tudo pudesse a beleza,
e, de encoberto país,
viria alguém, com certeza,
para fazê-la feliz,
contemplando-lhe alma e corpo,
ai!
alma e corpo contemplando-lhe...
Mas o mundo está dormindo
em travesseiros de luar.
A mulher do canto lindo
ajuda o mundo a sonhar,
com o canto que a vai matando,
ai!
E morrerá de cantar.
Cecília Meireles
ambos guardados no luar.
Seus olhos doces de pranto
— quem os pode enxugar
devagarinho com a bôca,
ai!
com a bôca, devagarinho...
Na sua voz transparente
giram sonhos de cristal.
Nem ar nem onda corrente
passuem suspiro igual,
nem os búzios nem as violas,
ai!
nem as violas nem os búzios...
Tudo pudesse a beleza,
e, de encoberto país,
viria alguém, com certeza,
para fazê-la feliz,
contemplando-lhe alma e corpo,
ai!
alma e corpo contemplando-lhe...
Mas o mundo está dormindo
em travesseiros de luar.
A mulher do canto lindo
ajuda o mundo a sonhar,
com o canto que a vai matando,
ai!
E morrerá de cantar.
Cecília Meireles
22.1.04
Lobo da minha vida
"De bata nos joelhos via a cidade iluminar-se. Os pombos emigravam para o telhado do anúncio Sandeman, um homem de chapéu e capa, com um cálice de vinho do Porto. Na minha opinião, adquirida pelos cinco ou seis anos de idade, nunca existiu nada mais bonito."
António Lobo Antunes
António Lobo Antunes
15.1.04
plano de fuga
uma vez que fui eu próprio a começar esta guerra contra os morcegos diurnos, a encher o copo e a dar a primeira golada serei o primeiro a saltar
os outros não concordaram e taparam-lhe vias de respiração e canais comunicativos com agulhas eléctricas, decisão portátil que havia de lhes trazer um problema: não tinham nenhuma extensão até ao interruptor da medicina alternativa
sem poder falar, Dioniso Orgânico, engendrou um plano hobbesiano para ser o único a cair no poço da fortuna: levantou o braço e mergulhou-o num movimento ascendente
os outros não perceberam, acenaram negativamente, e deixaram-no cair.
(a porta do alçapão fechou e evaporou-se no alcatrão vermelho)
os outros não concordaram e taparam-lhe vias de respiração e canais comunicativos com agulhas eléctricas, decisão portátil que havia de lhes trazer um problema: não tinham nenhuma extensão até ao interruptor da medicina alternativa
sem poder falar, Dioniso Orgânico, engendrou um plano hobbesiano para ser o único a cair no poço da fortuna: levantou o braço e mergulhou-o num movimento ascendente
os outros não perceberam, acenaram negativamente, e deixaram-no cair.
(a porta do alçapão fechou e evaporou-se no alcatrão vermelho)
12.1.04
5.1.04
Arriére Vermine!...
sou um tubarão com medo de vir a ter medo do escuro, como os que têm medo do medo que eu possa vir a ter no caso de ter medo de ter medo de vir a ter medo do escuro que, por sua vez, tem medo de vir a ter medo do medo que os outros têm do medo que eu possa ter dele.
um tubarão-medo com medo do escuro. e dos medos do escuro e do próprio medo do tubarão.
Porto Croft não é mau,
mas Chival Reagal 12 anos faz-me melhor.
tenho medo de nunca vir a ter medo de ter medo de alguma coisa que possa meter medo a todos, menos a mim. tenho medo de ter medo de nunca vir a ter medo.
para a próxima bebo água. tenho medo que alguém tenha medo que não haja próxima.
para a próxima não bebo nem escrevo.
medo do medo do medo.
um tubarão-medo com medo do escuro. e dos medos do escuro e do próprio medo do tubarão.
Porto Croft não é mau,
mas Chival Reagal 12 anos faz-me melhor.
tenho medo de nunca vir a ter medo de ter medo de alguma coisa que possa meter medo a todos, menos a mim. tenho medo de ter medo de nunca vir a ter medo.
para a próxima bebo água. tenho medo que alguém tenha medo que não haja próxima.
para a próxima não bebo nem escrevo.
medo do medo do medo.
Comunicado (ou Ecos de ondas nazarenas)
O Sindicato das Sete Saias da Nazaré em estrita colaboração com a lua reflectida no mar por volta das vinte e três horas e quarenta minutos de uma noite primeira anunciam ininterruptamente:
“há chambres, há rooms”.
A Irmandade quase-bracarense que fazia malabarismos com gargalhadas e marcava presença no evento, contra-argumentou:
- é mais uma Imperial se faz o favor!
(e o 3 foi-se embora tristonho. Os pescadores, que não brincam em serviço, mandaram de imediato o 4 substituir o tal 3 dando-lhe ordens para que se colocasse imediatamente a seguir ao 200, ficando 2004. Hum... números, quem os percebe?)
O amor permanece.
“há chambres, há rooms”.
A Irmandade quase-bracarense que fazia malabarismos com gargalhadas e marcava presença no evento, contra-argumentou:
- é mais uma Imperial se faz o favor!
(e o 3 foi-se embora tristonho. Os pescadores, que não brincam em serviço, mandaram de imediato o 4 substituir o tal 3 dando-lhe ordens para que se colocasse imediatamente a seguir ao 200, ficando 2004. Hum... números, quem os percebe?)
O amor permanece.
30.12.03
hetero-avaliação introspectiva para fora
estrelinha azul de ramos como árvore dos reis com uma garrafa de whisky. haddock. nem sempre só os melhores. às vezes chave, fogo, flor e pão. óperas e violinos nos braços de mulheres. quero ver-te reduzido a tu. haddock. caixas de fóoutras sforos e fogo de artifício, amarradas com atacadores. quero ver-te reduzido a ti. haddock. contra ti te defendes com reacções e regressos à razão. quero reduzir-te. haddock. meter-te no bolso e levar-te. para lá. quero-te. haddock.
está demasiado escuro que fiques sozinho, haddock.
está demasiado escuro que fiques sozinho, haddock.
24.12.03
conto na tal
só os melhores
sobre o seu corpo se salvam.
esperma por cada palavra de fuga.
perdidos. uma boca com língua a deslizar sobre o pénis.
mas há outros debaixo da mesma mesa.
agarrou-os um a um. carícias até explodirem.
vários. dotados. duros. sem desconfiarem
uns dos outros enquanto as tais mãos
partem o bolo-rei com uma faca.
sobre o seu corpo se salvam.
esperma por cada palavra de fuga.
perdidos. uma boca com língua a deslizar sobre o pénis.
mas há outros debaixo da mesma mesa.
agarrou-os um a um. carícias até explodirem.
vários. dotados. duros. sem desconfiarem
uns dos outros enquanto as tais mãos
partem o bolo-rei com uma faca.
18.12.03
espelho quebrado
parte-me ao meio sua espécie de ectoplasma
sem licença para me deixar viver!
parte-me.
realça, usa lá essa máscara de noite e óculos escuros
e esquece que existo porque talvez não exista mesmo.
já não sou. nem quero. as palavras enojam-me,
confundem-te. não me alcanças através delas.
não chegas a mim através de nada.
não voltarei a falar, mesmo quando simular teclas roídas.
é o vento, não eu. mesmo que as assine, mesmo que te diga olá.
esse não voltarei a ser eu.
parte-me ao meio e mesmo assim não voltarei
a falar. um eco distante de certeza: meu:
não existo. desisto.
sem licença para me deixar viver!
parte-me.
realça, usa lá essa máscara de noite e óculos escuros
e esquece que existo porque talvez não exista mesmo.
já não sou. nem quero. as palavras enojam-me,
confundem-te. não me alcanças através delas.
não chegas a mim através de nada.
não voltarei a falar, mesmo quando simular teclas roídas.
é o vento, não eu. mesmo que as assine, mesmo que te diga olá.
esse não voltarei a ser eu.
parte-me ao meio e mesmo assim não voltarei
a falar. um eco distante de certeza: meu:
não existo. desisto.
13.12.03
A minha "sensibilidade dói, não faz rir"
uma fotografia agora seria isto,
seria a treva de uma injecção forçada.
instabilidade. sou pálido e procuro corar
onde não há cor que me assalte. Vieram todos,
vêm em grupos de movimentos sem que nada
sobre para mim. vou-me. embora tudo.
vou-me embora. das duas às outras duas, no máximo.
apaixonado por uma mulher negra que não voltarei a ver,
não sei o que faço aqui. fugir?
(depois havia um desenho, mas reduzido à insignificância)
seria a treva de uma injecção forçada.
instabilidade. sou pálido e procuro corar
onde não há cor que me assalte. Vieram todos,
vêm em grupos de movimentos sem que nada
sobre para mim. vou-me. embora tudo.
vou-me embora. das duas às outras duas, no máximo.
apaixonado por uma mulher negra que não voltarei a ver,
não sei o que faço aqui. fugir?
(depois havia um desenho, mas reduzido à insignificância)
8.12.03
madrugada
as paredes inscrevem-se, breves, nas
páginas da sobrevivência
como se os homens viessem
(e a simples suposição fosse suficiente
para as destruir.)
quando o ruído é demasiado
as cabeças ficam ocas.
inventam-se fugas e os limites
não são ultrapassados porque nunca
foram estabelecidos.
braços e pernas misturam-se,
reagem ao apelo. O corpo é
um só. O corpo é uma merda.
E a alma sem fazer nada!
páginas da sobrevivência
como se os homens viessem
(e a simples suposição fosse suficiente
para as destruir.)
quando o ruído é demasiado
as cabeças ficam ocas.
inventam-se fugas e os limites
não são ultrapassados porque nunca
foram estabelecidos.
braços e pernas misturam-se,
reagem ao apelo. O corpo é
um só. O corpo é uma merda.
E a alma sem fazer nada!
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