4.4.14
Há croquetes
Não seja burro como uma porta, hoje a cantar no lodo, amanhã a dançar na América, torne-se numa estrela e inscreva-se já numa das nossas caríssimas formações pessoais e quem sabe, não sendo mesmo burro como um penedo, até formação de competências e saberes.
Tudo tem um preço, daí a falta de vergonha no imperativo. Firme, avance.
Garante já o teu lugar, suba os muros do descontentamento, mutila-te todos os dias contra a vida para além dos outdoors, faça o que entender, abre bem os olhos, mas compre, mas compra. E, preferindo, também se pode colocar à venda. Também podes.
Não sejas boi, adquira já este consumidor.
13.11.13
Twittesia #1
# Vestido de branco, um homem eleva pé atrás de pé. A política somos nós. Discorda. E contiua a descer. Com manchas de banana no casaco.
# Na loja de conveniência vende-se bolacha, vende-se banana. Mesmo sem dinheiro para comprar, os resultados económicos são milagrosos. Salvé.
# Cada um de nós remetido a cada insignificância que tem. É meu. Esta banana é minha. Esta bolacha é minha. Esta política, este país. Não.
# Subi três vezes os lanços de escadas, desci nunca. Tripliquei a angústia, disse-lhes das boas e grossas. E fui-me da Travessa da Arrochela.
15.11.12
Sangue, bastonadas: plano de fuga

A meu lado, José erguia um ramo de flores.
Atrás de mim, o Coro da Achada cantava como se fosse livre de cantar na rua. Por todo o lado, gente de todas as idades, indignada e pacífica.
Saibam, senhores, que há gente vê “firmeza” e “serenidade” numa agressão aleatória ao seu próprio povo.
Saibam, senhores, que é essa gente que vos governa.
Saibam, senhores, que o sangue dos vossos iguais ainda ferve nas ruas que hoje pisais.
Nós não fugimos. Com a sorte da cabeça intacta abraçados aos que vertiam sangue. Com a dor da cabeça em sangue abraçados aos que choravam incrédulos. Com as lágrimas dos que choravam abraçados aos que gritavam animais-filhos-da-puta-assassinos-selvagens.
Nós não fugimos. Fomos expulsos, coagidos, ameaçados, agredidos mas nós não fugimos. Soubemos que do outro lado, noutras ruas, outros como nós eram perseguidos e agredidos um a um – autêntica guerrilha urbana – e não fugimos. Num canto mais calmo, menos numeroso, é certo, mas não fugimos. Vimos raiva nos olhos escondidos pela viseira do capacete, vimos o desespero de alguns polícias “vão-se embora daqui, por favor”, impotentes, contrariados, possuídos por instruções de violência.
Nós, a multidão, não agredimos nenhum polícia, tentámos convencer quem o fazia a parar. Eles viram. E agradeceram de um modo muito peculiar. Nós não fugimos do nosso destino, do nosso futuro, mesmo que – no imediato – o futuro tivesse a forma de um bastão, mesmo com sangue a descer a face, nós não fugimos e havemos de fazer um país.
Não fugimos da dignidade, em nome da menina que chorava sôfrega de pânico. (Ela não fez nada!)
Não fugimos da justiça, em nome do rapaz em sangue que perguntava insistentemente “porquê, porquê?”. (Ele não fez nada!)
Não fugimos da verdade, por nos terem expulso da nossa própria casa com um aviso mudo de dispersão com cinco minutos de antecedência, que soube pelas TV´s. (Nós não ouvimos nada!)
Não fugimos do compromisso de vos derrotar senhor governo, em nome das duas senhoras de 60 anos derrubadas e pontapeadas sem critério. (Elas não fizeram nada!)
Hoje, as bastonadas continuam: pedradas record de desempregados, pedradas record de impostos, empurrões e pontapés nos custos de saúde, educação…
Amigos autoritários, não tereis alternativa senão a derrota, a queda monumental. Não vamos fugir mas temos um audacioso plano de fuga: vocês saem silenciosamente. Nós ficamos a construir um país.
25.10.12
Twittesia #0
# Fúria na boca de pensar a coisa que oculta e dizer o que jamais sonhou. Ignorando regulamentos, o homem suplica por um prolongamento.
# Gotas na língua de verdade. Dizer apenas o necessário e o urgente. E é urgente comer, é necessário dizê-lo.
# Na Graça, uma mota ruidosa fura o pacto de silêncio. Na apatia do anoitecer, grite-se: voa ali um homem vivo!
# Para onde caminhas? Que momento procuras?, pergunta um homem sentado. Estou sentado com muita pressa e não há maneira do meu momento chegar.
# É tempo de nos queixarmos da chuva, ensopados, como quem sai indignado de um mergulho de mar. Não nos avisaram que esta nuvem molhava.
18.6.12
Jacarandando
Corações tão curtos para tantos sobressaltos. Deram-nos uma realidade assim, já com as árvores despidas e as flores no chão. Jacarandás à chuva, ramos à espera.
Corações sem memória podam melhor as árvores.
27.3.12
variações sobre uma crise que lhes deu
Diz-se até para o ano, se o ano é de crise, para o ano é que é o deus-dará.
Diz-se já vieste tarde, ainda que com verdade, culpa tua.
Diz-se o pão a quem de mérito, sobretudo se te carregam aos ombros, no reverso do dinheiro.
Diz-se que isso é que é ser livre, ai de ti que nasceste pobre, deus te livre de o negar.
27.1.12
Lisboa, cidade rural
não sei por onde lhe comece.
12.1.12
Um terço do mundo
apenas se estiver evidente
na luz ou na sombra do consciente
que todos os dias
às três da tarde
uma septuagenária arrasta o banco com as muletas
até ao passeio da Calçada do Forte e
no que há de sereno numa porta aberta
reza um terço
ao mundo.
9.1.12
Crise
27.12.11
Poema para José*
pode esconder-se durante um
milénio na imaginação dos homens.
Por mais que chova
a raiz permanecerá teimosa
na boca dos homens
a saliva de açúcar
contra o esquecimento.
Um homem sendo ousado
há-de partir tanta pedra
que não sobre senão flor.
Um homem sendo homem
há-de aprender todas a letras do amor
- abcdefghaijklamnopqrstvwyxz: amor -
e renascer.
* José e o SINAL DE ALARME
19.12.11
Poema do Google Sky Map
acima da cabeça os dedos grossos de Saiph esmagavam o zénite
e nem os que observavam o escuro lhe encontravam defeito.
Eram muitas cores juntas na boca
mas a língua ainda estava azul
e o relógio continuava parado
na madrugada.
Ninguém dormiu.
23.11.11
Parabéns pai
20.11.11
Sentença
é uma nova paixão de Séneca.
Eu sei: a moral dos peixes
os erros da luz
e a dor dos homens.
Eu sei que o teatro está
irremediavelmente condenado
à sombra do espectáculo.
Eu sei que as consciências
não entram em erupção
mesmo que lhes seja pedido.
16.11.11
Ideias para injectar poemas nos romances (1)
somos Simbiontes,
somos o humano com bactérias
ou as bactérias do humano?
A solidão não existe.
2.8.11
Chamada para os maus poetas (Fogwill)

Precisa-se de maus poetas.
Boas pessoas, mas poetas
maus. Dois, cem, mil maus poetas
precisam-se para que rebentem
as dez mil flores do poema.
Que neles viva a poesia,
a desnecessária, a fútil, a subtil
poesia imprescindível. Ou o in-
verso: a poesia necessária,
a prescindível para viver.
Que floresçam dez mãos no pântano
e na cova um Ele, um Juan,
um Gelman como elefante a abarrotar
de vidro partido,
ou um Rojas desfeito, mendigando
à Rainha de Espanha.
(Agora Espanha
voltou a ser um reino e tem Rainha
e Rei do reino. Espanha é um tabuleiro
de bispos politizados e peões
recém-comidos: à direita, negros,
paralisados, fora-de-jogo).
E aqui há torres de borracha, bispos
politizados e mulheres-polícia
a vigiar a casa.
À casa do homem,
por fome, correm todos, saltam
do quadrado, e são comidos.
Tudo isso abunda: faltam os poetas,
os mil, os dez mil maus, cada um
armado com o seu livro de merda.
Faltam os seus ensaiozinhos e romances em preparação.
Ah… e os curricola,
e as suas dez mil applys nos faltam.
Não é a morte do homem, é uma
grande ausência humana de maus poetas.
Que floresçam cem milhões de tentativas abortadas,
releituras, perturbações, fólios de cartão, ilustrações
de gente amiga, jantares com gente amiga,
exegeses, escólios,
tempo perdido como tudo.
Precisa-se de poetas gay, poetas
lésbicas, poetas
consagrados à questão do género,
poetas que cantem a fome, o homem,
o nome do seu bairro, a arte e a indústria,
a estabilidade das instituições,
a camada de ozono, o buraco
da revolução, o orifício azedo
das mulheres, o latido inaudível
do Pentium, a guerra
entendida como continuidade da política,
do comércio,
do ócio de escrever.
Precisa-se de Betos, Titos, Carlos
que escrevam poemas. Alejandras e Marthas
que escrevam. Nomes para poetas,
anagramas, pseudónimos e contra-senhas
para a chat room do verso precisam-se.
Uma poesia aqui do cirurgião nas calçadas.
Uma poesia aqui da mendicidade nas instituições.
Uma poesia dos salões de leitura de versos.
Uma poesia pelas ruas (venham ver os
versos pelas ruas…)
Uma poesia cosmopolita (subam para ver
os versos na Web…)
Uma poesia de amor actualizado (desçam para ver
poesia na manjedoura do amor…)
Uma poesia explosiva: etarra, ética,
politicamente equivocada.
Nos papéis, nos canais culturais
por cabo, nas telas e nos monitores,
nas antologias e nas revistas
e nos livros e nas emissões clandestinas
de frequência modulada procura-se
poetas e maus poetas:
grandes poetas celebrados pequenos,
poetas notórios, plumas iluminadas,
homens triviais, miméticos,
deteriorados pelo álcool,
descerebrados pela droga,
hipnotizados pelo sexo,
idiotizados pelo rock,
odiados, amados pela gente aqui.
Nas habitações procura-se.
Num bar, nos flippers,
nos minutos de descanso na oficina,
entre duas aulas de gramática,
na classe média, nos bairros
vigiados procura-se.
Haverá na tropa?
Nos balneários, nos banhos públicos
que começaram a construir?
Nos certames de versos?
Nos torneios de mini-futebol?
Debaixo do sol quieto?
A sós com a sua língua?
A sós com uma ideia repetitiva?
Com gente?
Sem amor?
Não é o fim da história, é o início
da histeria lingual.
Tudo começa e nasce de uma necessidade forjada na língua.
Falsifiquemos o desejo:
Preciso de ti, bebé.
Para começar preciso de ti.
Para necessitar, peço-te
esse minuto de poesia de que preciso, tolo:
quero que me devolvas o ritmo de
um poema errado,
que me acaricies com as suas quebras,
que me perturbes a mente com outra ideia banal,
e que me banhes todo com a trivialidade do mediano.
E a meio do caminho, no começo
da comédia terrena, quero viver
a insanidade e a necessidade
de um sentimento falso.
Precisa-se de novos sentimentos,
novos pensamentos imbecis, novas
propostas para a mudança, causas para
temer, para ter
aqui no sul.
E até Espanha é um mosaico
de formigas orientais:
romenas, tunisinas,
suecas à sombra de um Rei.
Riamos do Rei.
Da sua fealdade.
Da sua fatalidade.
Da Sua Graciosa Realidade.
A realidade é um sonho partilhado:
A realidade de Espanha
é a sua vigorosa língua pronunciando o eñe
e a sua manchada espada pronunciando a ordem
do capital e da sintaxe.
Ai, língua:
afasta de mim este caderno de prosperidade
cravado na tua virilha,
saturada de chips, e cobre
as nossas feridas com o bálsamo dos maus poemas..!
Fogwill, llamando por los malos poetas
(tradução mais-ou-menos livre a partir de uma Edição Eloísa Cartonera, 2008)

