16.11.07

Desmaio

Homens que dispensam conceitos,
dor no braço de bem pensar
o trabalho, a inflamação nos dedos
o estar vivo a qualquer hora da madrugada.

Homens que caminham com o peso da viagem nos pés,
fim do dia, desmaio de luz,
pernas sujas de homens que dispensa leituras
não vai pensar, quer leite,
o fácil e o imediato, quer comer.

Homens como árvores cansadas,
ombros de cortiça

a casa de tédio a cair sobre os homens,
sonhos fora do lugar, meninos,
crianças pequenas a espreitarem cometas.

9.11.07

Sarilhos Pequenos

Um:
Sou o meu maior obstáculo.
Contorno-me para aprender.
Parado em mim qualquer movimento é nulo.

Gosto de pessoas de uma forma irracional.
Quanto mais absurdas,
quanto maior o fosso que nos separa,
melhor.


Dois:
Esse gato de amora na boca,
língua seca, fruto de miar.

9.10.07

As Coimbras

Um:
O homem da guitarra tem medo de uma corda.
Evita-a com insistência, faz contas
de cabeça - dórrémíssol - fala sozinho.

A guitarra do homem tem uma corda a menos.
Afilge-se sem desistência, é fá de si mesma,
toca baixinho.

O medo é a corda que nunca esteve,
a música que a corda dá.


Dois:
Todos os dias são terça-feira à noite,
em letígio com o sol,
no diligência.
Coimbra é um pedaço de luz no canto da mesa
e a mulher sentada que aguarda o fado.

É a conta certa de todos os dias,
matemática da noite de terça.
É hoje: Coimbra.
Cidade à noite, entre ruas apertadas na canção
e o recibo amarelo dos que pagam a manhã
com a música que lhes falta.

É a guitarra pousada sobre a mesa.
E a frase falsa,
poço de adjectivos que a prende aqui.

11.9.07

Teu ajeito

A um de maio, no início de setembro, escrevo-te uma carta de amor para todo o inverno.
Deitados assim, nos gestos um do outro, somos o tempo a passar - a tua saia rodada é o tempo a passar.
A um de maio, nas nuvens de amora, rasgo três versos de ócio, danço seis vezes o fandango e o tempo passa nos teus olhos.

6.8.07

Começou a lua. Não há fim por perto. É uma bola de fogo em extinção, não se queixa e está a arder.
A vizinha de cima atravessa o corredor na sombra de uma barata. A de baixo, com um ângulo de rotação menor, dorme sem sobressalto. A lua fala. Contorna com perícia todas as palavras que a fazem chorar. Diz coisas neutras: a linha pode ser infinita, tenho uma pedra angular no sapato, faltam treze dias para Outubro, ontem tinha mais frio e menos cabelo, há milhões de espécies de insectos no Senegal, não há fim por perto.
A noite é longa, há mais gente embriagada nas ruas e é proibido fumar enquanto não cair um cometa.

25.6.07

Linha azul, transbordo, linha amarela.

um

muita gente sentada, muita gente
junta muita gente de pé

a próxima estação é dos lúcidos,
dos que temem
teus olhos e pele negra
da muita gente que levas
sentada na tua cabeça, junta
a próxima
a próxima paragem sou eu a sorrir-te
sou eu
a parar contigo.


dois

muito céu
as palavras aqui são outras palavras
dizem outra coisa
nas praias
namoros com muito sol
quase sem nuvens vai chover
a linha o comboio no mar,
quase ponte,
falar alto, falar mal,
rir gargalhadas tão alto,
quase cristal,
os bês pelos vês do Porto
que é norte comigo.


três

todos os dias contados
a aviões que cabem na janela grande
a passar

e o resto do dia está cansado
e segue viagem até à Baixa
- e o que resta da Baixa há-de desaparecer:
e troca-se corpo molestado por duas noites onde ficar

e todas as luas por uma manhã de esperança.

11.6.07

O brincador e a ciência



Um fio de luz evade-se pela raíz e é fruto.
Experimento.
Cócegas de lâmpada na tremura do solo fértil.
Experimenta-se.
A tartaruga atravessa a luz e afinal é mosca, hesita entre espécies, patas no solo e afinal nem é tão tarde assim, mesmo voando rente, entre um tubo e uma pinça.
Experimento.
Seis minutos antes de amanhecer, um homem é abatido a tiro numa passadeira dos arredores da cidade grande. Rastejava de cansaço, com uma carga de sono, álcool, neutralidade perante os elixires desesperantes da vida, uma camisa aberta e uma mulher casada. Tiro no peito.
Experimenta-se.
E então o dia de árvores sem sombra.
Experimenta.
O dia do aprender a morrer e ambos
vivos e mortos descobrem que os erros, apesar de
fatais,
experimentam-se.

A partir de hoje, ao serviço da ciência.

6.6.07

















É de um mau gosto extremo não ser feliz em Junho.



fotografia da autoria de Fernando Machado

21.5.07

Escrita Criativa atrapalha sonhos

A Ritmos desmente categoricamente, a notícia avançada pelo jornal Correio da Manhã, que garante a vinda dos Radiohead ao Festival Heineken Paredes de Coura.

Os Radiohead são uma banda que apreciamos, no entanto, não está agendado qualquer espectáculo para este ano, muito menos no Festival Heineken Paredes de Coura, infelizmente!

Perante este facto, lamentamos o teor falso da notícia que só serve para enganar os leitores.

A Organização

Observação poética do plantador: Merda!

17.5.07

Aqui jazz um coração

o dia desponta na estrutura de fogo
ainda agora
ainda agora nasceu e já não há tempo para o erro
bate bate bate
no prato de prata assim plim
com sopro no ouro falta
de ar estica
a corda

janelas por abrir o homem
começa no suspiro do mito apesar
das possibilidades fizeram-no
assim
a arte plim plim bate
assim

para que quer o músico o relógio
os ventos nada podem contra
o saxofone a floresta
densa toca o sino
a cada nova árvore vai-te embora
bicho-da-seda vai-te
rosa-dos-ventos isto
é um pulmão de raiva
é o ar que vos roubo

o dia a preto e branco e verde e ainda
nem tempo para o certo
travessa de agonias experimentais
sopro sopro e muita força
nos braços tanque militar
queimadura profunda
nas impossibilidades dança comigo
centauro a roupa que despes
é uma canção dentro do piano
há um tesouro que apenas
quem o ama pode descobrir elixir
verde como olhos para afinar
as pernas a caminhada não é
vã sobretudo
a do dia nascente

e se na boca
nascesse uma árvore das noites
de chuva raíz
húmida e o violento do próximo
fim do mundo
a beleza sangra não
concede à morte a sensação
de novidade vive-se encanta-se mata-se
e pronto e para isso
há os músicos desconfortáveis
no corpo de homens.

30.4.07

aquele primeiro de maio

Um.
O elefante já não toca o sino.

A águia já não afia o bico no caroço da maçã.
O leão já não paga a salada de zebras por débito bancário.
O nosso circo sofreu uma profunda reestruturação.
O nosso sincero pedido de desculpas.

Dois.
Compre o sol para os óculos que o nosso presidente hoje usa, se faz o favor.
Se amanhã chover, venda-o. O nosso presidente paga com decretos de lei mágicos.
Um mosquito para cada candeeiro, uma arca de sal para conservar as ideias, três quilos de anzol para domesticar o peixe.
E outras soluções mais reais. Sete dias para cada semana, uma cruz de sangue para cada dia.

Três.
É só seguir as ambulâncias amarelas.
Há uma praça com patos desligados à corrente de rio, época de seca, uma feira de cebolas a interromper o fado todas as quintas à tarde, uma ponte de mel, passas o ferrão das abelhas e estás na zona propícia em acidentes.
Depois é só seguir as ambulâncias amarelas.

Quatro.
Sete mais noite igual a sombra mais luz igual a mais consciência menos trevo igual a sorte menos direitos menos seis igual a solidão mais ninguém mais nenhum mais zero mais muro mais tecto mais luz mais porta igual a casa menos o resto menos os sonhos mais sexo menos género igual a profunda desigualdade social.

22.4.07


















Um dia vais olhar-me tão fundo nos olhos que reconhecerás a lua.


Pintura: Ashes (1894), Edvard Munch.