29.11.05

"o sol é um arco-íris, não é noite nem dia"

Aproximaram-se porque partilhavam cinzeiros. É melhor termos cuidado, advertiu ela. Diz aqui que faz mal, está aqui escrito que mata, que nos torna demasiado dependentes da vida.
E apaixonaram-se.

4.11.05

Falho sempre visitas à lua

Pingos de chuva contados a cigarro. É como andar de carro, amar - é preciso travar. É como seguir caminhos: vais no teu, esperança falsa, falha-me a mão. É como ficar num buraco com dus pedras de gelo no cérebro.
Acendo outro. Chove. Apetece mastigar o tempo, triturá-lo com uma matilha de motosserras gramaticais, uma febre de vocábulos enraivecidos. É agressiva a viagem dos que ficam, dá frio, faz não querer ninguém. A robustez da teia. Não saio daqui sem uma pequena morte, renascimento de nicotina, raíz rompendo nas trevas, manchas podres nas folhas, nos braços, no corpo, pontos negros nos olhos. Não há lua nem lado nenhum para a imobilidade, depressão de árvore, noites em negro enleadas com fitinhas de sangue, como prendas.
Faz não querer, faz um homem com lágrimas. Estradas sem mim, miragens inaladas - nem lua, nem luz, nem lume. Falta a mão, apetece chover - febre de um manco - sobra em cinzas. É como insistência por afogamento.
Não há visitas no buraco.

27.10.05

País

No país onde as árvores saltam e os lobos estão pregados ao chão nunca nevou.
Todos os animais de quatro patas abanam a cauda e, às vezes, ficam sem pêlos - nas mais demorada visitas do vento. Dos pêlos soltos fazem-se cadernos mas as árvores nunca escrevem. Preferem as cantigas dos saltos à corda e, no Verão, o calor dos casacos de cabedal.
Às vezes choram e lá cai uma ou outra carta de amor.
Há para lá também muitas ovelhas que, por questões éticas de higiene, largam sempre as suas caganitas junto aos troncos dos lobos. Faz pena à vezes ver a apocalíptica chuva de dentes que, invariavelmente, ocorre antes de cada tempestade de uivos.
Os pássaros-bebé, com ninho nas unhas dos lobos, erguem a cabeça para o céu pilriando inveja das cobras-voadoras.
Limitam-se a comer as cartas platónicas que, não raras as vezes, caiem no vazio. Isso de as comerem é um quase-sonhar com o bico. Piu!

De longe a longe há um furacão que vem do mar. Chama-se homem, tem consequências devastadoras porque mata sempre aos milhares, mas é em tiros para o ar que o fenómeno natural é especialista. Uma mancha de cobras morre, caindo como cadáveres e enrolando-se no pescocço dos lobos. Há bichos que têm tantas víboras no pescoço que mais parecem aviões prontos a descolar. Sonham com isso. Antes que o vento chegue e limpe tudo, como sempre faz. Já está. Mas só de cinco em cinco anos aparece um homem, o que permite que os répteis se multipliquem a um ritmo suficientemente eficaz para que tape o sol.

Sempre que uma flor brota, começa a chover e o problema fica resolvido. Morte por afogamento. Dentro dos rios vivem os cães, para se protegerem dos fetiches das árvores. Gostam de animais puras, as raízes famintas. E os cães não sabem do que gostam, por serem descendentes da transparência.
Sempre que há um rugido é hora do recolher obrigatório das sombras e o dia fica branco. Tão iluminado que tudo cega. Dura meia-hora. E é o tempo que os lobos ganham para se fingirem livros, vagueando do buraco em buraco e dando marteladas de picareta nas árvores.

26.10.05

"Pensa como eu", disse-me um homem,
"Ou és abominavelmente perverso";
"És um sapo."

E depois de pensar nisto,
Disse-lhe, "serei, então, um sapo."

Stephen Crane

18.10.05

classificados - café novo

A cada seis nódoas de tinto:
uma metáfora, um patinho morto, um palito de pernas para o ar. a cada risco de vinho na testa.

1.
Tudo começou na festa de aniversário da Vergonha, como se acontecesse nos abortos da sombra. O bolo era alimentado por energia eléctrica mas não comia ninguém. Nos pouco lúcidos segundos de luz cuspiam-se as travessas, grávidas de porcos vivos e sapateiras como molho de petróleo. Erguiam-se fósforos acesos em ritual de sede. A negra Vergonha, coleccionadora de estórias, escondia a uva esmagada (fugia dos fósforos) (apaga-os com a língua). E o petróleo quase lume, de tanto tesão. O calor da chama conduz a boca até ao vinho. Sabes dele, malte de quê, dá-me um bocadinho. Meninas com cebolas nas mãos e lágrimas nos olhos corriam para braços, tropeçavam antes do aperto (corpo-contra-corpo) e meninas com sangue e cebolas picadas pelo corpo abraçavam. Mas, sobretudo, queriam beber. Elas e os ninhos de homens com pernas, que aplaudiam a vergonha na súplica por um copo. Vinte e sete séculozinhos acabadinhos de fazer e toda uma vindima empacotada no desejo. As mãos recuavam, subtraíam factores de euforia, tremiam com a ausência de fumo. Dedos no cristal.
Finalmente espuma a rasgar canecas. Todos os homens desenrolam a sua tromba de elefante e sugam tudo. Os que não tinham tromba lamberam os copos poupando trabalho à doméstica que só limpou.

2.
Uma criatura de lata, com três pernas e uma gaiola de flores no antebraço direito, bebia através da guitarra clássica. É um gesto: vermelho despenteado para dentro do corpo - lugares fermentados, umbigo à mostra, bocas que o reconhecem como torneira. Há quem escreva nos sofás, palavras e buracos na pele. Vinho lá para dentro. Há quem se engane nos furos e se esconda nas palavras. Amo-te. Vem comigo. Estende-me esse olhar. És verde. Escolhem mal, por engano.
Vergonha já não está na sala. Por mais forte que seja a fechadura há sempre janelas abertas, tocas de ratos, canos de ventilação. Vergonha não está. Acabou de sair. Está frio, é um dia como os outros. A Vergonha é um exercício para sóbrios. Mas as velas vertem vinho.

6.10.05

a vulnerabilidade

um cãozinho na trela da dor de costas. O chão efregado com força, infectado. Etão todos doentes de querer andar. Em círculos que ladram, farejam e apertam - cauda na erosão dos sonhos. Olha como saltitam cegos de mãos. Como já nem querem brincar com os copos. Em círculos que apertam como os quisessem afogar.
não sei com que direito correm, de chinelo calejado pelo pé, mala amarrada ao ombro. Num passo de cada vez, várias vezes apressado. Num salto de cada vez, várias vezes até cair. Olhar de medo que morde, de mimo. Seria assim o nosso abanar de cauda, se a tivéssemos - um olhar com dentes afiados, deslocados da boca para o frio. Cegos de braços quentes, do movimento sorridente de coçar o corpo, ajeitar a blusa, enrolar o cabelo. Círculos como se quisessem voar. Garrafas de perfume abertas em prateleiras de sonho.
o cabelo cresce com sombra, esvoaça o chão das patas com pormenores de futuro. Sóis circulares - incêndios apertados - asfixias de amanhãs; infecções.
(uma vez pus um ponto final no dia e começou a chover)
quantas bocas neste dia dos que gritam?

28.9.05

Reginald Fessenden

fura a árvore, raspa o chão, amarra um fio.
ouves-me?
deita a terra, amansa a luz, acaricia.
ouves?

15.9.05

Regresso; não-regresso

Não sei se árvore, não sei se sal, não sei se fumo. Nas ondas do abraço te trepo - a tua saúde pontiaguda, ou janela azul, ou lezíria mental.
Não sonho se fico, não sonho se livro-fechado, não finjo se sonho. É a verdade.
E, no entanto, fumega.
Eu era total. Bebia dos barcos que te atravessavam os olhos; unicórnios com velas, o vento, círculos de fogo; não dormia. Não sei se ramos estalavam antes de me fintares pelas flores do sono. Árvore seca, talvez, no vermelho da terra, do vermelho sem estrada. Do trilho de um amor que não digo porque não é da natureza mofa deste dardo sem alvo; a palavra subterrânea; sem aquedutos de luz.
Não sem sal, não sei se vale o que te sonho, não sei explicar e tal. Eras distante, mas vital. Caminhas descalça como se já não houvesse mais vinho por pisar; tanto bebido; bebemos tudo? Lembras-te como engolíamos o azul para que não nos fugissem as nuvens?
E, no entanto, queima.
Os degraus são demasiado duros para dobrar, ficam mais pesados por cada lata que cai; pedra impermeável com buracos de lágrima.
Não sei se luto, não sei se branco de desistir. Bala de pânico, canudo apontado à testa, revolver faminto - sistemático-nulo.

25.8.05

Para que escreves homem da dor?
o caminho é estreito e os batedores municipais já estão fartos de o avisar:
nem para escrever nem para cagar. Na via pública não te deixamos sentar.
E ele: olha: lê o que escreve em voz: era como se cagasse - era merda que escrevia.
Daquela que faz chorar e sorrir
e depois se rasga.
por lei.

9.8.05

Esta é uma profissão filha da puta!
Roupa suja pelo pó, pelo verniz, por todos os inflamáveis que partilham o ar. Não é para respirar. Usa a máscara para que não morras já. Móveis para trás e para a frente. Aqui trabalha-se, há mesmo quem trabalhe todo o ano e é bom que se saiba. Quem chegue ao fim do dia e se contente com um chuveiro. Com um cigarro fumado À pressa. Livros ler? E o tempo para cozinhar, quem o inventava. Depois há a louça, a roupa, oferecer uma mão carinhosa (e só se tem duas!) a cada filho. Amo-vos pai e mãe. Amo-vos. Batalham tanto por mim. E sabe-vos tão bem aquele meio beijo que vos dou por semana.

14.7.05

Gostaria

Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento



Boris Vian
canções e poemas

9.7.05

LONDRES

Eu não sou de cá,
tenho cinco medos em cada mão
mas não sou de cá.

Sou daquela ceara de trigo,
de profundo silvado
ou matagal.

Sou do frio dos Invernos,
da caverna submersa pela luz
dos lagos eternos de Pompeia.

Sou dos bicos dos melros,
da asa partida da andorinha que falhou o voo,
e dos muros de Trancoso que não a deixaram passar.

Sou do tempo dos beijinhos,
da pólvora como lixo,
dos sete dias excelsos de masturbação.
Das águas engolidas pelos peixes,
por que mão,
por que não?

Sou do santuário onde se rezam páginas em branco
e se agradece aos sonhos do irmão.

Sou um fascista do Islão,
quero a morte,
não o pão.

Sou de lá.
Tenho cinco bombas em cada dedo,
porque não sou de cá.

20.6.05

ATOM HEART MOTHER

São gargantas de vento,
um ããhhhhhhhhhh ãáhhhhhhh tornado ar.
Respira, o silêncio respira-te e tu és silêncio com ele.
Um ããhhhhhh aahhhhhhh invocando mar.
Gargantas gementes, assobios de tempestade,
silêncio.

Agrafa-me a luz no peito,
guarda-me em fotocópias de céu.
São Sim, tetizadores gritantes, são sim.

Violências forradas a vermelho,
Brzzzz!
Respirar fundo.

E pelas caixas de seda entrincheiradas nos teus ombros solto a primeira tribo de medos.
Bicos de pés, fornalha acesa, perseguição: palavra anula palavra, comboio fora de circulação, urso parvo contemplativo adjectivado.
Épico sol-i-dão instrumental nas asas de um vulcão. Epicentro de chuva, esse magma, tanta lava, atravessado no credo, encharcado de lama.
Acabaremos todos lá fora, morreremos todos nus no êxtase da nossa canção,
acabaremos todos, concretizar na morte a complexidade da luz,
findaremos todos a cantar:
um ããhhhhhhhhhh ãáhhhhhhh tornado ar.

16.6.05

Tenho o teu retrato na mão.
Pé a pé choro os meninos do mundo
- de olhos no chão - passos tristes.
Tenho um retrato numa mão
E a lágrima de alguém na outra.

Quero ser como aquela máquina que vende o troco
a quem lhe comprar a fome.

Pé ante pé,
Quero ser um conto infantil.
Leve, azul de mar, barco flutuante.
Sem moralismos, sem noites violentas, sem a simplicidade hipócrita da luz, sem costas voltadas, sem reis e rainhas, sem príncipes bonitos, sem princesas perfeitas, sem espadas mágicas (como se alguma arma pudesse estar submersa no encantamento), sem bocas de hidrogénio.

Quero o silêncio de uma criança amada.
Ser conto infantil numa alma
Que semeia amor nas outras.

13.6.05

Adeus, amigo das palavras que nunca se gastarão




Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.


Eugénio de Andrade