28.9.05

Reginald Fessenden

fura a árvore, raspa o chão, amarra um fio.
ouves-me?
deita a terra, amansa a luz, acaricia.
ouves?

15.9.05

Regresso; não-regresso

Não sei se árvore, não sei se sal, não sei se fumo. Nas ondas do abraço te trepo - a tua saúde pontiaguda, ou janela azul, ou lezíria mental.
Não sonho se fico, não sonho se livro-fechado, não finjo se sonho. É a verdade.
E, no entanto, fumega.
Eu era total. Bebia dos barcos que te atravessavam os olhos; unicórnios com velas, o vento, círculos de fogo; não dormia. Não sei se ramos estalavam antes de me fintares pelas flores do sono. Árvore seca, talvez, no vermelho da terra, do vermelho sem estrada. Do trilho de um amor que não digo porque não é da natureza mofa deste dardo sem alvo; a palavra subterrânea; sem aquedutos de luz.
Não sem sal, não sei se vale o que te sonho, não sei explicar e tal. Eras distante, mas vital. Caminhas descalça como se já não houvesse mais vinho por pisar; tanto bebido; bebemos tudo? Lembras-te como engolíamos o azul para que não nos fugissem as nuvens?
E, no entanto, queima.
Os degraus são demasiado duros para dobrar, ficam mais pesados por cada lata que cai; pedra impermeável com buracos de lágrima.
Não sei se luto, não sei se branco de desistir. Bala de pânico, canudo apontado à testa, revolver faminto - sistemático-nulo.

25.8.05

Para que escreves homem da dor?
o caminho é estreito e os batedores municipais já estão fartos de o avisar:
nem para escrever nem para cagar. Na via pública não te deixamos sentar.
E ele: olha: lê o que escreve em voz: era como se cagasse - era merda que escrevia.
Daquela que faz chorar e sorrir
e depois se rasga.
por lei.

9.8.05

Esta é uma profissão filha da puta!
Roupa suja pelo pó, pelo verniz, por todos os inflamáveis que partilham o ar. Não é para respirar. Usa a máscara para que não morras já. Móveis para trás e para a frente. Aqui trabalha-se, há mesmo quem trabalhe todo o ano e é bom que se saiba. Quem chegue ao fim do dia e se contente com um chuveiro. Com um cigarro fumado À pressa. Livros ler? E o tempo para cozinhar, quem o inventava. Depois há a louça, a roupa, oferecer uma mão carinhosa (e só se tem duas!) a cada filho. Amo-vos pai e mãe. Amo-vos. Batalham tanto por mim. E sabe-vos tão bem aquele meio beijo que vos dou por semana.

14.7.05

Gostaria

Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento



Boris Vian
canções e poemas

9.7.05

LONDRES

Eu não sou de cá,
tenho cinco medos em cada mão
mas não sou de cá.

Sou daquela ceara de trigo,
de profundo silvado
ou matagal.

Sou do frio dos Invernos,
da caverna submersa pela luz
dos lagos eternos de Pompeia.

Sou dos bicos dos melros,
da asa partida da andorinha que falhou o voo,
e dos muros de Trancoso que não a deixaram passar.

Sou do tempo dos beijinhos,
da pólvora como lixo,
dos sete dias excelsos de masturbação.
Das águas engolidas pelos peixes,
por que mão,
por que não?

Sou do santuário onde se rezam páginas em branco
e se agradece aos sonhos do irmão.

Sou um fascista do Islão,
quero a morte,
não o pão.

Sou de lá.
Tenho cinco bombas em cada dedo,
porque não sou de cá.

20.6.05

ATOM HEART MOTHER

São gargantas de vento,
um ããhhhhhhhhhh ãáhhhhhhh tornado ar.
Respira, o silêncio respira-te e tu és silêncio com ele.
Um ããhhhhhh aahhhhhhh invocando mar.
Gargantas gementes, assobios de tempestade,
silêncio.

Agrafa-me a luz no peito,
guarda-me em fotocópias de céu.
São Sim, tetizadores gritantes, são sim.

Violências forradas a vermelho,
Brzzzz!
Respirar fundo.

E pelas caixas de seda entrincheiradas nos teus ombros solto a primeira tribo de medos.
Bicos de pés, fornalha acesa, perseguição: palavra anula palavra, comboio fora de circulação, urso parvo contemplativo adjectivado.
Épico sol-i-dão instrumental nas asas de um vulcão. Epicentro de chuva, esse magma, tanta lava, atravessado no credo, encharcado de lama.
Acabaremos todos lá fora, morreremos todos nus no êxtase da nossa canção,
acabaremos todos, concretizar na morte a complexidade da luz,
findaremos todos a cantar:
um ããhhhhhhhhhh ãáhhhhhhh tornado ar.

16.6.05

Tenho o teu retrato na mão.
Pé a pé choro os meninos do mundo
- de olhos no chão - passos tristes.
Tenho um retrato numa mão
E a lágrima de alguém na outra.

Quero ser como aquela máquina que vende o troco
a quem lhe comprar a fome.

Pé ante pé,
Quero ser um conto infantil.
Leve, azul de mar, barco flutuante.
Sem moralismos, sem noites violentas, sem a simplicidade hipócrita da luz, sem costas voltadas, sem reis e rainhas, sem príncipes bonitos, sem princesas perfeitas, sem espadas mágicas (como se alguma arma pudesse estar submersa no encantamento), sem bocas de hidrogénio.

Quero o silêncio de uma criança amada.
Ser conto infantil numa alma
Que semeia amor nas outras.

13.6.05

Adeus, amigo das palavras que nunca se gastarão




Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.


Eugénio de Andrade

10.6.05

Não gosto que me digam "o violino de trás está mal, faltam-lhe duas notas" quando estou apaixonado por uma melodia.

4.6.05

Nunca falho uma visita à Lua



Os dias choram e cada um deles é mais prateado que todos os outros. O arco-íris do tempo une todas as lágrimas pelo cordão umbilical - vêm da liquidez dos sonhos, vão dar em mar. São uma família flutuante que avança por espasmos, à superfície. De que lhes servem os corpos se a alma não está completa?
O homem-fuga é um quadrado com rodas sempre a chocar contra toda a gente nas dentuças dos passeios. De que lhe serve o corpo? Por que se servem dele? Acredito que use as mãos mal se esqueça não ser nuvem. Quer jorrar vida, fazer chover sobre os muros a límpida rede de cores. Roubar à pangeia do choro o sal das lágrimas audazes. Ser homem arqueado em direcção à lua.

30.5.05

"Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!
Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!
Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!
Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!"

Toranja, Ensaio

27.5.05

Se já nem os muitos dígitos dos números conseguem incomodar a ausência-de-alma que desfolha o jornal, então que uma dor personalizada arrepie a percentagem de humanidade que lhes sobra. Não basta o "coitadinhos", ajudem-me a encontrar o que basta.
Lágrima-dor.



Os pobres de Pequim
Mãe e filho dormem nas ruas de Pequim. A poucos dias da celebração do Dia Mundial da Criança, as autoridades chinesas estimam que muitos milhões de crianças chinesas continuam a viver na pobreza.
(Foto: Michael Reynolds/EPA)

Humanidade. Mais uma vez aqui.

24.5.05

Feliz por te voltar a ver, Tom.



Avisa-se toda a tripulação que me encontro, depois da próxima vírgula,
completamente fora-de-serviço para a vida adulta. Complementa-se o comunicado, adicionando-se-lhe a confirmada informação: extenderei a minha vontade de criança por mais algumas árvores de vida e apresentar-me-ei à sociedade "sempre descalço". Como tu, Tom Sawyer.
Como tu.

16.5.05

Borboletas para colorir cinzentos

Há, de longe a longe, pequenos bater de asas que me fazem sentir uma pontinha de orgulho na minha terra. Neste post sou bairrista. Sou de Paredes.
Tudo por causa disto. Um encantado(r) Concurso de Borboletas. Hei-de ajudar o meu sobrinho a ganhar, hei-de ajudá-lo a voar.
Queria.