14.7.05

Gostaria

Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento



Boris Vian
canções e poemas

9.7.05

LONDRES

Eu não sou de cá,
tenho cinco medos em cada mão
mas não sou de cá.

Sou daquela ceara de trigo,
de profundo silvado
ou matagal.

Sou do frio dos Invernos,
da caverna submersa pela luz
dos lagos eternos de Pompeia.

Sou dos bicos dos melros,
da asa partida da andorinha que falhou o voo,
e dos muros de Trancoso que não a deixaram passar.

Sou do tempo dos beijinhos,
da pólvora como lixo,
dos sete dias excelsos de masturbação.
Das águas engolidas pelos peixes,
por que mão,
por que não?

Sou do santuário onde se rezam páginas em branco
e se agradece aos sonhos do irmão.

Sou um fascista do Islão,
quero a morte,
não o pão.

Sou de lá.
Tenho cinco bombas em cada dedo,
porque não sou de cá.

20.6.05

ATOM HEART MOTHER

São gargantas de vento,
um ããhhhhhhhhhh ãáhhhhhhh tornado ar.
Respira, o silêncio respira-te e tu és silêncio com ele.
Um ããhhhhhh aahhhhhhh invocando mar.
Gargantas gementes, assobios de tempestade,
silêncio.

Agrafa-me a luz no peito,
guarda-me em fotocópias de céu.
São Sim, tetizadores gritantes, são sim.

Violências forradas a vermelho,
Brzzzz!
Respirar fundo.

E pelas caixas de seda entrincheiradas nos teus ombros solto a primeira tribo de medos.
Bicos de pés, fornalha acesa, perseguição: palavra anula palavra, comboio fora de circulação, urso parvo contemplativo adjectivado.
Épico sol-i-dão instrumental nas asas de um vulcão. Epicentro de chuva, esse magma, tanta lava, atravessado no credo, encharcado de lama.
Acabaremos todos lá fora, morreremos todos nus no êxtase da nossa canção,
acabaremos todos, concretizar na morte a complexidade da luz,
findaremos todos a cantar:
um ããhhhhhhhhhh ãáhhhhhhh tornado ar.

16.6.05

Tenho o teu retrato na mão.
Pé a pé choro os meninos do mundo
- de olhos no chão - passos tristes.
Tenho um retrato numa mão
E a lágrima de alguém na outra.

Quero ser como aquela máquina que vende o troco
a quem lhe comprar a fome.

Pé ante pé,
Quero ser um conto infantil.
Leve, azul de mar, barco flutuante.
Sem moralismos, sem noites violentas, sem a simplicidade hipócrita da luz, sem costas voltadas, sem reis e rainhas, sem príncipes bonitos, sem princesas perfeitas, sem espadas mágicas (como se alguma arma pudesse estar submersa no encantamento), sem bocas de hidrogénio.

Quero o silêncio de uma criança amada.
Ser conto infantil numa alma
Que semeia amor nas outras.

13.6.05

Adeus, amigo das palavras que nunca se gastarão




Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.


Eugénio de Andrade

10.6.05

Não gosto que me digam "o violino de trás está mal, faltam-lhe duas notas" quando estou apaixonado por uma melodia.

4.6.05

Nunca falho uma visita à Lua



Os dias choram e cada um deles é mais prateado que todos os outros. O arco-íris do tempo une todas as lágrimas pelo cordão umbilical - vêm da liquidez dos sonhos, vão dar em mar. São uma família flutuante que avança por espasmos, à superfície. De que lhes servem os corpos se a alma não está completa?
O homem-fuga é um quadrado com rodas sempre a chocar contra toda a gente nas dentuças dos passeios. De que lhe serve o corpo? Por que se servem dele? Acredito que use as mãos mal se esqueça não ser nuvem. Quer jorrar vida, fazer chover sobre os muros a límpida rede de cores. Roubar à pangeia do choro o sal das lágrimas audazes. Ser homem arqueado em direcção à lua.

30.5.05

"Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!
Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!
Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!
Transforma o fraco em coisa forte e tudo se renova...!"

Toranja, Ensaio

27.5.05

Se já nem os muitos dígitos dos números conseguem incomodar a ausência-de-alma que desfolha o jornal, então que uma dor personalizada arrepie a percentagem de humanidade que lhes sobra. Não basta o "coitadinhos", ajudem-me a encontrar o que basta.
Lágrima-dor.



Os pobres de Pequim
Mãe e filho dormem nas ruas de Pequim. A poucos dias da celebração do Dia Mundial da Criança, as autoridades chinesas estimam que muitos milhões de crianças chinesas continuam a viver na pobreza.
(Foto: Michael Reynolds/EPA)

Humanidade. Mais uma vez aqui.

24.5.05

Feliz por te voltar a ver, Tom.



Avisa-se toda a tripulação que me encontro, depois da próxima vírgula,
completamente fora-de-serviço para a vida adulta. Complementa-se o comunicado, adicionando-se-lhe a confirmada informação: extenderei a minha vontade de criança por mais algumas árvores de vida e apresentar-me-ei à sociedade "sempre descalço". Como tu, Tom Sawyer.
Como tu.

16.5.05

Borboletas para colorir cinzentos

Há, de longe a longe, pequenos bater de asas que me fazem sentir uma pontinha de orgulho na minha terra. Neste post sou bairrista. Sou de Paredes.
Tudo por causa disto. Um encantado(r) Concurso de Borboletas. Hei-de ajudar o meu sobrinho a ganhar, hei-de ajudá-lo a voar.
Queria.

14.5.05

Amigo nocturno



Ele foi, em tempos, apenas um menino mais velho que eu encontrava sempre de copo na mão e brilho ofuscante no olhar. Não poucas noites, a única pessoa em quem reconhecia a rara faculdade de saber sorrir-com-alma-inteira, estar atento aos que passam, acenar com pureza. E nesta noite, às muitas horas da manhã, aconteceu uma conversa encantada que, à minha maneira, resumo assim:
"preferes vinho ou cerveja?"
Prefiro que me enchas a tela com palavras, com os teus poemas preferidos. Tu que agora, para além de seres isto comigo, és aquele que lança com ansiedade a luz o teu poema preferido para o meio da aparente escuridão de uma conversa nocturna. Este, de João Saraiva:

Passo a passo

"Sou alta - diz a Amizade
Sou profundo - diz o Amor
E lembram bem, na verdade
Montanha e Vale ao sol-pôr
E antes que o Sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o Vale
E ainda há sol na Montanha!"


És aquele que me obriga a derreter nas atordoadas palavras "muito muito muito muito bonito". És medo da solidão, do fim da lua e dos sonhos. E se eles não voltam, e se a lua se deixa aprisionar pelo cronómetro da dor? És aquele que procura e dá ombro. És o que diz "Foda-se! Ainda aqui estou! Venham agora...". Há maduro tinto alentejano para as solidões. És o que o oferece. Curas. Um poeta à direita, afinal também gosto de poetas à direita. És, mais uma vez, um segundo poema fulgurante que rasga com flores a conversa. De Pedro Homem de Mello, este:

Felicidade

Ó infinita consolação
De haver chorado
Algumas vezes!


Ele é, agora, o "eterno apaixonado por poesia". Já o sei. Ele é agora em mim qualquer coisa muito bela muito mais próxima da alma que realmente é. Ele alimenta as conversas com poemas e sonhos de abraços. Eu termino este texto (para ele) com promessas de presença e com mais um fantástico poema que me ofereceu. Há noites assim. Que não deviam acabar. Que deviam ser como na tela de Francisco Duarte Mangas:

"Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes

a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores."


Amanhã há mais sonhos por comer. E mais tempo para amar. Obrigado, amigo. Prefiro os poemas que me deixas. E o vinho dos amanhãs.

13.5.05

Chove



Gosto da chuva como quem acaricia um cão com pulgas no meio da rua. Abro os braços e vem-chuva-matar-com-o-vírus-do-prazer. Grito para os céus.
Mas, porque gosto muito de animaizinhos, queria mesmo era que chovessem gatos peludos lá do cimo do monte, por cima das nuvens, onde só habitam os reis das chuvas. E as rainhas, responsáveis por derrames de arco-íris.
Gosto das chuvas de fria e cândida gota.

ilustração: "Mulheres na chuva" de Alice Candeias Ambrosini

9.5.05



Haverá diferenças:
Um. É delicioso carregar um amigo às costas, pesado com os seus fantasmas de alcóol, às 8 da manhã junto ao Mar quase-beija-Porto. O Mar que amanhace em faces cansadas de tanto beber, de tanto biber. É inspiradora a travessia de sono e desejo que se arrasta (pés no chão, sonhos no horizonte) nos passos de exílio da Queima das Fitas do Porto.
O Porto é único ninho onde me permitem amar a minha solflor.

Pássaro-bati-asas-para-aqui. Para o aqui definitivamente sol de Braga.

Dois. É assutador que nenhum amigo me carregue às costas, fantasma só com copos em dívida, e que o caminho se arraste pelas ruas improvisadas, asfixiadas pelos monstros gigantes com portas e janelas. São de medo e de tédio os pensamentos do homem que queria sonhar. É inaceitável que não beba o suficiente para que possa ignorar a dor de mais um dia que vou falhar, dos tão carenciados alguéns a quem vou faltar. Às 8 da manhã, nem-um-rio, a sair do Enterro da Gata de Braga.
Braga é ser extraterrestre na única morada que tenho. É estar proibido de amar, sem nunca ter percebido porquê.
Haverá sempre.


ilustração: "Solflor" de Franco A. Stancato

4.5.05

O tão profundo BENFICA que há em mim



Era um menino tímido e estava lá. Arrepiado e surpreendido e com lágrimas no rosto. Nunca tinha pensado como a força colectiva, quando está feliz, pode ser tão divina. Era ainda no tempo dos 120 mil num Estádio. Na Luz de todas as glórias. Estávamos no ano de 1994 e o BENFICA era CAMPEÃO. Zero a zero contra o vitória de Guimarães. Quem queria saber. Estavam em campo todos os golos marcados ao longo da época. Estavam em campo as "papoilas saltintantes" e os seis golos marcados ao Sporting, em Alvalade. Estavam João Pinto, Vitor Paneira, Rui Costa, Schwartz, Mozer, Veloso, Isaías, Rui Águas. E eu chorava de tão feliz. De tão arrepiado. Bandeira às costas a gritar para a grande onda vermelha que a Luz sempre foi. O BENFICA era CAMPEÃO e fiz todos os quilómetros de regresso a casa com um sorriso nas lágrimas dos olhos. Ser Benfiquista é doença mortal. A fase terminal de estar sempre a sonhar com o vermelho na alma.
Ainda sou um menino e não mais vi o BENFICA CAMPEÃO, não mais chorei tanto e tão profundo. Mas sempre ergui a bandeira, vesti a camisola com orgulho. Fomos sempre os melhores em Amor à "chama imensa", sempre tivémos um "orgulho muito nosso".
Sou um menino pequenino e estamos no ano de 2005. Tem que ser desta, tem que ser. Porque este menino quer muito chorar de arrepios, quer muito saltar com toda a alma. Quer ver vermelho pintado pelas ruas.
Este ano este menino chorará.