22.2.05

Hakuna Matata


Hoje sou o Sr. Vários-problemas-por-resolver que perdeu o B.I. num distante passeio molhado.
- Pela chuva, pela chuva!
Muito bem, seja: num distante passeio molhado pela chuva.
Hoje poderia bastar dizer como vos amo para que se resolvessem, para mais chuva com raiva de amor. Não chega.
- Para que chova bonito, para que chova bonito!
Como queiras: dizer que vos amo não chega para que chova bonito.
- "Os teus problemas são para esquecer...".
Não preciosos Timon e Pumba, Não.
Os meus problemas são para resolver.

15.2.05

CANÇÃO PARA A MINHA FILHA ISABEL ADORMECER QUANDO TIVER MEDO DO ESCURO

Nem sombra nem luz
Nem sopro de estrela
Nem corpinhos nus
De anjos à janela
Nem asas de pombos
Nem algas no fundo
Nem olhos redondos
Espantados do mundo
Nem vozes na ilha
Nem chuva lá fora
Dorme minha filha
Que eu não vou embora

António Lobo Antunes

14.2.05

Deontologia da Comunicação (fim de um ciclo)


Havia a alternativa Oeste, uma toalha rasgada com buracos do tempo, sinergias a todos que correm na alucinação das hélices como cães agarradas ao cadeado em círculos de inquietação enquanto aguardam os restos como eles. Respira. Ou continuava doente ou se limpava a ela-já-podre.
fazia-se um poemas, assim:

Noite-clara, noite-escura,
como estão os teus amores?
com quem andas agora que não é manhã?
Noite-densa, noite-leve,
com que roubos sonhas hoje?

Mas isso não era alternativa nenhuma, por isso não interessa. Depois de não se conseguir tomar qualquer decisão, prosseguia a ritual. Pisavam-se os pássaros com as asas nos pés, esmagavam-se sonhos de voar, eliminavam-se as espécies poluidoras do oxigénio com a fantasia dos tolos e pronto. Era essa a doença.
Queremos as tuas mãos para lançar sementes ao mar.
Toalha salgada com buracos do vento, moelas a cinquenta marés de eufórica agonia o quilo e isso é que era dramático: ele tinha alternativas e podia ter escolhido.
Mas desistiu.

4.2.05

Língua Espanhola


"En todo caso, había un solo túnel, oscuro y solitario: el mío."
Ernesto Sábato
[Com José Afonso que bem se estuda espanhol]
Creo que no dices la verdad. Las cartas que mandes las guardaré.
- No te permito que me ables así!
Hay ruido en el piso de abajo.
- Te prohíbo!
Hablas demasiado. Gastas un montón de palabras en nada.
"El inventor de "cosa" tenia razón. Faltaba en el diccionario un vocablo que nos informara de que los demás sobraban."
E pronto.

31.1.05

História e Semiótica das Artes Visuais

Arte: ou personalidade artística: aquele instante preciso em que os dedos deixam de sentir.
Vou comprar um casaco cor-de-mãe para nunca mais ter medo. Pintar esta ideia.
A maior das artes consiste no viver feliz. Juro que li esta frase em algum lado. Juraria. Também Modigliani se enterneceu pelos anjos caídos, apagou-lhes a aura, desenhou-os com cérebro.
"Um pintor autêntico tem o seu modo de imaginar que descobre um mundo novo", é certo.
O que escreve também.
O que escreve em colapso, apaixonado, também.

25.1.05

Telemédia


Arco-ironizou: há um conteúdo léxico, uma aparência e o que se injecta na realidade com pensamentos. Até porque, todos sabemos, a lógica ISO-8859-8 (hebráica) é raínha, mãe, raíz material - o vermelho carne fibra inflamada. Gritos em arco. Mais bits de insuficiência. E, diga-se com sinceridade, puta que os pariu. Eufemismo inteligente para evitar as malcriadices que aptece escrever.
Depois encostou-se lá a um canto e pronto.
La la la la uh! acabou tudo no Moulin Rouge com as carcaças duras sem dinheiro de regresso à máquina de escrever, pura, sem as merdices do multi-mérdia.

17.1.05

Sociologia da Comunicação



Bomba-relógio do tempo, explosão a cada minuto que passa. Não é nada, é só isso: o tempo. Chegou a hora disto e tempo daquilo - ai! como o daquilo passa!, está na disto de partir - o autocarro sinteticamente chega sempre a daquilo, embora às vezes se atrase nos distos. É a vida. Bomba-minuito do tempo, explosão a cada relógio que passa. É o comboio: gente anónima entra sai ou fica. A massa, geração relógio do transporte público das quinze e cinquenta e sete. Os relógios são para cumprir, meus senhores, e as regras para serem acertadas por eles. Regra tal, marcar para as doze e vinte nove, obrigação qual para as treze e cinquenta e três. Tal e qual o relógio, caras massas-homem de Tóquio ou de Barroselas.
Cada movimento seu ponteiro, já dizia o meu avô.
tic tac tic tac tic tac tic tac.

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Potencial cliente número 65870495. Perfil:

Senhor José Boné:
Bem vestido,
pindericamente penteado,
acredita no Pai Natal mas não na retoma económica,
pequena cicatriz no mindinho do pé direito mas ainda mexe ambas as pernas,
dois filhos (uma criança na idade do a e i o u e outra no Estádio sensório-motor segundo Jean Piaget, ambas do sexo masculino [potenciais consumidores de lâminas ou máquinas de barbear]),
nunca efectuou o Teste Projectivo de Porschach,
viaja três vezes por semana em transportes públicos,
disfruta da amizade de três vegetarianos e quatro esfomeadas por carne,
fastfood dia sim dia não,
carrega caixas de uma lado para o outro numa grande superfície comercial,
não se lembra de ter visto o por do sol e desconfia-se que confunda José Régio com uma marca de Bacalhau,
já não come iogurtes nem compra para os filhos porque é divorciado e esses estão sob tutela da mãe,
não pensa voltar a casar ("mais mulheres não, mais mulheres não!"),
sonha com hospitais e partos porque, diz-se, tem um exemplar do "Maternidade" de Almada Negreiros pendurado nas paredes do quarto,
fuma? às vezes sim, às vezes não,
paga renda da casa,
não tem carro e raramente roupa lavada,
penteado risca ao meio com salientes entradas para a progressão da calvice,
sonha com hospitais e com os filhos que deixou de poder visitar,
embebeda-se frequentemente (não esquecer: enviar informação à União Cervejeira e à Rota dos Vinhos) porque, sustenta-se, há um exemplar da pintura "Tempo passado e presente" de Paula Rêgo junto à lareira e ao sofá onde (às vezes não, às vezes sim) fuma e adormece (vender-lhe almofadas novas),
lê jornais,
homem sem idade,
ex-jogador de hóquei em patins no Desportivo das Andorinhas,
sofre de pânico de morrer só, de sofrer sozinho

e é o perfil perfeito para potencial cliente para os nossos produtos que são, bem feitas as contas, o mais importante de tudo. Faz-se uma piada, duas ou três imagens bonitas, um sorriso e ele compra. Nem que tenha que vender o que lhe resta da alma, ele compra.

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10.1.05

Plantaçã0 67##773

Eu até plantava. Mas já nem sei.
Às vezes somos egoístas,
às vezes é mais fácil colher,
às vezes o silêncio não sabe mesmo falar,
às vezes somos sombra.
Eu até já nem sei. Mas planto.

Semeador
Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram as aves do céu, e comeram-na. Outra parte, porém, caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra; e logo nasceu, porque não tinha profundidade de terra. Mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou. Outra parte caiu entre os espinhos; e cresceram os espinhos, e a sufocaram. Outra parte enfim caiu em boa terra e frutificou; uns grãos renderam cem por um, outros sessenta, outros trinta. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
(Evangelho segundo Mateus, capítulo 13, versículos 3 a 9)

7.1.05

História do século XX

"Avante a nação!", distinguiu mãos de lençóis antes de gritar acordado. Já sabe de cor os movimentos: arranhar a perna com as unhas do outro pé, sentir o arrepio do medo na superfície da pele e deixar-se empurrar pelo pesadelo borda da cama abaixo. Sonhou a nação, queimou com nojo a caneta de Molotov Van Ribberntrof, evadiu-se para o alto Mar, cuspiu sangue e pedras dos rins, as mais pequenas e por isso mais livres e soltas sem qualquer compromisso irrescindível com o sistema linfático, queimara com nojo a caneta numa fogueira de cães é importante que se diga, reclamou com os tubarões sem fome, comeu-os, rompeu unilateralmente insensata fidelidade, "a grande mãe pátria", unha partida de tanto a perna sangrar, gritou acordando. Qual é o mal de morrerem, eles são tantos. Névoa, luz vaga, foi a 8 de Maio, penso. Quarenta e cinco mortos. Não, anos. Não sei bem. O sangue não estanca apesar de bem acordado, fora da cama, pés descalços no chão frio, barata feia dentro de um chinelo, Hiroshima fica na China ou na Indochina, calça-o, caminha esmagando-a, levanta a tampa da sanita, urina salpicando tudo de mijo, ou então a 6 de Agosto. Mais vítimas. Ou o mesmo ano. Não sei bem, não me consigo lembrar de tudo, um homem não é uma máquina, deixem-me em paz, o está-se bem social pois claro, evadiu-se para o alto Mar, reparou a rede de pesca cheia de buracos, envolveu-se nela, faz frio muito frio e a rede, nunca se sabe, pode ser quente, enrolou uma ligadura bem apertada no sítio da ferida, chorou,
"Cortina de ferro", distinguiu lágrimas salgadas da água do mar antes de adormecer gritando. Soluçou adormeido, restos de comida e o nome Vitor Emanuel III vieram-lhe à boca, o problema logo se resolveu na magistral sequência de arrotos que se lhe seguiu, dormia - medo a seu lado. Livro de História no chão.

29.11.04

Trombar II

Resta-nos ainda tinta (para a "Paixão")?
Também eu gosto de desenhar palavras: letra a letra, uma após outra. Enchê-las de curvas, de insuportável elegância.
Paixão é o nome que os meninos chamam aos amigos-elefantes quando não os têm.
Os dias consavam-se ("Mãe, porque desaparece o sol sempre que o tento abraçar?") e lá vinha, operária descalça, a Noite. Era um menino que na dimensão de sonhar atirava bolas ao ar: tentava acertar em estrelas e astros com trombas.
As noites cansavam-se ("mãe, porque não me acordas com um abraço?") e surgia, renovado de boné roto, o Sol. E a mãe-pós-pergunta é toda lágrima: um triste mar arrastando-se pelas pedras da casa, a mãe-sem-resposta.
Era só um elefante que ele queria, Pai distraído que apenas mosquito lhe deste; Pai que entras na história e, talvez por isso, não a sabes ler.
"Quando for grande? Quem disse que alguma vez vou querer ser grande, professor?". E afinal não os havia na sala de aula. "Estou é cansado de ser só".
Campaínha: o seu toque siginficava que, lá fora, o mar se misturava com o nevoeiro. Cinco da tarde. E que as pessoas que fingiam não existir nessa altura não existiam mesmo. Algo que só as gaivotas sabem: voar, bater asas exaustivamente, fechando círculos com curvas: as mesmas com que desenham palavras, letra a letra, lágrima pós outra.
Resta, menino doce. Resta-nos.

26.11.04

Trombar




Vou contar uma história. É uma mania que tenho. Peço desculpa por isso, mas vou contar uma história.
Ele tinha seis anos e brincava com três brinquedos. Apenas três brinquedos desde os quatro anos. Uma bola, uma bola mais pequena e um Fiat Panda em miniatura já sem rodas. Nunca lhe deram outros e era com esses três que brincava. Observava-os insistentemente, dia após dia, imaginando um elefante. "Não consigo, nunca conseguirei!" e começava a espalhar pela terra castanha lágrimas tão tristes e tão livres que o deixavam rodeado por famílias inteiras de arco-íris. Queria fundir os três brinquedos num só: queria construir um elefante: queria que alguém lhe respondesse quando falava sozinho: queria um amigo. Ele que falava tantas vezes para ninguém. O eco ãe ãe ãe ãe ãe ãe ãe era a única resposta que obtia da questão, ainda multicolor, "Onde está a Mãe?". Estava no Mercado. A vender fruta da qual só comia a versão podre.
Brincava com três brinquedos e tinha seis anos. No papel da matrícula para a escola tentava desenhar elefantes e suspirava. Imaginava a sala de aula cheia de trombas e orelhas gigantes. O professor como o elefante maior e com roupa de circo. "Não consigo, nunca consiguerei!" e logo o socorriam arco-íris. No papel apenas desenhos de gravatas e fatos-de-casamento ("Mãe, o pai casa-se todos os dias?") porque se lembrava, não se esquecia do pai. ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai, "Onde está o pai?".

*** continua ****

18.11.04

Até Sempre, Haddock

Acabaram-se os nicks. Nada contra. Nada a favor. Sou quem sou, com um nome. E é com esse que vou assinar. Sempre. Sem máscara. Mas repito: Acabaram-se os nicks: Nada contra. Nada a favor.
Até sempre, Haddock.
Agora eu.

15.11.04

Título? não quer ter.

É salgada? Talvez seja. Sei que quer tanto, que foge de todos porque os quer tanto. É um lugar diferente, esta lágrima que gemo. Porque não acontece mais o que aconteceu tudo tão depressa. Podia ser uma questão, mas já não tenho paciência para essa dor, para as inconscientes demagogias de teclado que já nem eu, o próprio autor o genial criador de olhares fora-do-prazo de raivas com vontade de me matar, controlo. Já nem sei quem fala por mim. Sei que palavras e o não saber para onde ir. E depois choro. Talvez seja salgada mas agora é a solidão. E a fragilidade descendo-me na face. Rosto-rio de tanto amor, uma música mais afiada, lâmina cortante, Sigur Rós por exemplo, e é ver-me patinar nas valas-comuns, nestes fragmentos que não sei, na vontade de tudo geralmente espremida em fuga. Como as laranjas e as cebolas que choram as donas de casa. Eu choro sal e a inevitabilidade de desaparecer no Mar. Choro Fado e aguardo pacientemente a asfixia, das cordas de guitarra, dos portos de desabrigo, ou do fundo desse poço onde me encontras sem me ver. Talvez não seja salgada,
mas bem próxima do fim,
a lágrima que eu
(o génio, uma porcaria de nada, autor vomitando palavras, o sujo)
não sabendo o que dizer,
prefiro chamar de puta e imaginar de salto alto e saia pelo pescoço, descendo-me na face e queimando-a. Como lava de um vulcão no seu décimo terceiro enfarte.
Porque, sim, tudo indica que seja salgada. E que volte.

4.11.04

Sobre George W

Temos vencedor, é ele: o grande. Ele disse: agora é que é. A democracia não é o caminho para a liberdade. Perdão... ou melhor, a democracia é isso que não consegui dizer, ou que disse, em nome disso. E logo se agitaram bandeiras, entre gritos histéricos e cérebros lavados. Deus não os abençoou porque anda a dormir. Porque, coitados, bem estavam a precisar.
Era um elefante e um burro. O Eminem (esse exemplo de consciência social) estava contra tudo mas queria votar, o Kerry não estava certo de querer ganhar. O seu grande trunfo era, precisamente, o facto de não ser o Bush. Mas de nada lhe valeu. O Burro não foi capaz de dar o coice.
Temos vencedor. É o fim. Os Homens estão doentes, crescem demasiado, batem com a cabeça no tecto, ficam com galos de corrupção e mais vampírica sede de poder.
Aprisionaram-nos, é o fim.