24.2.10
«Fazíamos teatro para arranjar dinheiro para as coisas»
Eu digo: "Vale" ou o impossível em palco ou uma estátua para Madalena Victorino ou Isto é o espectáculo da minha vida.
«Águas das fontes calai/ Ó ribeiras chorai...»
«Concerto (cerca de uma hora) de Zeca Afonso no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em Janeiro de 1983». Comprei bilhete aqui.
22.2.10
O nosso primeiro Rilke

(...)
«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade.»
(...)
Rainer Maria Rilke, Primeira Elegia de Duíno
19.2.10
Quarto Crescente
Metamorfose ambulante
«Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
Eu vou lhe dizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo»
Raul Seixas | Raul Seixas (música mais limpinha)
7.2.10
Diário?
A culpa de um homem, em caso de dúvida, começa aqui.
Quando se sente só, se acha perdido, é no passado que se deita,
aqui, onde a mãe o viu crescer com o nó de mãe no peito,
onde disse o primeiro palavrão com o pânico da desordem,
onde se engasgou para sempre cravando a estaca do seu esconderijo definitivo.
12.1.10
não dou.
é claro que isso é um homem e é óbvio que serve para alguma coisa. é isso que me dizem: ela está pesada, ainda por cima, e não há estrutura óssea que a aguente. é isso: a vida, uma vida de comboio, a brincar às viagens, distâncias, ao silêncio dos percursos.é claro que um homem se arrisca a morrer num comboio, não conhece os obstáculos, não sabe a que velocidade segue a carruagem e o local exacto onde está move-se a uma velocidade impossível para qualquer geógrafo. é: o homem que nunca está no mesmo local, não está em local algum. sei que finjo. este homem não me interessa particularmente, uso-o para ignorar os meus próprios medos.
é claro que é um homem e é óbvio que os meus medos, hoje, crescem em movimento. é isso que lhe dizem: homem, esgotas-te no teu nome de miragem – foges-te. é isso: se o amor nos esgana, não há limite para a nossa fúria.
o homem adormece na carruagem com um animal morto. é: por que choras tu, pirilampo, se foste condenado à luz. é claro que serve para alguma coisa, inútil seria escrevê-lo. é isso que me diz: fazes-me sentir uma flor, fazes-me sentir uma vassoura ou uma flor com espinhos atravessados na garganta. sentes-me? sinto o meu corpo como um país estrangeiro, diz o homem com uma guerra em marcha, dentro e fora. é isso que eu digo: todos os militares escondem a sua meninice dentro da cabeça do homem.
é isso: há homens que servem para qualquer coisa. é: e outros para os destruir.
12.11.09
Das belezas do mundo
Notícias da Sofia, da mamã e da tartaruga
«Um dia uma menina chamada Sofia completou cinco anos. E nesse mesmo dia uma fada madrinha, de seu nome Paula, ofereceu à menina uma tartaruga, verde, verdinha cor dos prados no despontar da primavera.
A essa tartaruga, que tinha o hábito de levantar-se do pequeno aquário em forma de coração, decorado com uma palmeira à sua medida, Sofia chamou “Fifi”.
Apenas um dia depois da tartaruga chegar à casa da menina e da mãe, não ainda recuperada do jet leg que foi o transtorno do transporte de uma loja de animais até à dita casa, envolta em papel de embrulho e dentro de um caixote, a menina insistiu em levar a tartaruga a passear até à casa do pai.
No reboliço que foi a viagem – Cartaxo – Azambuja – a tartaruga sofreu de amuos, traumas, medos, enjoos e virou-se de carapaça ao contrário no fundo do aquário assustando a menina que prometeu não mais levar a tartaruga em embalos de viagens “todo o terreno”.
A tartaruga está, desde então e para sempre, na imagem da menina. E mesmo num dia mais triste quando a mãe, numa crise existencial, pediu à menina desculpas pelo transtorno que é ter a menina que movimentar-se entre duas casas, que no fundo são suas, respondeu, depois de pensar um bocadinho:
“Não faz mal. Sabes, eu sou uma criança. Não sou uma tartaruga”. E abraçaram-se e adormeceram juntas. Mas sem a tartaruga...»
Ana Santiago, do Jardim de Chuva
29.9.09
Poema erjnfjdnfjdfndjfdjfdf.
Eu não quero adormecer em cima daquele banco,
Cada seta atravessada na passividade do homem,
Cada decisão errada, essa procura da casa através de um poço,
Uma lupa para ampliar o sono.
Frustrações ao alto,
Coração nos pés,
Fé nos meus.
Se somos um labirinto, haveremos de ter saída.
Um flamingo a frio, se necessário,
É a primeira vida que me aquece.
Toda a impunidade do mundo caia sobre erjnfjdnfjdfndjfdjfdf.
15.9.09
Metro-a-Metro
Mas um movimento de braços, bancos vazios, publicidade pendurada no tecto
- circula muito ar aqui.
Está frio e está calor,
adoece-se bem aqui.
Quando o nome que escrevi te chegou por carta,
não o abriste. Alguém diz:
palavras que anulam a vida num envelope fechado.
São nomes fechados, mesmo os mais belos, que se extinguem
por ignorância do mundo.
No último reduto do mundo, sonha um homem,
anestesiado e sedento de imaginação.
Amaldiçoado pelo gelo, em chamas no interior das raízes,
é uma flor.
São mais as gravatas que os homens no tornado da Avenida Nova.
E por maior que seja o santo, há sempre uma árvore intacta.
3.9.09
Bicho, sonho, fúria
Uma cabeça de nuvem, cimento, a árvore que aponta ambição para o céu, constante aproximação, assim é tão fácil sonhar, assim um homem não tropeça nos seus monstros de estimação, certo dia contaram-me uma estória assim.Ouve, há pessoas más e pessoas boas, pessoas grandes e pessoas pequenas, pessoas que ganham a vida de madrugada e que são roubadas durante o dia, há muita gente na fila que não sabe se isto tem fim ou para que serve, vê, aqui está um monte de papel usado, cada um deles eterniza informações de tremenda importância, até que os engulam as baratas. Os três filhos de Marília, idade, profissão, nome completo, é um exemplo, estão todos cá.
É o conhecimento, meu caro, se o queimam ele volta a atacar sob a forma de cheiro a bicho pestilento. Se o ameaçam com a ignorância, o bicho primeiro mata e o bicho, depois, morre.
Diz, um filho por cada raíz, se te roubam a verdade e a atiram para longe, não te rales, o mar, que tudo engole e tudo devolve, trá-la de volta. No final de cada página há sempre uma surpresa, um país a renascer numa janela de comboio. É a nação ou a carruagem que avança furiosa? O sonho que tropeça ou o homem, trapalhão, morto pelo bicho da página?
Pintura: Anthony Green
13.
Quando cuspo para o chão passo as doenças de dentro para fora.
Quando for muito velho o meu corpo e o exterior vão ser quase a mesma coisa.
Quando morrer, eu e o corpo de fora vamos ter a mesma doença.
Isto pelo menos é que eu penso enquanto estou deste lado.
Morrer é ter a mesma doença que o planeta inteiro.»
Gonçalo M. Tavares, O homem ou é tonto ou é mulher
29.5.09
25.5.09
O projecto da minha vida
«Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.
(...)
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa – como direi? – absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.»
Herberto Helder
(o poema - não o projecto - remeto carinhosamente para aqui)
10.4.09
Um tempo sem mentira
que o digam meus ossos
tem dois olhos sobre a nuca
e reza todos os dias
que em todas as horas
houve um tempo
sem mentira»
Foge Foge Bandido



