22.3.07
Depois de sair do Cacilherio de Ary
contribuintes banais, aspiradores.
Disfarçam a sorte, o medo,
pequenos temores.
Despejam o lixo, o cérebro, o erro
e ainda vapores.
Rasgam o tempo, o largo,
a roda, a saia,
são violadores.
9.3.07
A chave de mudar o mundo
Caminhava sempre de olhos na calçada, sem olhar para a frente nem para trás, sem avançar muito com os passos, sempre com a comichão de querer voar nos pés, até ao dia em que encontrou escondida entre dois tufos de erva selvagem um objecto que cegava de tanto brilhar: era a chave de mudar o mundo.
A partir desse dia, o caminho fez-se com o pescoço inclinado para cima, na busca de uma fechadura entre as nuvens.
E o mundo sempre igual.
Nem para a frente nem para trás. Caminhava para cima com a vontade, trepava cada minuto com níveis acentuados distância do chão. Pisava-o mas não o pisava. Não há cabeças, não há homens distraídos a esconderem-na atrás de um jornal, não há o velho furioso contra quem acaba de chocar com violência, não há os apitos em marcha lenta nem a travagem sonora sobre a passadeira, sobre o sinal vermelho que quase atropelava este cabeça no ar. Tudo é a infinita escadaria da mudança, o acesso ocasional para mudar o mundo.
E ele caminha, caminha com dez passos de distância entre cada pé, vai, vai sempre, língua apontada ao sol, em tom de ameaça de matar o mundo, percorre na vertical dia após dia. Quer abrir a porta, mas… mudar o mundo com quer cor?
25.2.07
Lisboa outra vez

De cada vez que alguém agarra uma caneta para escrever, é o pânico geral.
Como se a escrita fosse o laboratório de onde emergirá a próxima arma de destruição em massa.
Enquanto algumas dezenas de lisboetas tiram seus dias para falarem sozinhos na pesada linha do metro, eu espalharei palavras de rorret (terror ao contrário), pelos arredores deste ascensor. Enquanto os homens falam, ou dormem, ou olham o vazio, ou consentem a solidão, concretizo minhas aspirações de rorretista num papel grande, em janela próxima deste brinquedo que desce e ascende.
Às vezes dá-me a sensação que se um novo Mozart surgisse com composições de génio, em plena carruagem, ninguém se apercebia. Mas a ideia para este texto era só mesmo a de sorrir e dizer que vou viver na Bica. Em busca da chave de mudar o mundo, verde, com sonhos de Tejo.
16.2.07
8.2.07
29.1.07
A menina do quadro

Na cama também nasce uma flor, despenteada no cabelo, de amanhecer espantado nos olhos. Não é ter sono, é a varanda virada para os barcos da noite. Num escuro tão denso que cada onda é um problema auditivo e o oceano um violento ruído de sal. Mesmo assim, adormece. Cabeça apoiada à esquerda, suspensa no travesseiro alto, à espera que, lá em baixo, junto ao estremecer da parede da janela, passe o último comboio para a madrugada. Mesmo assim, não é seguro que durma inteira. O corpo descansa por turnos e é a vez dos olhos se abrirem e os lábios também. O bater de dentes porque a carruagem já atravessou o frio a 60 à hora e deixou-lhe o corpo a gemer de viagem. Mudança de turno. Mesmo assim, não é seguro que tenha acordado sem excepções. É a vez das mãos tactearem o espaço, três palmos à esquerda, do lado onde melhor assenta o rosto, encontra a boca traçada na linha imaginária ligeiramente diagonal à sua. É doce, porque provou. E mesmo assim dorme e mesmo assim é seguro que beije.
18.1.07
sopra-lhe ternura e desliga
Experimenta o espasmo,
espalha o espanto pelo corpo
como é galopante a espera.
Expira o fumo para uma mesa sozinha
sobra-lhe voz para a certeza no telefone:
dois passos num só
caminham em silêncio para uma chave.
Chegam ao outro lado da rua como o desejo nos vinte dedos da mão. Porque, para além dos dois braços cada, sabem que são quatro.
3.1.07

é minha ou tua a saliva que largo no travesseiro
pelo teu peito sobem temperaturas de espanto
agora que a luz é opaca e nos refugiamos na sombra um do outro
até que amanheça uma sombra única antes de adormecermos
ou que duas almas iluminadas pela força motriz
olhos nos olhos
sejam duas flechas sem descanso.
o caminho arrepiado de lábios, saliva é do beijo dos dois.
o não saber se é um acordar ou se ainda nem adormecemos
são estrelas ou sol quem bate à janela para entrar
entrelaçados com nós de braço nos braços, não abrir
mas somos marinheiros que abandonam o barco para nadar em céu aberto.
Pintura: Henri de Toulouse-Lautrec; The Bed.
13.12.06
Breve apontamento sobre a felicidade
São avós muito jovens. E comem as maçãs colhidas pelos rebentos.
Casados há trinta e sete anos, sabem que o amor não se experimenta, que não precisam de fazer nada. Andam a pé.
