6.8.06

se a beijas na boca e a boca é de ouro,
se a abraças ao espelho e dia é de chuva,
se te sabe a mel todo o mal sem sabor,
se és tu o sonho na ferida dos pulsos,
se gritas como um gato quando lhe queimam a asa,
se não te vêem quando és sangue,
se a beijas nos lábios e ela não sabe,

desconfia,
de tudo.

27.7.06




















Se nos roubam é porque nos querem, iludidos por um desejo de mastigar o outro, aprisionados em investidas cerradas a sorrisos alheios, se nos roubam é porque invejam a técnica do sorriso, têm medo dos ratos.
O ladrão não caminha, desloca-se aos pulos - é o medo de que o chão lhe caia em cima, tem pavor da humanidade, só por isso é filho da puta, só por isso rouba como se desse à luz um coelho. Não sonha, se sonhasse tinha umas orelhas maiores e não passava despercebido, ressona com a consciência em voz baixa, deixa dó, plena consciência da merda que é a cada novo assalto,
uma vontade de lhes escrever,
olá como vai?
na testa. oferecer-lhes uma gravata, torná-los estrelas de rock, pendurar-lhes algemas de prata nas orelhas, estilo brinco de argola, fazer-lhes festas na cabeça em vez de os encher de murros, insultá-los ao contrário.
É urgente confundir os sentidos e roubar toda a gente. Mas ao contrário.
Se nos roubam é porque nos desejam.

3.7.06

Casa










Um homem nasce com tudo, nem lhe deram tempo para pedir, deram com ele assim, sentado num buraco verde de quatro pernas. Casa, livro, roupa lavada. Com a alegria de palhaço, de quem nunca conquistou nada, tudo lhe veio colar-se ao corpo, encontraram-no assim, desolado. Observa a roupa rasgada suspensa no skate, com inveja. Já leu três ou quatro romances dos grossos, páginas de açúcar numa diabetes de vida, balões que não rebentam, encontrou-os numa estante, encontraram-no assim, de mãos erguidas para o céu, súplica por tempestades, pastilha elástica colada ao céu da boca.


* The Isle of the dead, Arnold Bocklin

28.6.06

Se soubesse escrever,
escrevia assim:

História roubada II

Quando tinha 16 anos a Maria decidiu ensinar o cego, o Manuel, a dançar.
Um, dois, três. Olha sem veres para mim. Olha-me sem me veres a olhar-te.
Um, dois, três ais. Caiu-lhe nos braços. Aos 18 anos comunicou às amigas: vou casar com o cego, o Manuel, aquele com quem me vêem passear nos jardins
(flores degoladas na luz de inverno)
com quem me vêem, sem que vos veja, dançar.
Casaram
(sorrisos sinos e brancos azuís de primavera).
Aos 22 anos, o Manuel, o cego, trocou a Maria por uma manca.

D' estas mãos.

9.6.06

Os olhos do outro.














Quanto mais amarrada a boca, maior a urgência de falar. Não são parte do silêncio, os olhos. Brotam dimensões de intervenção onde tudo grita com ternura, órbita na órbita, um no outro com tanta intenção que torna marítima e secular a compreensão, qualquer tentativa vã, este desejo pelo indefinido, a procura de palavras inexistentes, como se na própria definição, no todo definido, vivesse o bicho que infecta e apodrece a vida. É por isso que me olhas, te observo, é por isso e, sobretudo, por não ser isso. Porque é também mais complexo, ou então é nada, todo este desejo que partilhamos na desajeitada carruagem comum.
E nunca me dirás se realmente me olhavas,
tão rápido como eu nunca ser capaz de to perguntar.

* Never-ending train, Neurone Pipero

6.6.06

6.6.6


Dança para mim, George, é sábado de manhã e preciso de mimo, é sábado de manhã e nem um fox-trot, George, dança para mim. Há meninos sem pernas a chorar lá fora, há meninas orfãs que perderam os filhos, ou filhos que perderam os braços e o pai, amor, faz alguma coisa. Estou farta, canta para mim, George, aquela do sinatra que assobias no golfe, antes de cada tacada, aquela daquele filme que não viste porque estavas no golfe, querido. Mas canta na mesma, George. O mundo é tão bonito e tu a deixar que seja mulher infeliz. Arranca-me esta burca de vergonha, George, dá-lhe com os punhos de uma só acentada, como fazes com o whisky, George.
Sabes que há crianças sudanesas que com quatro anos já usam farda? Mata-as, coração, metem-me medo. Ensina-as a dançar, a cantar, mata-as. Ouvi dizer que há paquistanesas que gostam de basquetebol, não deixes, ternura. Hoje é sábado de manhã, leva-me ao deserto, queima essas montanhas de sangue, coisa doce. Não duvides de mim, não sou feliz, leva-me a uma igreja, amor. Sabias que há negros no Brasil, na Alemanha e na Suécia? Faz alguma coisa, George, dança para mim. É sábado de manhã e ainda não te vi na tv, meu fofinho. Sabias que as mulheres palestinianas põem ovos? E não me disseste nada, George?

28.5.06

Lama.






















Tinta para um lado, tela para o outro, não a borro mais a teus olhos.
É a lágrima finita,
é o passado que nos traiu e futuro que escolhemos,
é o último lugar a dois.

* Karel Appel, The Discovery

16.5.06

am Opernring




















autorizar a madeira a arder até ao caruncho, fortalecer o passeio que rebente o engarrafamento das vidas, fulminante ceifada que lhes carbonize a fome. desbloquear as deixas do sonho, afogar os copos em silêncio. abraça-te em mim até as pontes falarem, tatuarem uma árvore na rosa-dos-ventos. encimentar a chama dos rios.

* Det syke barn, Edvard Munch

10.5.06

Áustria




















O Zé é daquelas pessoas fáceis de admirar. Uma janela de honestidade. Zé, ou então José Bento Amaro, irreverente jornalista, insubstituível camarada de redacção.
Não me deixou sair sem enrolar o braço amigo de quem sabe por cima do meu ombro. Sem sussurrar o segredo mais Público de um grande profissional:

Mantém-te fiel aos teus princípios
e àquilo que achas correcto.

Depois foi-se, enigmático, com o cigarro por acender na boca.
E amanhã voo, com o instante a entoar sentido na minha cabeça.

Sim.


* Gartenweg,
Gustav Klimt

6.5.06














sete rios de cegonha em cada olho
seios olhos de lobo em cada mão
cinco cascas de mão em cada ramo
quatro troncos de toca em cada nuvem
três buracos de chuva em cada pau
duas pauladas bem dadas
um morto.


* ilustração: El cielo azul de un luz quieta, Pablo Aizoiala.

26.4.06

Chamada geral


Muito cuidado
porque anda por aí um montanhista à solta,
com uma objectiva afiada
com todos os graus de sensibilidade.
Nasce um novo mito: "O adorável homem das neves". Diz-se que a seus olhos só se vê disto.

6.4.06

Do fundo do sono.

















Sei bola de nuvem a bola de nuvem o que se passa com os pássaros
mas não conto enquanto não me crescerem as asas

Ilustração: Joan Miró

4.4.06

Era uma vez uma sopa rápida, a 4 de Abril.

E viveram todos felizes para sempre entre lagos e guarda-sóis. Na Primavera encurtavam as saias ao ritmo do amadurecimento da flor e, entre sorrisos e suspiros, até se vivia com dignidade. Mas o para sempre começou a demorar muito tempo a acabar, as ervas secaram, os olhos em rugas, o vinho entornava, mãos em cruz, e todos se aborreceram com tanta água e sol. A 12 de Março inscreviam-se no Clube Conservador da Caça à Borboleta e enchiam o edifício dos serviços Prisionais de Asas Flutuantes com milhares de espécies - era um arco-íris violento de se ver.
E talvez por isso, ou talvez por outra loucura qualquer, a 21 de Março logo se revoltavam - os mesmos que foram ferozes caçadores - e se convocava uma magna reunião da qual brotaria a União Internatural de Defesa de Seres Voadores Visíveis ou Invisíveis Feios ou Bonitos. Convocavam-se manifestações, acções de campanha, jornadas de luta clandestina e aguardava-se com inquietação de herói o assalto final ao edifício prisional. Bandeiras coloridas, achas, acordeões, rugidos de leão, anéis de fogo a saltar de orelha em orelha - tudo em cortejo até às portas largas da grande gaiola.
Como se constituísse novidade, portões abertos denunciavam um edifício deserto, descuidadamente abandonado, ocupado por crias de aranha sem meios nem recursos para impor o clima de disciplina desejável em tão sagrado local.
A invasão ingénua limitava-se então a um desiludido abrir das celas e um desfrutar do voo precipitado das borboletas ao som de 'vivas', uivos, gritos de liberdade e de 'não havíamos sido nós a prendê-los'?.
E assim, sempre assim, passavam as Primaveras, todas as Primaveras do para sempre que já era manco e nem tinha Verão.