9.5.05



Haverá diferenças:
Um. É delicioso carregar um amigo às costas, pesado com os seus fantasmas de alcóol, às 8 da manhã junto ao Mar quase-beija-Porto. O Mar que amanhace em faces cansadas de tanto beber, de tanto biber. É inspiradora a travessia de sono e desejo que se arrasta (pés no chão, sonhos no horizonte) nos passos de exílio da Queima das Fitas do Porto.
O Porto é único ninho onde me permitem amar a minha solflor.

Pássaro-bati-asas-para-aqui. Para o aqui definitivamente sol de Braga.

Dois. É assutador que nenhum amigo me carregue às costas, fantasma só com copos em dívida, e que o caminho se arraste pelas ruas improvisadas, asfixiadas pelos monstros gigantes com portas e janelas. São de medo e de tédio os pensamentos do homem que queria sonhar. É inaceitável que não beba o suficiente para que possa ignorar a dor de mais um dia que vou falhar, dos tão carenciados alguéns a quem vou faltar. Às 8 da manhã, nem-um-rio, a sair do Enterro da Gata de Braga.
Braga é ser extraterrestre na única morada que tenho. É estar proibido de amar, sem nunca ter percebido porquê.
Haverá sempre.


ilustração: "Solflor" de Franco A. Stancato

4.5.05

O tão profundo BENFICA que há em mim



Era um menino tímido e estava lá. Arrepiado e surpreendido e com lágrimas no rosto. Nunca tinha pensado como a força colectiva, quando está feliz, pode ser tão divina. Era ainda no tempo dos 120 mil num Estádio. Na Luz de todas as glórias. Estávamos no ano de 1994 e o BENFICA era CAMPEÃO. Zero a zero contra o vitória de Guimarães. Quem queria saber. Estavam em campo todos os golos marcados ao longo da época. Estavam em campo as "papoilas saltintantes" e os seis golos marcados ao Sporting, em Alvalade. Estavam João Pinto, Vitor Paneira, Rui Costa, Schwartz, Mozer, Veloso, Isaías, Rui Águas. E eu chorava de tão feliz. De tão arrepiado. Bandeira às costas a gritar para a grande onda vermelha que a Luz sempre foi. O BENFICA era CAMPEÃO e fiz todos os quilómetros de regresso a casa com um sorriso nas lágrimas dos olhos. Ser Benfiquista é doença mortal. A fase terminal de estar sempre a sonhar com o vermelho na alma.
Ainda sou um menino e não mais vi o BENFICA CAMPEÃO, não mais chorei tanto e tão profundo. Mas sempre ergui a bandeira, vesti a camisola com orgulho. Fomos sempre os melhores em Amor à "chama imensa", sempre tivémos um "orgulho muito nosso".
Sou um menino pequenino e estamos no ano de 2005. Tem que ser desta, tem que ser. Porque este menino quer muito chorar de arrepios, quer muito saltar com toda a alma. Quer ver vermelho pintado pelas ruas.
Este ano este menino chorará.

3.5.05

Às vezes isto.

"Sonhar! Mas eu já não posso sonhar só isto. Preciso de sonhar mais - dum sonho sem limites que me satisfaça.
Dias há em que me deito na cama e não tenho mais vontade de me levantar. Olho em roda. Toda a vida me parece aborrecida e vazia. A minha falta de energia exaspera-me. Estou gasto e com rugas aos trinta anos. Estou cansado e esgotado, sem imaginação e sem nervos. Aflige-me não ter sido moço, não ter vivido como os mais, e insulto a minha quimera que me parecia de oiro, por quem me esgotei, para afinal a encontrar gelada e fugidia... Errei o caminho: não era por aqui."

Raul Brandão, A morte do palhaço e o mistério da árvore

2.5.05

Primeiro de Maio para reflectir


Dia do trabalhador, em Portugal: abençoadamente com os hipermercados fechados e com mineiros no sofá a verem os pontapés na bola.
Dia do trabalhador, pelo mundo, neste texto e imagem recortados do Público:

"Dia do Trabalhador no Paquistão
Um idoso transporta bidões de plástico nas ruas de Peshawar como forma de ganhar a vida, num dia em que o mundo celebra o Dia Internacional do Trabalhador. Manifestações por todo o Paquistão pedem melhores salários e condições para os trabalhadores."

29.4.05

Sonhos da Menina

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

Cecília Meireles

26.4.05

Este aqui.

Podia mentir e fingir-te como é agradável fechar-me nas chaves da porta, dentro das ausências do mundo, a olhar para o tecto.
Podia fingir e sorrir-lhes lá fora com todos os dentes surdos. Ouvi-los atentamente nos seus "olás tudos bens" e responder sem malícia "hoje até era um bom dia para estar, se não chovesse tanto, se não chovesse, nas vagas, tão pouco".
Até podia ser qualquer coisa que não este bêbedo fumador numa solidão de livros fechados. Tu sabes, nos meus sonhos não existe mentira, há os pesados não-saber-que-dizer mas nunca nenhum deles mentiu.
Podia estar lá fora, abraçar e saltar cá dentro mas nunca soube fingir e hoje sou um monstro: hoje só quis saber de mim, hoje tenho vergonha de ser.

25.4.05

25 de Abril, Sempre!



Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

(porque sempre-sempre-sempre-sempre!!! é para nunca esquecer)

12.4.05

Escrito no Bom Jesus,
para uma menina
que, sem saber, sem querer, sem me ler, me ajudou a superar a dor de uma dor maior.
Fernando Pessoa diz que "a ferida dói como dói/ E não em função da causa que a produziu.". Eu digo que me doía e que ela nem sabia, ela nem me viu, nem lhe reconheço os gestos, a face, as linhas do corpo, mas ela estava lá. Reconhecer-lhe-ia o cruzar de pernas, as calças brancas coladas ao corpo e os óculos com varas de luz, se os visse. Estava lá e ajudou-me sem saber, o que ainda é mais misterioso e banhado de encanto.
Para a sua presença, para a menina-sem-nome, escrevi isto porque a amei violentamente.
A ti desconhecida:

Pediste-me o impossível. No relógio eram ainda zero horas, aquele tempo que pertence a dia nenhum. Entre o teu corpo e o meu há quatro árvores a tapar. Não lhes sei a raça: são só verdes para que a estória se torne mais simples de contar.
- os remos empurram o barco porque batem no fundo?
O impossível e eu fiquei com vontade de to dar.
A água não tem cor, carrega as tintas reflectidas no seu líquido. É verde enquanto as árvores forem mais próximas (e altas) que o escuro, tem vagas de negro para que não esqueçamos que até os troncos, as casas e as aves têm medo. E isso explica por que passa a água a vida a tremer. O puro, o límpido, o transparente teme pela sua vida. Treme.
Restam, nas margens, as rosas, as árvores verdes, as palavras de menina a saltarem à corda nas linhas do caderno: "café-café-lima-limão-sou-uma-metáfora-e-só-digo-que-não".
- porque não servem as velas para os barcos com remo?
E os peixes tremem com elas, movem-se sem ar agarrados às cores que alguém lhes deu e que lhes fogem. Algum deus, algum sol com varinha mágica lhes deu.
Na terra, a própria se encarrega de empurrar os carrinhos de bebé onde, ciclicamente adormecidos (como noites, como sinos), nos deixamos caír em precipícios.
E, depois, os peixes fingem-se de mortos flutuando com passividade à superfície da água. A cor da água é um grande reflexo: dos mundos e do vómito dos peixes. E da cotovia que a rasga ao amanhecer.

Não sei quem és. Mas, a quatro árvores pelo meio, foste companhia perfeita para tão insutentável dor. E agora foste-te embora. Era essa a tua missão: saber que não haveria lugar para ti se tivesses decidido ficar.
Com amor.
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

6.4.05



Queria riscar todas as fronteiras dos mapas até abrir um rio. Banhar de verde as civilizações de luz apagada. Corre dentro de mim esse líquido, deitado nas margens chamo-lhe profundo desejo.
Queria amarrotar o mapa, fazer tranças gaulesas nos países pintados a vermelho. Baptizar de sol nascente os magros-de-fome que morrem sem nome. Queria sal nos rios, plantar flores e árvores nos filhos do Oceano Índico. São irmãos-de-mar os inimigos de guerra.
Dobrar os mapas em papagaios de papel, arrastá-los para o alto voo, leccionar rodopios com um empurrão.
Há, nos mapas, países que crescem tanto que são obrigados a comer os seus próprios deuses e, pior!, os seus próprios filhos.
Queria riscar todas as fronteiras do globo com a palavras paz até rasgarem: brotarem lagoas com voos rentes de andorinha.
Nas margens, seduzidos pelo imoral odor da água, é mais fácil amar.
Há, nos mapas, países que mingam tanto que se reduzem a uma fome de fuga.
Não seriam os chamados Países em Dias de Vingança se no lugar de arames farpados crescessem mãos dadas de rios, se fôssemos tatuagens de pássaro em alto mar.

Está no papel (e nas assassinas lanças) o que as correntes nunca deviam ter vomitado do mar.

31.3.05

Só quando tombar. Avisem-me se caio.
Na alma crescem lugares vazios, buracos profundos de ausências. Hei-de fazer um berço para o silêncio, hei-de adormecê-lo nos braços de um qualquer lugar falante. O vento enche de terra os buracos escavados pela saudade, o vento é mais forte que o biombo das palavras. Principalmente quando este não existe.
Eu já tinha dito: os homens deviam comunicar unicamente através da arte. Diriam Olás com manifestações artísticas de encantar e não deviam ter mais nada a dizer.
Não sei muito bem sobre o quê ou para quem,
mas
isto é um aviso.

15.3.05

Trombar III

Crianças lá fora pintam trombas de elfante na macaca. E saltam, saltam, saltam até perderem a vez. Meninos lá fora: não há espaço que não seja pisado pela urgente correria de brincar. Não há chão que não salte com eles.
Elefantes lá fora, em navios, em balões prestes a levantar voo, em canoas de flores, saltam à corda com as riscas das meias das meninas.
Adultos lá fora usam vatas e brincam mais que as crianças sonhadoras.
É este o meu feliz acordar.

9.3.05

Meu amor meu amor (Meu Limão de Amargura)

Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
Do seu próprio lamento
Meu limão de amargura
Meu punhal a crescer;
Nós parámos o tempo
Não sabemos morrer
E nascemos nascemos
Do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
Meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura
Do nosso afastamento.

Meu amor meu amor
Meu nó de sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento:
Este mar não tem cura
Este céu não tem ar
Nós parámos o vento
Não sabemos nadar
E morremos morremos
Devagar devagar

Ary dos Santos

3.3.05



Vêm ter comigo. Perguntam: como te classificas? por onde vieste? como fizeste para vir? e porquê isto? para quê? e o futuro?
Não sei o que responder e respondo mal: respondo tudo errado sem o querer. Podia ter dito: não respondo, não queiras saber de mim, não é bom que saibam de mim, nem sei se quero. Mas não. Respiro fundo, esfrego os olhos e respondo pacientemente com toda a confiança do não saber o que digo. Do querer dizer.